O que aconteceu com o CARE11 no informe de julho de 2026?
Uma miragem contábil e uma correção formal de registro. O Informe Mensal Estruturado de competência julho de 2026, protocolado sob o ID 1314591 em 10/09/2026 pela administradora Mérito DTVM, apontou um campo de dividend yield do mês de referência de 3,0925% — após marcar 15,45% no documento anterior (ID 1300658 de 26/08/2026). Para o cotista desavisado que acompanha agregadores sem checagem, esse dado pode sugerir que o fundo imobiliário CARE11 voltou a distribuir proventos no mercado. Não voltou.
A realidade dos fatos contábeis é taxativa: o fundo imobiliário CARE11 (Brazilian Graveyard and Death Care Services FII) não distribui um único centavo de rendimento desde setembro de 2021, totalizando mais de 56 meses consecutivos com repasse de R$ 0 aos cotistas. O valor indicado de 3,0925% é fruto das distorções dos informes estruturados padronizados que acompanham o fundo desde a transferência de administração da Trustee para a Mérito DTVM.
Em paralelo, o documento trouxe uma alteração estrutural no cadastro de cotas: o número de cotas emitidas foi retificado para 7.201.226,4800 cotas. No informe anterior, o registro apontava a marca inconsistente de 36.006.138,40. O patrimônio líquido encerrou julho de 2026 em R$ 249.012.074,89 (R$ 249,0 milhões), resultando em um valor patrimonial por cota (VP) de R$ 34,579120 (R$ 34,58).
O CARE11 pagou dividendos de fato ou é erro de informe?
Não houve pagamento de dividendos. O fundo encerrou o mês com amortizações de 0,0000% e rentabilidade patrimonial negativa de -0,0603%. O histórico oficial mostra que o último rendimento creditado pelo CARE11 ocorreu na competência de setembro de 2021, quando pagou R$ 0,001677 por cota. Desde então, são quase cinco anos de proventos rigorosamente zerados.
Essa ausência de proventos não decorre de mera retenção discricionária de recursos, mas sim da carência crônica de resultado financeiro positivo. No exercício de 2025, conforme detalhado no Informe Anual de dezembro de 2025 (item 4.1), o resultado do fundo foi negativo em R$ 1.422.529,04 (deficitário em R$ 1,42 milhão). No 1º trimestre de 2026, o resultado financeiro seguiu no vermelho, registrando déficit de R$ 477.335,98 no Informe Trimestral de 31/03/2026. Sem lucro operacional auferido em regime de caixa, o fundo opera com payout de 0,00%.
Atenção ao indicador: O campo de dividend yield de 3,0925% constante no informe estruturado de 10/09/2026 é um ruído contábil decorrente das fórmulas da planilha de escrituração da Mérito DTVM. O CARE11 não gerou nem distribuiu proventos no período.
| Mês de Referência | Provento Declarado (R$/cota) | Situação Operacional |
|---|---|---|
| Julho de 2026 | R$ 0,000000 | DY de 3,0925% no informe é erro de escrituração |
| 1º Trimestre de 2026 | R$ 0,000000 | Resultado financeiro negativo de -R$ 477.335,98 |
| Ano de 2025 | R$ 0,000000 | Resultado do exercício de -R$ 1.422.529,04 |
| Setembro de 2021 | R$ 0,001677 | Último provento distribuído antes da paralisação |
| Agosto de 2021 | R$ 0,008400 | Rendimento mensal regular do período |
| Julho de 2021 | R$ 0,008400 | Rendimento mensal regular do período |
Por que o fundo imobiliário CARE11 está em liquidação?
Porque os próprios cotistas votaram pelo encerramento formal do fundo. Em consulta formal encerrada em 03/08/2026, a assembleia geral aprovou que a administradora Mérito DTVM e o gestor Zion Gestão elaborem um Plano de Liquidação contendo a estimativa de prazos e o cronograma para monetizar os ativos e devolver os recursos devidos aos investidores.
Esse processo substituiu a antiga tese de investimento, que dependia de uma eventual abertura de capital (IPO) ou venda estratégica da fatia na Cortel Holding. Agora, a existência do fundo tem prazo contado: a gestão e a administração precisam detalhar os passos para liquidar o patrimônio, criar uma Comissão de Cotistas consultiva composta por 5 membros, apresentar relatórios trimestrais de governança e contratar auditoria independente antes de submeter a execução final a uma nova consulta formal dos cotistas.
CARE11 investe em que? O que compõe o patrimônio de R$ 249 milhões?
