A China está mesmo se desfazendo dos títulos dos EUA?
Intermediário

China pode ter escondido bilhões em títulos dos EUA no Canadá

O volume de papéis norte-americanos sob custódia canadense quadruplicou em cinco anos e atingiu US$ 600 bilhões.

“Não é o Canadá. É o outro Canadá.”Operadores seniores de Wall Street a Vitaliy Liberman, da DoubleLine

A China está vendendo títulos dos EUA?

Não necessariamente: segundo gestores de Wall Street, a China pode apenas ter transferido a custódia de seus papéis para intermediários internacionais. Embora as estatísticas nominais mostrem uma retração constante da fatia direta de Pequim na dívida americana, os dados de outros países dispararam sem justificativa econômica evidente.

A dúvida ganhou força pública com o relato de Vitaliy Liberman, especialista em títulos hipotecários da gestora americana DoubleLine. Acostumado a dissecar mês a mês o perfil dos credores estrangeiros da dívida dos Estados Unidos, Liberman procurava pistas sobre um possível boicote coordenado por parceiros comerciais em resposta às barreiras tarifárias defendidas por Donald Trump.

Em vez de uma fuga generalizada de compradores estrangeiros, os relatórios revelaram uma movimentação curiosa: o volume de títulos norte-americanos mantidos sob custódia canadense quadruplicou em cinco anos, atingindo patamares nunca antes vistos na história do mercado de capitais.

Custódia no Canadá ~US$ 600 bi

Total em Treasuries e títulos de agências federais de habitação registrado no país vizinho.

Multiplicador 4x

O volume acumulado de títulos no Canadá mais que quadruplicou em um intervalo de cinco anos.

Tese colocada em xeque Desdolarização

A ideia de que a China liquidou em massa sua exposição aos Estados Unidos pode ser um erro de leitura.

O mistério do "outro Canadá": como quase US$ 600 bilhões mudaram de endereço

O Canadá acumulou discretamente quase US$ 600 bilhões em Treasuries e papéis emitidos por agências federais de habitação dos EUA. Esse valor supera em quatro vezes o montante registrado meia década atrás. A pergunta que intrigou analistas como Liberman era simples: por que investidores e entidades canadenses teriam aumentado sua exposição a tal ponto, justamente em meio a tensões tarifárias bilaterais e apelos por boicotes a produtos norte-americanos?

Ao consultar operadores com ampla experiência no mercado de títulos em Nova York, a resposta foi categórica. Para profissionais experientes do setor, o volume reportado como canadense seria, na verdade, capital chinês operando sob custódia de terceiros.

“Os profissionais mais experientes de Wall Street diziam: ‘Não é o Canadá. É o outro Canadá’. E, segundo ele, por ‘outro Canadá’ entendia-se a China.”Vitaliy Liberman, gestor na DoubleLine

Na prática, quando um banco central ou fundo soberano quer reduzir sua visibilidade política, ele não precisa vender seus ativos no mercado aberto. Basta transferir a custódia dos títulos para contas registradas em praças financeiras aliadas ou centros financeiros globais, como bancos sediados no Canadá, no Reino Unido, na Bélgica ou em Luxemburgo. A agência do Tesouro dos EUA registra o país de residência do custodiante imediato, e não o proprietário final.

Posição recente no Canadá US$ 600 bi
Posição há 5 anos US$ 150 bi

Por que Pequim tem enorme dificuldade para abandonar os Treasuries?

A narrativa de que a China planeja "puxar o tapete" dos Estados Unidos vendendo trilhões em dívida pública esbarra em limitações estruturais fundamentais. A economia chinesa é uma máquina de gerar superávits comerciais bilionários: todo mês, o país vende mais ao resto do mundo do que compra, acumulando montanhas de dólares que precisam ser aplicados em algum lugar seguro e líquido.

Não existe outro mercado no planeta capaz de absorver centenas de bilhões de dólares sem gerar distorções brutais de preços. Títulos da Europa, ouro e moedas de mercados emergentes oferecem volumes insignificantes quando comparados ao tamanho do mercado de Treasuries. Caso a China tentasse liquidar tudo de forma abrupta, ela desvalorizaria os próprios ativos que possui e forçaria uma valorização do yuan, o que aniquilaria a competitividade das exportações chinesas.

Ao camuflar as posições por meio de contas no exterior, as autoridades monetárias preservam a rentabilidade em dólar sem se tornarem alvos fáceis de sanções imediatas ou de críticas internas por financiar o rival geopolítico.

O que isso muda para quem investe no Brasil

Se a China não está vendendo títulos dos EUA de forma desordenada, o risco de um colapso imediato na dívida americana por motivos geopolíticos é muito menor do que o alarde sugere. Para o investidor brasileiro, isso significa que a taxa básica e os rendimentos dos Treasuries continuam sendo regidos pela inflação americana e pela política do Federal Reserve, e não por uma retaliação chinesa repentina. Quem aloca em renda fixa global ou em títulos atrelados à inflação (como o IPCA+ longo no Tesouro Direto) deve focar nos fundamentos fiscais e na atividade econômica, sem precificar pânico geopolítico infundado.

O rali dos títulos públicos em meio à volatilidade global

O mercado de Treasuries mostrou força recente ao registrar um forte rali em momentos de correção nas ações de tecnologia em Wall Street. Com o aumento da aversão global ao risco, os títulos soberanos americanos voltaram a ser a principal opção de proteção de capital dos investidores internacionais.

Esse movimento de busca por segurança ocorre em um cenário de divergência: enquanto a renda fixa nos Estados Unidos se fortalece quando o mercado busca abrigo, no Brasil as taxas do Tesouro Direto frequentemente sofrem pressão com a subida do dólar e as incertezas eleitorais e fiscais. No mercado doméstico, o título IPCA+ de prazo longo atingiu patamares elevados em dias de cautela global, reforçando que o investidor local precisa separar o comportamento dos juros americanos do prêmio de risco exigido para ativos brasileiros.

O que acompanhar daqui para a frente

Para não cair em análises superficiais sobre a dívida pública norte-americana, vale acompanhar três pontos-chave nos próximos relatórios de fluxo internacional:

1

Relatório TIC do Tesouro Americano — Observe não apenas a linha da China, mas a evolução combinada de países intermediários como Canadá, Bélgica e Reino Unido.

2

Superávit comercial chinês — Enquanto Pequim mantiver superávits comerciais em dólares, ela será forçada a reinvestir esses recursos em ativos denominados na moeda americana.

3

Curva de juros dos Treasuries de 10 anos — Os rendimentos de longo prazo nos EUA balizam o custo do dinheiro no mundo todo e servem como termômetro real da demanda por dívida soberana.

Atenção com narrativas alarmistas: manchetes que anunciam o "fim do dólar" ou o abandono iminente dos Treasuries pela China costumam ignorar como funciona a liquidação financeira internacional e as limitações das reservas cambiais globais.