Por que o EWZ despencou quase 20% no aftermarket de Nova York?
A reação internacional foi contundente nas primeiras horas após a apuração. O fundo de índice EWZ (iShares MSCI Brazil ETF), negociado na bolsa de Nova York, registrou uma queda de quase 20% no seu valor durante as negociações estendidas (o chamado aftermarket) na noite de domingo, de acordo com dados de mercado reportados pelo InfoMoney.
O movimento acelerou à medida que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) consolidou a contagem dos votos do segundo turno. Com 99,78% das urnas apuradas, Luiz Inácio Lula da Silva confirmou a reeleição ao atingir 51,76% dos votos válidos, superando Flávio Bolsonaro, que obteve 48,24% dos votos.
A liquidez no mercado fora de hora é significativamente menor. Por ser negociado no domingo à noite fora do pregão regular das bolsas norte-americanas, o movimento no aftermarket tende a amplificar oscilações, refletindo ordens de investidores estrangeiros que buscam ajustar posições antes que a B3 e as bolsas de Nova York abram formalmente na manhã de segunda-feira.
O que é o EWZ e por que o mercado olha para ele no domingo?
O EWZ funciona como a principal vitrine da bolsa brasileira no exterior. Gerido pela BlackRock, o iShares MSCI Brazil ETF busca replicar o desempenho de uma carteira composta por dezenas de grandes empresas brasileiras listadas na B3 — como Petrobras, Vale, Itaú Unibanco, Bradesco e Banco do Brasil.
Como a B3 fecha na sexta-feira e só reabre na segunda-feira pela manhã, o EWZ torna-se o único instrumento altamente líquido em dólares para medir como o capital estrangeiro precifica eventos políticos e econômicos que acontecem nos finais de semana.
Usado por fundos internacionais para buscar proteção imediata contra riscos específicos do Brasil antes do pregão local abrir.
Negociações fora do horário regular costumam exagerar movimentos percentuais devido ao menor volume de compradores ativos.
O dólar embutido no ETF acelera as perdas. Por ser cotado na moeda norte-americana, a variação do EWZ embute duas forças simultâneas: a expectativa sobre o preço das ações no Brasil e a expectativa sobre a trajetória da taxa de câmbio (USD/BRL). Quando o mercado antecipa desvalorização do real acompanhada por queda nas ações locais, o ETF em Nova York sofre um impacto dobrado.
Quais setores tendem a sentir o impacto na abertura da B3?
A abertura do mercado local costuma absorver o sinal externo, com focos de pressão em áreas específicas. Embora a variação de 20% no aftermarket possa não se traduzir de forma matemática idêntica na abertura da B3 por conta do reequilíbrio de liquidez, determinados segmentos ficam expostos no curto prazo.
Receio de alterações na política de dividendos, intervenções em preços ou redefinições no plano de investimentos corporativo.
Alta nas taxas dos juros futuros (DI) pressiona empresas endividadas e que dependem da concessão de crédito doméstico.
Receita atrelada ao dólar e dependência direta da demanda global ajudam a amortecer parte do estresse na moeda nacional.
O mercado de renda fixa e os contratos de DI abrem o dia no centro das atenções. Além da curva de ações, os contratos futuros de juros tendem a refletir prêmios de risco mais elevados no trecho longo, impulsionados pelas incertezas quanto à condução da política fiscal e à composição da equipe econômica do novo mandato.
O que isso muda para quem investe na renda variável?
Se você possui ativos no mercado brasileiro, o movimento no EWZ sinaliza que a segunda-feira terá volatilidade atípica e possíveis gaps de baixa na abertura. Vender ativos de maneira precipitada durante leilões de abertura geralmente faz o investidor pessoa física consolidar prejuízos motivados pelo pânico temporário de fundos estrangeiros.
Decisões sob estresse em dias de grande volatilidade raramente geram bons resultados. Movimentos de repactuação de risco promovidos por capital estrangeiro geram distorções no valuation de curto prazo. Para o investidor focado no longo prazo, o foco deve se manter na capacidade das empresas de gerarem caixa e na higienização da liquidez de cada posição na carteira.
Atenção aos leilões de abertura: É comum que a B3 acione mecanismos de proteção, como leilões de cotação estendidos em papéis de grande peso (como estatais e bancos), para conter movimentos desordenados provocados por ordens automáticas pré-mercado.
Quais gatilhos fiscalizar ao longo dos próximos dias?
A reação inicial do mercado costuma ser superada pelos anúncios concretos nas semanas seguintes. Para avaliar se a queda de curto prazo no EWZ se transformará em uma tendência prolongada ou se haverá recuperação, o mercado acompanhará três sinais fundamentais:
Anúncio da equipe econômica — A indicação dos nomes para o Ministério da Fazenda e posições de controle orçamentário ditará a credibilidade do governo eleito perante o mercado financeiro.
Sinais sobre a trajetória fiscal — Definições sobre o cumprimento de metas fiscais, controle de gastos públicos e a manutenção da sustentabilidade da dívida pública brasileira.
Composição do Congresso Nacional — A capacidade de articulação política para a aprovação de reformas ou contenção de pautas que aumentem despesas obrigatórias.
Visão do Rico aos Poucos: A queda de quase 20% no EWZ no aftermarket reflete o reposicionamento imediato e defensivo do capital internacional frente ao resultado eleitoral de 51,76% x 48,24% apurado pelo TSE. Para a pessoa física, o momento exige serenidade: evite operações no ímpeto da abertura do pregão, observe o comportamento das taxas de juros nos títulos públicos e aguarde as primeiras definições sobre a equipe e as metas econômicas para ajustar suas posições com base em dados, e não em ruído de mercado.