O CARE11 investe majoritariamente em participação acionária ilíquida no setor funerário e em jazigos cemiteriais. O fundo, formalmente constituído sob a razão social Brazilian Graveyard and Death Care Services Fundo de Investimento Imobiliário (CNPJ 13.584.584/0001-31), operando desde 12/12/2011, concentra o grosso do seu ativo total de R$ 249.578.820,05 em pouquíssimos ativos de baixíssima liquidez:
- Ações da Cortel Holding: O fundo detém 3.472.932 ações ordinárias (ON) da Cortel Holding S.A., representando 19,92% do capital social da empresa. Essa fatia foi avaliada no Informe Trimestral de 31/03/2026 em R$ 157.554.529,15 (R$ 157,6 milhões), correspondendo a aproximadamente 63% de todo o patrimônio líquido do fundo. A Cortel opera 16 cemitérios, 8 crematórios, 2 cremapets e planos funerários distribuídos em 6 estados. Trata-se de companhia fechada, com valuation baseado em laudo de fluxo de caixa descontado elaborado pela UHY Bendoraytes, sem liquidez em bolsa após a suspensão do projeto de IPO estruturado pela XP em 2021.
- Recebíveis da Cortel: Créditos no montante de R$ 17,9 milhões atrelados à própria holding funerária.
- Jazigos no Cemitério do Morumby: Imóveis físicos de destinação funerária com ritmo de comercialização lento ao longo dos anos.
- Caixa e Títulos Públicos: O informe de julho de 2026 registrou um total mantido para necessidades de liquidez de R$ 3.854.895,83 (R$ 3,85 milhões), sendo R$ 1.403.609,36 em disponibilidades imediatas de caixa e R$ 2.451.286,47 aplicados em títulos públicos federais. Os campos de títulos privados e fundos de renda fixa constam com saldo de R$ 0,00.
Qual o valor real por cota na liquidação frente ao preço em bolsa?
A resposta depende inteiramente do desconto que será aplicado na venda dos ativos da Cortel. Na data de 10/09/2026, a cotação de mercado do CARE11 registrou o fechamento de R$ 3,55. Diante de um valor patrimonial contábil de R$ 34,58 por cota, o múltiplo P/VP situa-se em 0,1027 — o que representa um preço negociado a cerca de um décimo do patrimônio escriturado nos laudos contábeis.
O mercado precifica as cotas a R$ 3,55 justamente porque a participação de R$ 157.554.529,15 na Cortel Holding depende de negociação privada entre acionistas fechados. Em um processo de liquidação forçada sem mercado secundário aberto, alienações em bloco costumam envolver fortes concessões de preço em relação ao laudo de avaliação teórica. Se o ativo for realizado por frações substancialmente menores do que o laudo da UHY Bendoraytes, o valor final devolvido aos cotistas ficará muito aquém dos R$ 34,58 contábeis.
Veredicto: Venda (Nota 3,0 de 10)
O CARE11 permanece classificado como Venda pela equipe do Rico aos Poucos. A distorção no informe de julho de 2026 — exibindo rentabilidade de 3,03% e dividend yield de 3,0925% em um fundo que não gera rendimentos há 56 meses e que acumulou déficit de R$ 1.422.529,04 em 2025 e de R$ 477.335,98 no 1T2026 — apenas confirma os ruídos operacionais e de governança que cercam o veículo.
Com a liquidação aprovada pelos cotistas em 03/08/2026, a tese tornou-se uma disputa pura de recuperação de capital em ativos ilíquidos. Para quem está fora, o risco de encarar anos de assembleias, custos de auditoria e comissão de cotistas não compensa o desconto aparente de tela.
O que acompanhar no CARE11 a partir de agora?
O investidor que detém cotas do fundo ou acompanha seu desfecho deve focar estritamente na apresentação e nos termos do documento que definirá o encerramento do veículo. Os pontos críticos para monitoramento são:
- Divulgação do Plano de Liquidação: A entrega da proposta detalhada por Mérito DTVM e Zion Gestão, contendo o cronograma estimado de realização das 3.472.932 ações da Cortel Holding (avaliadas contabilmente em R$ 157.554.529,15) e dos R$ 17,9 milhões em recebíveis.
- Consumo da Reserva de Liquidez: O ritmo de queima do caixa disponível, que encerrou julho de 2026 com R$ 1.403.609,36 em disponibilidades e R$ 2.451.286,47 em títulos públicos (totalizando R$ 3.854.895,83). Despesas de administração, contratação de auditoria independente e custos da Comissão de Cotistas consumirão essa liquidez caso não haja receita nova.
- Convocação da Nova Consulta Formal: O momento em que o plano final for levado a sufrágio dos 6.893 cotistas para aprovação dos cortes de valor patrimonial e prazos de resgate.