As bolsas europeias caíram na sexta (06/11) porque a venda de ações de tecnologia que começou em Nova York chegou ao continente, segundo o Estadão Conteúdo, em texto republicado pelo InfoMoney. Para quem investe no Brasil, a bolsa ficou em segundo plano. O que pesou no bolso foi o dólar e a aposta de que o Fed volte a subir os juros depois de um payroll muito acima do esperado.
Por que as bolsas da Europa caíram na sexta?
Segundo o Estadão Conteúdo, as bolsas europeias operaram em baixa na manhã de sexta com o aumento da aversão a risco. Uma liquidação global de ações de tecnologia derrubou Nova York na véspera e a Ásia naquela madrugada, e os investidores ainda lidavam com a incerteza sobre papéis ligados à IA depois de os democratas conquistarem o controle do Congresso dos EUA. A agência dá a razão do medo: a vitória ampla dos democratas nas eleições de meio de mandato ajudou a provocar a onda de vendas em ações de IA, por receio de que mais regulação freie a expansão da infraestrutura do setor.
Não foi um susto de um dia só. A queda veio em três etapas, e a Europa foi a última a cair:
Na quinta, a Europa ainda tinha conseguido limitar o estrago. Segundo a Reuters, o Stoxx 600 fechou em queda de 0,38%, aos 654,87 pontos, depois de chegar perto da máxima histórica durante o pregão. Na sexta, essa proteção acabou. Isso leva à pergunta seguinte: se o problema era a IA americana, por que a Europa caiu tanto?
Por que a Europa caiu menos que Nova York e a Ásia, mas a queda piorou ao longo do dia?
A Europa caiu menos porque tem pouca tecnologia. De acordo com o Estadão, o índice europeu foi relativamente melhor que os de Wall Street e da Ásia porque tem menos ações ligadas à IA. O curioso é que, na manhã de sexta, o setor europeu de tecnologia ficou perto da estabilidade, e as perdas se concentraram em mídia, saúde e varejo, que caíam mais de 2%. A Bloomberg descreveu de outro jeito: recursos básicos lideravam as quedas, enquanto imobiliário e telecomunicações estavam entre os melhores desempenhos. As duas versões apontam para o mesmo fato. Foi uma venda de risco em geral, e não só de tecnologia. Além disso, a Teleperformance desabou 18% depois de cortar a projeção de crescimento de receita do ano.
A queda aumentou ao longo do pregão. A tabela compara o primeiro retrato da manhã, do Estadão, com o fechamento informado pelo site The Private Banker:
| Bolsa | Manhã (6h38) | Fechamento |
|---|---|---|
| Frankfurt (DAX) | -1,12% | -1,7% |
| Londres (FTSE 100) | -1,28% | -1,5% |
| Paris (CAC 40) | -0,89% | -1,4% |
| Madri (IBEX 35) | -0,31% | -1,0% |
| Lisboa | -0,81% | não informado |
| Milão | -0,40% | não informado |
Os números de fechamento não batem entre os veículos. O The Private Banker diz que o Stoxx 600 chegou a cair cerca de 1,6%, a pior queda em um dia desde julho, e reconhece que os relatos sobre a queda variaram entre 1% e 1,6%. Pela nossa conta, a mínima de 644,72 pontos fica 1,55% abaixo do fechamento de quinta. Mesmo assim, o tamanho da perda precisa de contexto: o índice ainda acumula alta de mais de 10% no ano e passou o S&P 500, cujo ganho em 2026 caiu para pouco mais de 7%. Foi uma correção num mercado que estava perto da máxima, e não um colapso. Já o payroll, que os investidores esperavam desde cedo, mudou o assunto.
O que o payroll mostrou, e por que isso importa mais que a queda europeia?
O payroll veio forte, e o problema é justamente esse. Os EUA criaram 165 mil vagas fora da agricultura em outubro, contra uma previsão de 65 mil. As estimativas variavam de casa para casa: no levantamento do Projeções Broadcast, iam de 40 mil a 100 mil vagas, com mediana de 60 mil. Nenhuma pesquisa chegou perto do número real.
Quase 2,5 vezes a previsão de 65 mil da Reuters.
Caiu de 4,2% em setembro. O mercado esperava estabilidade.
