A Azevedo & Travassos Energia comunicou à CVM, em 03/11, que pretende multiplicar por 16 a produção de petróleo em terra na Bacia Potiguar até 2029, usando só ativos que já tem. O plano substitui a aquisição que a Brava Energia encerrou, mas a conta de cerca de R$ 70 milhões ainda não tem fonte definida: a própria empresa cita geração de caixa, novas fontes ou aumento de capital.
O que a Azevedo & Travassos anunciou no plano operacional da ação AZTE3?
A companhia apresentou em Comunicado ao Mercado um programa de incremento de produção nas 15 concessões terrestres que detém na Bacia Potiguar, por meio de subsidiárias integrais. A meta, nas palavras do documento, é sair dos atuais 50 barris por dia para aproximadamente 800 barris por dia, com perfuração e reativação de poços.
O alvo são as reservas provadas e prováveis (2P) dessas concessões: cerca de 3,0 milhões de barris, dos quais aproximadamente 1,3 milhão são reservas provadas ainda não desenvolvidas, ou seja, petróleo que já foi reconhecido, mas que depende de poços novos para sair do chão. Mas por que a empresa resolveu detalhar isso agora?
Por que o plano saiu agora: o que aconteceu com a compra dos polos da Brava?
Porque a rota anterior foi interrompida. Segundo a própria companhia, que citou o Fato Relevante de 16/09/2026, ela vinha concentrando esforços e investimentos na compra dos Polos Porto Carão e Barrinha, também na Bacia Potiguar, junto à Brava Energia. O contrato (Purchase and Sale Agreement) foi encerrado unilateralmente pela Brava “às vésperas do fechamento”, e a Azevedo & Travassos entrou com pleito judicial, que segue em curso.
O motivo de publicar o plano, de acordo com o comunicado, é a incerteza sobre desfecho e prazo dessa briga. Em vez de esperar a Justiça, a empresa mostra o que faz com o que já possui. Para o acionista, a diferença é concreta: crescer com ativos próprios reduz a dependência de uma decisão de terceiros, mas troca uma compra pronta por um programa de obras com risco de execução. Quanto isso custa e quanto promete?
Quanto custa o plano e o que a empresa projeta ano a ano?
O investimento estimado é de cerca de R$ 67,5 milhões entre 2027 e 2029, mais R$ 2,3 milhões ainda em 2026 para reativação e estimulação de poços. Do total de 2027 a 2029, R$ 58,5 milhões vão para desenvolvimento (poços, equipamentos e instalações) e R$ 9,0 milhões para manutenção. A companhia também divulgou projeções anuais de produção média, investimento e receita bruta:
| Ano | Produção média (boe/dia) | Investimento (R$ mi) | Receita bruta (R$ mi) |
|---|---|---|---|
| 2026 | 25 | 2,3 | 3,8 |
| 2027 | 200 | 22,6 | 30,3 |
| 2028 | 501 | 27,7 | 73,2 |
| 2029 | 799 | 17,2 | 112,5 |
Três leituras que a tabela permite. Primeiro, o gasto se concentra antes da receita: o investimento atinge o pico em 2028 e cai em 2029, quando a produção ainda sobe. Segundo, somando as receitas brutas de 2027 a 2029, chega-se a R$ 216,0 milhões contra R$ 67,5 milhões de investimento. Só que receita bruta não é lucro nem caixa: o trecho do documento a que tivemos acesso não traz margem, custo de operação nem tributos, e também não mostra o preço do petróleo adotado. Esse preço pesa, e a oscilação do Brent, como mostramos na nossa cobertura do plano do Irã para o Estreito de Ormuz, mexe direto na receita de qualquer produtora.
Terceiro, uma ressalva honesta: a produção média projetada para 2026 (25 boe/dia) fica abaixo dos 50 barris por dia que o documento chama de “atuais”, e o trecho que lemos não explica a diferença. Convém esperar os relatórios para entender se é premissa conservadora ou outra coisa.
Em que ordem os poços entram e o que dá para cobrar da empresa?
O plano soma 18 poços: 6 reativações ou estimulações de poços existentes (Periquito, Periquito Nordeste, Tanatau e Andorinha), 10 perfurações de poços produtores (Concriz, Periquito, Tanatau e Andorinha) e 2 poços exploratórios nos blocos POT-610 e POT-566. A execução é em fases, o que, segundo a companhia, permite ajustar as etapas seguintes conforme os resultados. O começo do cronograma indicativo:
Sobre aumento de capital, a resposta é “pode ser”. O documento aponta a necessidade de financiamento via geração de caixa, novas fontes ou aumentos de capital, sem fechar qual combinação. Com receita bruta projetada de apenas R$ 3,8 milhões em 2026, é difícil o caixa próprio bancar sozinho o salto de investimento de 2027. Se vier aumento de capital, quem não acompanhar tende a ser diluído, e esse é o ponto que mais pesa para o acionista atual.
A ação AZTE3 é boa? O que o plano sustenta e o que deixa em aberto
O comunicado não dá base para um “sim” ou “não”, e não vamos fingir que dá. Ele organiza o que está a favor e o que continua sem resposta:
- As reservas existem no papel: cerca de 3,0 milhões de barris 2P, dos quais 1,3 milhão provados e ainda por desenvolver, e o plano usa menos de um quinto delas até 2029 (cerca de 0,56 milhão de barris, somando as produções médias anuais projetadas ao longo de 365 dias).
- O plano é feito em fases e usa ativos próprios, sem depender do desfecho do processo contra a Brava.
- Não há fonte de financiamento definida, e aumento de capital está na mesa.
- A própria empresa declara riscos geológicos, de perfuração e de licenças regulatórias, e a receita projetada é bruta.
- O processo contra a Brava segue aberto, sem prazo ou valor divulgados nos trechos que lemos.
Para dimensionar o que é uma operação desse porte, vale lembrar como uma grande produtora reporta números em escala bem maior, como na nossa leitura da produção recorde da Petrobras. A Azevedo & Travassos joga em outra categoria: pequena, com poucos poços e muito dependente de cada um deles.
Muda a tese de “esperar a compra dos polos da Brava” para “acompanhar se a empresa executa e como financia”. Não há dividendo à vista no que foi divulgado, e o risco de diluição por aumento de capital passou a fazer parte da conta. Quem está posicionado deve tratar o plano como uma promessa com cronograma, não como resultado.
Reativação dos 6 poços — prevista para dez/26; é o primeiro teste de execução.
Relatórios mensais de evolução do plano — a empresa se comprometeu a divulgá-los; compare a produção com a média projetada de 200 boe/dia para 2027.
Financiamento — qualquer anúncio de novas fontes ou aumento de capital antes do investimento de R$ 22,6 milhões previsto para 2027.
Pleito contra a Brava — qualquer decisão ou acordo que reabra a aquisição dos dois polos e mude o plano.