Por que a inflação vai piorar em 2026?
Três choques chegaram na mesma data. O Banco Mundial divulgou hoje o seu Commodity Markets Outlook de outubro, projetando alta de 23% no índice geral de commodities em 2026. Na mesma quarta-feira (28), o Confaz aprovou aumento do ICMS sobre gasolina, diesel e gás de cozinha, com vigência em fevereiro de 2027. E o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) manteve a previsão de intensificação do El Niño em novembro, com risco para as safras de verão. Nenhum dos três é choque pontual.
Alta de +2,22% na sessão; tensões no Oriente Médio e interrupções no Mar Negro comprimem os estoques globais.
Energia sobe 32%, alimentos 10% — segundo maior nível desde 2013.
Acima do teto de 4,5% — e o Focus projeta 5,19% para o fechamento do ano.
O petróleo opera há semanas no nível mais alto desde 2022, puxado pelo conflito no Oriente Médio e pelas interrupções logísticas no Mar Negro. O impacto chega no Brasil pelo custo de combustíveis, fertilizantes, transporte e energia elétrica — e para acompanhar em tempo real o que cada sessão faz no preço, a cotação do Brent está disponível no site.
O que o Banco Mundial publicou hoje sobre petróleo e commodities
O Commodity Markets Outlook de outubro, divulgado nesta quarta (28), projeta que a média anual do Brent em 2026 chegue a US$ 91 por barril — ante a média de US$ 69 registrada em 2025 — antes de recuar para US$ 79 em 2027 no cenário base. O Banco Mundial explica que o conflito no Oriente Médio reduziu os estoques globais de petróleo e que os danos à infraestrutura de produção russa no Mar Negro persistem. Juntos, esses fatores devem derrubar a oferta global de petróleo em 5,2% em 2026, segundo o relatório — a maior queda em mais de quatro décadas fora de 2020.
Do lado dos alimentos, o El Niño combinado com as interrupções nos embarques de grãos deve empurrar os preços globais do setor 10% em 2026 e mais 7% em 2027, acumulando 18% em dois anos. Em um cenário adverso — conflitos mais intensos e choques simultâneos —, o relatório aponta que os preços dos alimentos podem ficar 12% acima da projeção base, superando os níveis de 2022. O pico do Brent em US$ 110 no dia 17 de outubro já havia sinalizado que essa trajetória estava em curso.
O ICMS que está assinado para fevereiro de 2027
O Confaz aprovou hoje o reajuste anual obrigatório das alíquotas fixas de ICMS sobre combustíveis, calculado com base nos preços médios da ANP de fevereiro a setembro de 2026 comparados ao mesmo intervalo de 2025. Os novos valores entram em vigor em 1º de fevereiro de 2027 e foram formalizados nos convênios ICMS 127/2026 e 128/2026, publicados no Diário Oficial da União desta quarta.
O diesel leva o maior reajuste — R$ 0,13 a mais por litro — porque os preços do derivado subiram mais intensamente no período de referência da ANP. Para o botijão de 13 quilos de gás de cozinha, a conta fecha em R$ 0,91 a mais. Vale notar o contraste: no início de outubro o governo federal havia reduzido temporariamente os impostos federais sobre os combustíveis — os estados agora caminham na direção oposta para 2027, e o alívio de outubro vence antes de a nova alíquota entrar em vigor.
O diesel não fica só no preço do posto. É o combustível do transporte de cargas, e o seu encarecimento se transmite de forma difusa para o IPCA: fretes mais altos chegam na prateleira como pressão em praticamente todos os grupos do índice. O governo federal mantém subsídio de R$ 2,12 por litro para tentar conter o repasse imediato, mas o ICMS vai embutido no cálculo que o subsidiário recebe — o efeito é parcialmente absorvido, não eliminado.
