“Talvez esta seja uma das duas ou três oportunidades deste século, destes últimos 25 anos em que a gente faz entrada no mercado, em que existe uma assimetria muito grande ainda para as ações domésticas.”Christian Keleti, fundador da AlphaKey, ao podcast Stock Pickers
Por que a AlphaKey vê uma das maiores oportunidades da Bolsa em 25 anos?
A combinação de preços deprimidos nas ações com a expectativa de redução da taxa Selic colocou o mercado acionário brasileiro diante de uma assimetria histórica, segundo Christian Keleti, fundador da gestora AlphaKey. Em participação no podcast Stock Pickers, reportada pelo InfoMoney, o executivo apontou que empresas voltadas ao mercado interno acumulam uma das melhores relações entre risco e retorno já vistas nas últimas duas décadas e meia.
O argumento central da gestora não é de otimismo cego, mas sim de matemática de balanço: quando a taxa básica de juros sobe demais e permanece elevada por longos períodos, ela penaliza duplamente as empresas. De um lado, comprime o valuation (o múltiplo de preço pelo qual os investidores aceitam negociar o papel), já que a renda fixa passa a pagar retornos elevados sem risco de oscilação de mercado. De outro, sufoca a operação com custos financeiros que drenam o caixa corporativo.
Para Keleti, a virada desse ciclo cria uma assimetria positiva expressiva: o investidor atual paga preços que já embutem um cenário severo de juros punitivos, enquanto qualquer alívio na taxa básica destrava lucros represados sem que a receita precise crescer de forma espetacular logo no ponto de partida.
Como os juros altos sufocaram as empresas da Bolsa nos últimos anos?
O juro alto corroeu a rentabilidade corporativa por meio do custo dos empréstimos atrelados ao CDI, de acordo com o diagnóstico apresentado por Keleti. Muitas companhias listadas na Bolsa atingiram patamares críticos de alavancagem financeira simplesmente porque o serviço da dívida cresceu mais rápido do que a capacidade de geração de caixa das operações.
No mercado brasileiro, a esmagadora maioria das dívidas corporativas emitidas via debêntures ou crédito bancário é indexada ao CDI somado a uma sobretaxa (spread). Quando a Selic se mantém em patamares restritivos, o encargo financeiro sobre essas linhas explode. Uma empresa com dívida líquida equivalente a três vezes o seu Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) passa a queimar praticamente toda a geração operacional apenas para transferir recursos aos credores.
Segundo o gestor da AlphaKey, isso forçou administrações inteiras a direcionar o caixa operacional majoritariamente para o pagamento de juros e amortizações, sacrificando investimentos de expansão, dividendos e a recomposição de margens. Como consequência direta, o lucro líquido contábil despencou ou virou prejuízo, afastando investidores e afundando o preço das cotas na Bolsa.
O encargo financeiro consumiu o caixa livre das companhias, zerando margens líquidas.
Ações locais passaram a ser negociadas com desconto profundo em relação à média histórica.
Cada ponto a menos na taxa básica alivia o custo do passivo e devolve resultado à linha final.
O que muda para as ações domésticas com o início da queda dos juros?
A recuperação do resultado não depende de milagres operacionais, mas sim do alívio financeiro imediato nas despesas das empresas com dívida pós-fixada. Conforme apontado por Keleti no programa, a redução dos juros básicos reverte diretamente o estrangulamento do caixa, transferindo valor das mãos dos credores de volta para o patrimônio líquido dos acionistas.
Para entender o tamanho dessa alavancagem operacional reversa, imagine uma companhia que fatura regularmente e gera R$ 100 milhões de Ebitda, mas carrega R$ 500 milhões em dívidas indexadas ao CDI. Se o custo global da dívida recua alguns pontos percentuais ao ano, dezenas de milhões de reais deixam de evaporar na conta de despesas financeiras e fluem diretamente para o lucro líquido. O indicador Preço sobre Lucro (P/L) cai rapidamente, tornando o papel ainda mais barato sob a ótica dos analistas.
Além disso, o gestor ressaltou que esse movimento ganha tração quando há perspectiva de controle do endividamento público e estabilização macroeconômica. Sem o governo drenando toda a liquidez do mercado para financiar déficits crescentes, a curva de juros futuros fecha, reduzindo a taxa de desconto aplicada a todas as empresas da Bolsa.
Quais são as condições para essa tese de 25 anos realmente funcionar?
A tese da AlphaKey depende criticamente da melhora no ambiente fiscal e da desaceleração da dívida pública, fatores sem os quais o alívio monetário pode ser interrompido precocemente. Keleti frisou que o otimismo ganha sustentação após momentos de inflexão política e de reajuste nas projeções de juros, mas a disciplina orçamentária é a âncora de todo o processo.
Se as contas públicas continuarem sob desconfiança dos agentes econômicos, a taxa Selic até pode iniciar uma trajetória descendente, mas os juros longos (as taxas negociadas nos títulos do Tesouro IPCA+ de prazo estendido) tendem a permanecer elevados. Nesse caso, o alívio corporativo é apenas parcial, já que a confiança dos consumidores e a capacidade de planejamento das empresas continuam limitadas.
Governo sinaliza disciplina com a dívida, os juros longos cedem e as ações domésticas passam por reprecificação acelerada.
O risco fiscal trava a queda dos juros, o corte da Selic estanca e empresas alavancadas continuam sob estresse financeiro.
Como o investidor pessoa física deve se posicionar diante desse cenário?
A busca por assimetria não significa comprar qualquer empresa endividada na esperança de uma salvação milagrosa, mas sim filtrar negócios saudáveis que foram excessivamente punidos pelo pessimismo geral do mercado. Christian Keleti destacou a atratividade pontual de ativos domésticos, que foram os mais sacrificados durante a fase dura da política monetária restritiva.
Para quem aloca capital pensando no médio e longo prazo, momentos em que o consenso de mercado foca exclusivamente no risco costumam coincidir com os melhores preços de entrada. Quando os cortes de juros se tornam evidentes para todo o mercado e os balanços corporativos já estampam lucros recuperados, as cotações costumam ter subido de forma expressiva, eliminando grande parte do ganho de reprecificação.
Se a tese de Keleti estiver correta, a renda fixa pós-fixada atrelada ao CDI perderá rentabilidade gradualmente à medida que a Selic recuar, enquanto as ações da economia real capturam valor duplo: o ganho operacional com a despesa financeira menor e a expansão de múltiplos de mercado. A postura prudente envolve manter uma reserva de oportunidade equilibrada e priorizar ações com boa liderança de mercado e capacidade comprovada de atravessar ciclos de crédito apertado.
A visão de Christian Keleti toca no ponto nevrálgico do ciclo econômico brasileiro: a Bolsa precifica o futuro, não o retrovisor. O sofrimento das empresas alavancadas em juro alto foi real e machucou cotistas por anos, mas a reversão do custo de dívida é o gatilho mais rápido para recuperar margens contábeis. A oportunidade existe e tem respaldo na história financeira recente, contanto que o investidor selecione companhias resilientes e não confunda "empresa barata" com empresa financeiramente insolvente.