R$ 3,2 bi em contingências saem do balanço — por R$ 200 miFato Relevante da Cosan S.A. à CVM, 28/10/2026
CSAN3: o que aconteceu?
A Cosan S.A. (ação CSAN3) formalizou, em 28 de outubro de 2026, uma transação tributária com a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN) e a Receita Federal do Brasil que elimina R$ 3,2 bilhões em contingências fiscais da Raízen S.A. que eram de responsabilidade econômica da Cosan. O desembolso financeiro líquido foi de cerca de R$ 200 milhões. A ação não foi extinta e não saiu da bolsa — CSAN3 continua sendo negociada normalmente na B3.
A operação acontece no contexto do processo de recuperação extrajudicial da Raízen, iniciado em março de 2026. A transação tributária era uma das condições precedentes para o avanço do plano de reestruturação da Raízen, e a Cosan participou como interveniente — sem assumir as obrigações da Raízen com terceiros, mas disponibilizando créditos de prejuízo fiscal para viabilizar o acordo com o Fisco.
Como funciona a matemática do acordo?
Segundo o Fato Relevante da Cosan entregue à CVM, das contingências totais sob sua responsabilidade, cerca de R$ 2,9 bilhões (líquidos dos depósitos judiciais existentes) foram elegíveis ao desconto de 63%, resultando em saldo de aproximadamente R$ 1,1 bilhão. Para quitar esse saldo, a Cosan disponibilizou à Raízen cerca de R$ 870 milhões em créditos de prejuízo fiscal (IRPJ e base negativa da CSLL), e o remanescente de cerca de R$ 200 milhões será pago em dinheiro. Os depósitos judiciais já constituídos também serão convertidos em renda no âmbito da transação.
R$ 3,0 bi eram classificados como risco de perda possível no balanço — passivo que pesava na percepção de risco da ação
Aplicado sobre os R$ 2,9 bi elegíveis; o saldo resultante de R$ 1,1 bi foi quitado sem caixa na maior parte
Prejuízos fiscais já existentes na Cosan, utilizados sem saída adicional de caixa; o pagamento à vista ficou em R$ 200 mi
Por que a Raízen tem contingências tributárias que são responsabilidade da Cosan?
A Raízen é uma joint venture formada em 2011 pela combinação dos ativos de açúcar, etanol e distribuição de combustíveis da Cosan com os da Shell. Nos acordos originais da JV, parte das contingências tributárias federais geradas dentro da Raízen é de responsabilidade econômica final da Cosan — mesmo que formalmente registradas nos livros da Raízen. Em março de 2026, segundo a Exame, a Raízen protocolou pedido de recuperação extrajudicial para reestruturar aproximadamente R$ 65,1 bilhões em dívidas financeiras, tornando-se a maior operação do tipo na história do Brasil.
Segundo Atlas Público e BPMoney, a transação tributária do grupo Raízen como um todo soma R$ 22,4 bilhões — dos quais R$ 16,7 bilhões são de responsabilidade da própria Raízen e R$ 5,7 bilhões são dos acionistas controladores, Cosan e Shell, que detêm cada uma 44% do capital votante da Raízen. A parcela da Cosan, de R$ 3,2 bilhões, está dentro desses R$ 5,7 bilhões atribuídos às controladoras.
O que isso muda para quem tem a ação CSAN3?
A CSAN3 acumulava queda de 56% nos últimos 12 meses no pregão de 27/10/2026, chegando a R$ 2,69, pressionada pela alta alavancagem da holding e pelos prejuízos recorrentes em ambiente de juros elevados. A tese de qualquer recuperação de preço depende de a Cosan entregar sinais concretos de desalavancagem. O acordo de 28/10 é o primeiro sinal desse tipo em meses: elimina bilhões em risco fiscal com saída real de caixa mínima.
O detalhe que mais importa para o balanço: dos passivos extintos, R$ 3,0 bilhões eram classificados como "risco de perda possível" — ou seja, obrigações que ainda não estavam integralmente provisionadas como dívida certa, mas que travavam a percepção de risco dos investidores e das agências de rating. Resolver esse passivo predominantemente com créditos tributários já disponíveis é, do ponto de vista financeiro, uma troca favorável. Por outro lado, a dívida total da holding não diminui com esta operação — o que muda é o perfil de risco fiscal, não o endividamento bruto.
- Passivo contingente de R$ 3,2 bi eliminado com desembolso de R$ 200 mi e créditos fiscais já existentes — eficiência fiscal alta
- R$ 3,0 bi em risco "possível" saem do radar do mercado; melhora a visibilidade sobre o balanço da holding
- Condição precedente do plano da Raízen cumprida, aproximando a resolução da recuperação extrajudicial
- Alavancagem total da Cosan não muda — a dívida financeira bruta da holding permanece; a desalavancagem ainda depende de venda de ativos ou de melhora no caixa operacional
- Homologação ainda pendente — a transação depende de validação judicial dos créditos fiscais de prejuízo fiscal; se contestados, os valores podem ser revistos
- Plano da Raízen em aberto — a recuperação extrajudicial como um todo continua; o impasse entre Cosan e Shell sobre novos aportes de capital na Raízen não foi resolvido por esta transação
Se você tem CSAN3, a notícia é positiva na margem: um passivo bilionário foi eliminado com saída de caixa mínima. Mas ela não muda, sozinha, a foto da holding — que continua altamente alavancada e dependente de juros menores ou de desinvestimentos para se recuperar. A ação não foi cancelada nem saiu da bolsa; o que mudou foi o perfil de risco fiscal, um componente importante — mas não o único — do problema maior.
O que vigiar nos próximos meses
Homologação da transação tributária — a Cosan informou que o acordo seguirá procedimentos de homologação e validação dos créditos de prejuízo fiscal junto à PGFN e à Receita Federal. Se os créditos forem contestados, o valor do pagamento à vista pode aumentar.
Avanço do plano de recuperação extrajudicial da Raízen — a transação tributária cumpre uma das condições precedentes. O próximo passo é a homologação do plano pelos credores e pelo Judiciário; qualquer aporte de capital pelas controladoras (Cosan e Shell) seria o sinal mais forte para a tese de desalavancagem da CSAN3.
Impacto contábil nos resultados da Cosan — os R$ 3,0 bi em risco possível que saem do passivo podem gerar reversão contábil no trimestre em que a homologação for concluída. Esse resultado não é entrada de caixa, mas melhora os indicadores de patrimônio líquido e tende a aliviar pressões de rating.