Eleições 2026: 2º turno Flávio × Lula — o que muda no mercado
INTERMEDIÁRIO

Flávio Bolsonaro surpreende no primeiro turno e mercado reage com alta

O Ibovespa fechou em alta de 2,63% após a apuração mostrar Flávio Bolsonaro à frente de Lula.

O que aconteceu nas eleições de 2026 no primeiro turno?

Flávio Bolsonaro (PL) terminou o primeiro turno com 47,09% dos votos válidos, à frente de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que obteve 45,09% — confirmando o segundo turno para 25 de outubro. Com 99,73% das seções apuradas pelo Tribunal Superior Eleitoral, não há perspectiva de mudança no resultado. Os demais candidatos somaram menos de 8%: Augusto Cury (Avante) ficou com 2,89%, Renan Santos (Partido Missão) com 2,25% e Ronaldo Caiado (PSD) com 2,19%.

O resultado surpreendeu em dois sentidos. A maioria das pesquisas colocava Lula numericamente à frente na reta final da campanha — e a margem de dois pontos percentuais superou qualquer levantamento divulgado. O próprio presidente reconheceu o revés em pronunciamento após a apuração: "O resultado, muitas vezes, é inesperado. Eu confesso que estava convencido de que a gente ia ganhar em primeiro turno", afirmou Lula. A campanha de ambos os lados retoma já nesta segunda-feira, com foco total no eleitorado do campo oposto.

Por que o mercado reagiu bem — e o que isso diz sobre risco fiscal

A leitura dos investidores é direta: Flávio Bolsonaro à frente com quase dois pontos reduz, na percepção do mercado, a probabilidade de continuidade do perfil fiscal atual. Walter Maciel, CEO da AZ Quest, sintetizou em live no Market Makers: "O mercado dá confiança de que a direita fará mais ajustes no resultado primário, colocará a trajetória da dívida pública para baixo." Maciel esperava uma abertura do Ibovespa com alta de 10% nesta segunda-feira.

Na noite de domingo, o EWZ — principal fundo de ações brasileiras negociado em Nova York — disparou mais de 7%. Não é garantia de que o Ibovespa vai acompanhar na mesma proporção, mas indica o tamanho do alívio que os investidores institucionais já processaram. O índice encerrou esta segunda-feira em 192.114,55 pontos, com alta de 2,63%. Leonardo Mendes, da Manchester Investimentos, disse esperar que o quadro eleitoral leve o índice acima de 200 mil pontos, com efeito mais concentrado em ações de estatais e alívio na parte intermediária e longa da curva de juros — com a taxa do DI para janeiro de 2031 recuando para perto de 13,5%.

O que o primeiro turno não resolve: liderança em outubro não é vitória no dia 25. Com 47% × 45%, o país está dividido ao meio, e num segundo turno direto os votos migram de forma imprevisível. A incerteza continua — e o mercado vai reprecificar a cada pesquisa que sair nas próximas três semanas.

O que muda para o dólar até 25 de outubro

O dólar como ativo de proteção continua com tese otimista — e o resultado do primeiro turno reforça essa posição, sem encerrá-la. A proximidade dos percentuais e a indefinição sobre o perfil fiscal do próximo governo criam um cenário onde o prêmio de risco não desaparece com uma apuração. Câmbio deve operar volátil nas próximas três semanas: cada pesquisa de segundo turno, cada declaração de programa econômico e cada sinal de migração de voto vai ser interpretado pelo mercado.

Walter Maciel fez uma distinção que importa: "O Brasil está no melhor momento em termos de fundamento macro." A questão não é a capacidade do país de crescer — é a disposição do próximo governo de colocar a dívida em trajetória sustentável. Enquanto isso não estiver decidido, o dólar como proteção faz sentido na carteira independentemente de quem vencer o segundo turno.

O que os analistas esperam para ações de estatais

Leonardo Mendes, da Manchester Investimentos, apontou um efeito específico que vai além do índice: ações de estatais tendem a reagir de forma mais acentuada ao quadro eleitoral. A expectativa de uma gestão mais comprometida com reformas fiscais reduz o risco de interferência política nas empresas públicas — fator que pesou negativamente sobre papéis como Petrobras e Banco do Brasil nos últimos anos.

O aviso é obrigatório: esse raciocínio é de curto prazo e baseado em expectativa, não em fato consumado. O mercado já precificou parte do cenário favorável na alta desta segunda. Comprar estatais depois de uma alta de 7% no ADR em Nova York é entrar no preço de quem soube antes — e isso raramente é o melhor negócio. Quem já tem posição, segura. Quem não tem, espera o próximo ponto de entrada com mais clareza.

Por que o resultado do primeiro turno contrariou as pesquisas

A análise de Maciel da AZ Quest jogou luz em um padrão que os números confirmam: candidaturas que tentaram ocupar posição central na disputa sofreram. "Quem ficou no muro apanhou", afirmou. Caiado (PSD) ficou com apenas 2,19% — bem abaixo do que chegou a figurar em pesquisas anteriores. A distribuição sugere que o eleitorado de centro preferiu decidir entre os dois projetos principais já no primeiro turno, reduzindo o espaço para alternativas.

O analista também apontou os temas que fragilizaram o desempenho de Lula: "Desde o dia 1 ele não quis falar sobre segurança pública, corrupção e também não quer falar sobre economia." A campanha das próximas três semanas, com disputa direta entre dois candidatos, vai girar em torno exatamente desses temas — e a volatilidade dos ativos vai acompanhar cada movimento de intenção de voto.

O que acompanhar até 25 de outubro

Três sinalizadores para quem tem carteira exposta a Brasil:

  • Pesquisas de segundo turno: qualquer abertura ou fechamento da margem entre Flávio e Lula vai mover o mercado. Com dois pontos de diferença no primeiro turno, o desfecho é genuinamente incerto.
  • Curva de juros longa: o DI para 2031 recuando para perto de 13,5% seria o sinal de que o mercado está precificando ajuste fiscal no próximo governo. Esse termômetro é mais útil do que acompanhar o Ibovespa no dia a dia.
  • EWZ na bolsa americana: o fundo de ações brasileiras em Nova York move-se fora do horário de pregão da B3 e dá uma leitura do humor do investidor estrangeiro antes da abertura local.

Nossa posição de carteira não muda com o resultado do primeiro turno. IBOV segue em peso neutro — o alívio veio, mas os fundamentos de lucro das empresas não mudaram em um domingo. Dólar segue otimista, porque a incerteza fiscal não termina com uma apuração. A definição vem em 25 de outubro.