Lara Resende e o teto de juros: Durigan diz que a ideia tem "deficiências" e não está na mesa Relevância6,0
INICIANTE PTENES

Governo vai adotar o teto de juros de Lara Resende? Durigan diz que não

Sem proposta na mesa, o ministro diz que a conversa com Lula é sobre ajuste gradual das contas, e a resposta fiscal ainda não veio.

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou nesta terça-feira, 3, que a ideia do economista André Lara Resende de limitar os juros no País tem "várias deficiências" e que não existe nada parecido sobre a mesa do governo. A frase mexe com o bolso de quem tem renda fixa, ações ou dólar porque tenta apagar um susto que deixou o mercado nervoso na virada para novembro.

O governo vai adotar o teto de juros de Lara Resende?

Pelo que disse o ministro, não. Durigan classificou a proposta como "uma ideia incipiente que foi colocada para debate público" e disse que ela não está em avaliação. Ele afirmou também que não há agenda marcada com o presidente sobre o tema, mas deixou a porta entreaberta para o diálogo: ele e a equipe dele podem conversar com Lara Resende e com outros economistas, "como já temos feito".

“Do meu ponto de vista, é uma ideia incipiente que foi colocada para debate público, mas não é uma proposta a ser avaliada ainda.”Dario Durigan, ministro da Fazenda, nesta terça-feira (3)

O ministro foi além do "não" e atacou um boato específico. Segundo ele, Lula só teve agendas com os economistas da própria equipe, como o ministro do Planejamento, Bruno Moretti, e o próprio Durigan, e não com outros economistas. Isso responde, ao menos na versão do ministro, à notícia de que Lara Resende teria sido convidado a conversar no Palácio do Planalto, que ajudou a inflar a tensão do mercado.

O que está sendo tratado nessas reuniões, de acordo com Durigan, é um "ajuste gradual" das contas públicas, que respeite os compromissos de campanha. Nada, disse ele, "que justifique ao mercado ter uma posição de medo". Só que o próprio ministro admitiu que esse debate ainda não está fechado dentro do governo e que o presidente vai responder às "angústias" o quanto antes. Ou seja: o tema do teto de juros saiu da mesa, mas a resposta fiscal de verdade ainda vem.

Como um texto de 28 de setembro virou susto no mercado?

O artigo "Eu Acuso: uma proposta para eliminar os juros absurdos", assinado por Lara Resende, foi publicado em 28 de setembro. Durante semanas, segundo a análise do Money Times, ele quase não circulou fora do meio acadêmico e econômico. O que mudou foi o endosso político e uma notícia que pareceu confirmar que o texto chegaria ao governo.

28/09Publicação do artigo. Lara Resende propõe eliminar o que chama de "juros absurdos".
Último fim de semanaO texto ganha projeção. Gleisi Hoffmann e outras figuras ligadas a Lula o compartilham, e surge a notícia de um suposto convite para conversa no Planalto.
Início de novembroAlerta no mercado. Economistas falam em "cavalo de pau" e em espiral inflacionária.
03/11Durigan responde. Diz que a ideia tem deficiências e não está em avaliação.

A reação, descreve o Money Times, misturou temores de naturezas diferentes. Uns previam que o presidente daria um cavalo de pau na economia. Outros chegaram a falar em espiral inflacionária nos moldes da hiperinflação das décadas de 1970 e 1980. Houve ainda quem tratasse Lara Resende como "heterodoxo", palavra que, no jargão do mercado, os ortodoxos entendem como ofensa. O texto do Money Times pede para "colocar a bola no chão": a leitura dele é que o artigo vale menos como receita pronta e mais por reabrir o debate público sobre economia.

Isso tudo vem logo depois da reeleição, tema que já tratamos na análise sobre o impacto nos juros do quarto mandato de Lula. O mercado já entrava em novembro atento a qualquer sinal de como o governo trataria as contas, e a ideia de Lara Resende caiu exatamente nessa sensibilidade.

Quem é André Lara Resende, e por que o rótulo de heterodoxo é discutível?

Aos 75 anos, Lara Resende é um nome de peso: desenhou o Plano Larida e o Plano Real, tem doutorado pelo MIT e passou por bancos públicos, como o BNDES, e privados. O Money Times lembra que ele "é e sempre foi um liberal clássico", posição que ele defende no próprio texto recente e em seus livros. É esse currículo que explica por que a proposta incomodou tanto: não veio de um outsider, e sim de alguém que ajudou a derrubar a inflação no País.

Para separar o que está confirmado do que é temor, vale olhar os dois lados:

  • Confirmado pelo ministro da Fazenda: a ideia não é uma proposta em avaliação e não há nada parecido sobre a mesa.
  • Confirmado pelo ministro: o tema das conversas com Lula é um ajuste gradual das contas, respeitando compromissos de campanha.
  • Não confirmado: o convite a Lara Resende. Durigan diz que Lula só tem agenda com a equipe econômica dele.
  • Não se sustenta nas fontes: a ideia de que o governo vai impor a queda dos juros por decreto. As fontes não trazem esse plano.

O que muda para quem tem dinheiro investido?

Hoje, nada muda por causa da proposta: ela não está em avaliação, então não há regra nova para os seus investimentos. O efeito é de humor, não de norma, e aparece em preço. Na cotação da rodada de hoje, o dólar estava em R$ 5,49, alta de 0,98% no dia. Seria exagero atribuir todo esse movimento ao debate, mas o ruído sobre juros e contas públicas costuma aumentar a procura por proteção na moeda americana.

O que isso muda para você

Quem está em renda fixa pós-fixada, como Tesouro Selic ou CDB atrelado ao CDI, ganha pela taxa de juros do momento. Um teto ou corte forçado diminuiria esse rendimento, e é por isso que a ideia assusta. Mas Durigan disse que ela não está em discussão, então o rendimento de hoje não muda por esse motivo. Quem tem ações brasileiras e dólar sente mais o ruído do que a decisão: o risco de curto prazo vem da incerteza fiscal, não de uma medida concreta.

A pergunta que importa para o seu bolso é outra: como será o ajuste das contas? É nesse terreno que o mercado costuma reagir de verdade, como na leitura que fizemos da dívida bruta do Brasil em setembro. Se a resposta de Lula às "angústias" vier crível, o susto perde força. Se vier vaga, o debate sobre juros volta com mais peso.

O que acompanhar daqui para frente?

1

A resposta de Lula sobre o ajuste das contas — Durigan prometeu "o quanto antes". É a data que o mercado espera, e ela ainda não existe.

2

Qualquer agenda de Lula com Lara Resende — hoje o ministro diz que não há nenhuma. Se aparecer, o tema volta à mesa.

3

O desenho do ajuste gradual — o ministro diz que o debate interno não terminou. O tamanho e o ritmo do ajuste pesam mais para os juros do que qualquer artigo de opinião.

4

O dólar como termômetro do nervosismo — referência de hoje: R$ 5,49. Alta mantida sem notícia nova indica que o susto não passou, mesmo com o desmentido.

Por fim, vale lembrar que o debate de juros já vinha sensível antes disso. A queda dos juros futuros durante a campanha mostrou como o mercado precifica expectativa política. A fala de Durigan tenta tirar uma incerteza do caminho; a que sobra, o ajuste fiscal, continua com a palavra de Lula.