Agosto passou de 133 mil para 186 mil vagas e setembro, de 29 mil para 60 mil.
A economia americana não está esfriando, como o fraco dado de setembro sugeria. No começo de outubro, o número de setembro saiu fraco, com apenas 29 mil vagas, e isso tinha reduzido as apostas de nova alta dos juros. Agora a leitura mudou de direção. Segundo análise do ASA, o resultado reforçou a percepção de resiliência da economia americana e abriu espaço para uma nova alta de juros pelo Fed em dezembro. A página com os juros dos EUA hoje e a próxima reunião do Fed mostra onde a taxa está e quando a decisão sai.
Juros americanos mais altos atraem dinheiro para os EUA e tiram de mercados como o Brasil. Foi isso que apareceu no câmbio brasileiro na sexta.
Se o mundo caiu, por que o Ibovespa subiu?
Porque a B3 tem quase nada da tecnologia que estava sendo vendida. O Ibovespa subiu 1,39% na sexta, aos 168.498,45 pontos, e com ganho de 0,34% na semana interrompeu uma sequência de três semanas de perdas. O índice brasileiro é feito de bancos, commodities e empresas de serviços, e não de fabricantes de chips. A explicação vale para a Europa também. Ipek Ozkardeskaya, analista do Swissquote Bank, descreveu à Reuters uma rotação da tecnologia para outros setores e dos EUA para outros mercados, por causa das midterms. Detalhamos o resultado eleitoral e a primeira reação dos mercados na reportagem sobre quem ganhou as midterms e como as bolsas reagiram.
O dólar, porém, foi na direção contrária. O dólar comercial subiu 0,36% e fechou a R$ 5,50, a maior cotação desde dezembro de 2025. No mercado à vista, a Agrolink registrou R$ 5,5115 e alta de 0,44%. A diferença vem do tipo de cotação, e as duas apontam para cima. Também na sexta, Bradesco e XP revisaram suas projeções para 2026 e 2027, com inflação mais alta e forte desaceleração da atividade. O risco doméstico, que tinha diminuído desde que o PL reconheceu a vitória de Lula, ainda não deixou o câmbio em paz.
Se a sua carteira está em ações e FIIs da B3, a liquidação de tecnologia passou longe na sexta. O ponto de atenção é o dólar em alta junto com o Fed mais duro, porque essa combinação costuma pressionar os juros futuros no Brasil. Os juros futuros pesam no preço dos FIIs de tijolo e dos títulos prefixados. Quem tem BDRs ou ETFs de tecnologia americana sentiu a queda em dólar, mas o real mais fraco amorteceu parte da perda em reais. Nenhum desses movimentos pede venda por pânico. Eles pedem acompanhamento.
As perguntas que ficam depois da sexta
A venda de tecnologia acabou? Ninguém sabe. Nem todo mundo vê o mesmo risco: John Plassard, da Cité Gestion, avaliou que o temor de regras mais duras para a IA não sumiu, mas por ora é compensado pelo investimento forte em data centers e por balanços resistentes. Uma prova disso é que a francesa Legrand subiu 5,5% na quinta depois de elevar pela segunda vez no ano a projeção de vendas, puxada por data centers.
A Europa vira refúgio? Em parte. A exposição menor à IA protegeu o continente nesta semana. Mas, como mostramos no texto sobre ações europeias expostas ao Brasil, um índice europeu em alta não garante nada para as empresas de lá que dependem da economia brasileira.
O payroll é definitivo? Não. O BLS lembra que o dado de outubro é preliminar e pode ser revisado nos dois relatórios seguintes. Setembro mostrou como isso pode virar a leitura do mercado.
Dólar: fechar de forma consistente acima de R$ 5,50 renova a máxima desde dezembro de 2025 e tende a pressionar os juros futuros e os FIIs.
Stoxx 600: perder a mínima de 644,72 pontos indica que a correção europeia está se aprofundando. Voltar acima de 654,87 pontos desfaz a queda de sexta.
Inflação americana (CPI de outubro): um número acima do esperado, somado a este payroll, praticamente confirma a alta do Fed em dezembro.
Revisão do payroll: se as 165 mil vagas forem revisadas para baixo no próximo relatório, o argumento a favor de uma alta dos juros perde força.