El Niño e o crédito do agro: pressão pelos dois lados
O Inmet atualizou a previsão para novembro: chuvas acima da média no Sul e seca no Norte e Nordeste. O APEC Climate Center atribui 100% de probabilidade de manutenção do El Niño forte até o fim de 2026, e a NOAA indica 81% de chance de o fenômeno atingir a categoria "muito forte" no trimestre outubro-novembro-dezembro. O cenário de irregularidade hídrica já causou R$ 860 milhões em prejuízos no Paraná, segundo levantamento estadual, com perdas na qualidade dos grãos de inverno e dificuldades no plantio da safra de verão. Analistas apontam que o fator climático pode adicionar até 0,8 ponto percentual ao índice de inflação de alimentos.
"Minha percepção é que o governo está tirando do agro com as duas mãos."Octaciano Neto, fundador da consultoria Zera e ex-secretário de Agricultura do Espírito Santo, ao Money Times, sobre a possível cobrança de IOF sobre LCAs e CRAs
Enquanto o El Niño eleva os custos pelo lado climático, o governo estuda cobrar IOF sobre LCA, CRA e debêntures incentivadas — instrumentos que financiam o agronegócio via mercado de capitais. A tentativa anterior (MP 1.303 de 2025, com IR de 5% sobre novas emissões) foi derrubada pelo Congresso. Agora a estratégia seria via decreto presidencial, que dispensa votação. O estoque de LCAs soma R$ 563 bilhões e o de CRAs, R$ 176 bilhões — esses títulos atraem investidores justamente pela isenção fiscal, e uma tributação sobre eles reduziria a oferta de crédito privado para produtores rurais num momento em que os juros do Selic já encarecem o crédito institucional.
O que muda para quem tem renda fixa, FIIs e agro
Renda fixa e Tesouro IPCA+: mais inflação aumenta a rentabilidade nominal desses títulos, mas a volatilidade das taxas reais continua elevada enquanto o mercado reprecia o risco fiscal. O Focus de 23 de outubro projeta o IPCA 2026 em 5,19% e a Selic de fim de ano em 13,25% — o Banco Central está cortando devagar o suficiente para não romper as expectativas, mas três novos choques simultâneos podem forçar uma pausa no ciclo. Acompanhe a variação mês a mês pelo painel de inflação real para ver quando cada pressão aparece no índice oficial.
FIIs: fundos de tijolo com contratos reajustados pelo IPCA têm tese favorecida pela inflação mais alta. Os de papel (CRI/CRA), porém, sofrem risco duplo: taxas de juros maiores comprimem os preços dos ativos, e uma eventual tributação por IOF tornaria os recebíveis que lastreiam suas cotas menos atrativos. No agro, a ação mais relevante agora é monitorar se o decreto de IOF sai nos próximos 30 dias — se vier, o spread de LCA e CRA abre imediatamente, afetando tanto o custo do crédito rural quanto quem tem esses papéis na carteira.
IPCA de outubro — Resultado divulgado em novembro, primeiro a capturar o Brent acima de US$ 100 por mais de um mês seguido. Gatilho de atenção: leitura acima de 0,70% aumenta pressão sobre o Copom para pausar os cortes na reunião de novembro/dezembro.
Decreto de IOF sobre títulos isentos — Pode ser editado a qualquer momento, sem passar pelo Congresso. Se sair nos próximos 30 dias, o spread de LCA e CRA abre na hora. Monitore comunicados do Ministério da Fazenda.
El Niño em novembro — Se o Inmet confirmar a categoria "muito forte", revisões de safra de soja chegam ainda em novembro e pressionam os preços de alimentos no IPCA de dezembro. Acompanhe os boletins mensais do Inmet.
Copom de novembro — Com o IPCA acima do teto e três frentes de pressão novas no radar, uma pausa nos cortes seria o BC sinalizando que não vai acomodar inflação mais alta; um corte indicaria o contrário — e o mercado já está dividido sobre qual cenário vai prevalecer.