Tesouro mostra déficit de R$ 13,585 bi em agosto — o que muda para a renda fixa? Relevância4,0
INTERMEDIÁRIO PTENES

Contas do governo registram déficit primário de R$ 13,585 bilhões em agosto

Royalties do petróleo impulsionaram a arrecadação e ajudaram a segurar o resultado do mês, enquanto o acumulado em 12 meses atingiu R$ 68,7 bilhões.

Déficit Primário (Ago) R$ 13,585 bi Tesouro Nacional
Consenso do Mercado -R$ 14,4 bi Expectativa anterior
Déficit em 12 Meses R$ 68,7 bi 0,53% do PIB
Receita Líquida (Ago) R$ 187,8 bi +3,5% real YoY

O que aconteceu com as contas do Governo Central em agosto?

O Tesouro Nacional informou que o Governo Central registrou um déficit primário de R$ 13,585 bilhões no mês de agosto, um resultado negativo mas que apresentou melhora em relação ao mesmo período do ano anterior. No mês de agosto de 2025, o saldo negativo havia alcançado R$ 15,5 bilhões, mostrando que houve uma trajetória de recuperação marginal no resultado mensal.

O dado divulgado pelo Tesouro superou também as projeções do mercado financeiro. O consenso dos analistas apontava para um déficit de R$ 14,4 bilhões no mês, enquanto estimativas da XP projetavam um saldo negativo de R$ 14,1 bilhões. Apesar da surpresa positiva na comparação mensal, o quadro acumulado reforça que o desafio fiscal permanece elevado: no acumulado de janeiro a agosto, o déficit primário somou R$ 94,9 bilhões.

No acumulado de 12 meses, o resultado negativo atingiu R$ 68,7 bilhões, quantia equivalente a aproximadamente 0,53% do Produto Interno Bruto (PIB). O conceito de resultado primário mede a diferença entre o total de receitas arrecadadas e as despesas efetuadas pelo governo, excluindo do cálculo o pagamento dos juros da dívida pública. Por essa razão, o indicador é observado de perto por analistas e investidores para avaliar a trajetória das contas públicas e a sustentabilidade do endividamento estatal.

Por que o resultado fiscal de agosto veio melhor do que o esperado?

O avanço nas receitas do governo com a exploração de petróleo e recursos naturais ajudou a segurar o resultado fiscal de agosto acima das projeções do mercado. As receitas líquidas do Governo Central tiveram uma alta real de 3,5% na comparação anual, somando R$ 187,8 bilhões no mês.

De acordo com avaliação do economista Tiago Sbardelotto, da XP, um dos pilares dessa alta de arrecadação foi a categoria ligada à exploração de recursos naturais, com destaque para o ingresso de royalties do petróleo. O comportamento dessa linha de receita garantiu um alívio temporário para o caixa da União, compensando parte da pressão exercida pelas despesas obrigatórias.

Entenda o conceito: O resultado primário reflete o saldo entre o que o governo arrecada e o que gasta antes de pagar os juros da dívida pública. Quando há déficit, o governo precisa emitir mais títulos ou aumentar receitas para cobrir o rombo no orçamento.

Entretanto, analistas ressaltam que o alívio mensal proveniente de commodities e receitas não recorrentes não anula a necessidade de cautela. Embora agosto tenha ficado abaixo dos R$ 14,4 bilhões previstos pelo consenso, o volume acumulado em 12 meses de R$ 68,7 bilhões mostra que a despesa pública continua crescendo em ritmo forte, exigindo um nível elevado de arrecadação contínua para evitar uma deterioração maior dos indicadores fiscais.

Como o mercado de renda fixa reagiu aos dados e ao cenário externo?

As taxas dos títulos do Tesouro Direto registraram recuo nos prazos mais longos, com o Tesouro IPCA+ 2050 caindo de 7,13% para 7,03% ao ano. O movimento refletiu a combinação entre a leitura dos dados fiscais domésticos e os desdobramentos no cenário internacional, em um dia marcado por sinalizações sobre negociações entre Estados Unidos e Irã para o Estreito de Ormuz.

Título do Tesouro Direto Taxa Anterior Taxa Atual Variação
Tesouro IPCA+ 2050 7,13% 7,03% -10 bps
Tesouro IPCA+ c/ Juros Semestrais 2060 7,18% 7,07% -11 bps
Tesouro IPCA+ c/ Juros Semestrais 2045 7,31% 7,21% -11 bps
Tesouro Prefixado c/ Juros Semestrais 2037 14,10% 14,02% -8 bps
Tesouro Prefixado 2032 14,15% 14,08% -7 bps
Tesouro Prefixado 2029 13,90% 13,87% -3 bps

A queda das taxas esteve concentrada na parte longa da curva de juros do Tesouro Direto. O título Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais 2060 recuou de 7,18% para 7,07% ao ano, enquanto o Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais 2045 caiu de 7,31% para 7,21% ao ano. No segmento dos títulos prefixados, o Prefixado com Juros Semestrais 2037 teve recuo de 14,10% para 14,02%, o Prefixado 2032 recuou de 14,15% para 14,08%, e o Prefixado 2029 passou de 13,90% para 13,87%.

Além da pauta fiscal e do petróleo, o mercado financeiro acompanhou a divulgação dos dados de emprego da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), que mostrou taxa de desemprego em 5,3%, patamar próximo da mínima histórica. Em análise sobre o indicador, Rai Chicoli, estrategista-chefe da Monte Bravo, destacou que o dado mantém a leitura de que o Banco Central observa uma atividade econômica em desaceleração gradativa, porém com um mercado de trabalho ainda bastante apertado. No mercado de câmbio, o dólar comercial registrou cotação de R$ 5,20, com variação diária de +0,30%.

O que o resultado das contas públicas muda para o investidor pessoa física?

O desempenho do saldo primário altera a percepção do mercado sobre os prêmios de risco exigidos nos títulos públicos e o custo de financiamento do país. Quando o Governo Central apresenta déficits sistemáticos, as projeções para a relação dívida/PIB tendem a subir, o que costuma exigir juros mais altos para atrair compradores para a dívida pública.

Para quem investe em renda fixa, um déficit menor do que o projetado pode oferecer alívio pontual nas taxas de juros de longo prazo, gerando valorização no preço dos títulos públicos por meio da marcação a mercado. Por outro lado, o dado acumulado de R$ 94,9 bilhões nos primeiros oito meses demonstra que a trajetória fiscal ainda demanda atenção. Títulos atrelados ao IPCA e papéis prefixados longos tendem a oscilar mais quando o mercado ajusta suas expectativas sobre o controle de gastos.

Já no mercado de renda variável, taxas de juros mais elevadas decorrentes do risco fiscal elevam a taxa de desconto aplicada ao fluxo de caixa das empresas listadas na bolsa e dos fundos imobiliários. Isso significa que desequilíbrios persistentes no orçamento federal encarecem o crédito corporativo e reduzem o apetite por ativos de maior risco.

O que acompanhar nos próximos relatórios do Tesouro Nacional?

O investidor deve monitorar a sustentabilidade da arrecadação nos meses seguintes e o comportamento das despesas obrigatórias na composição do orçamento. Os pontos centrais a acompanhar nos próximos demonstrativos do Tesouro incluem:

  • Evolução das receitas com commodities: Verificar se a contribuição dos royalties de petróleo continuará compensando variações na arrecadação tributária tradicional.
  • Resultado acumulado do ano: Acompanhar se a trajetória do saldo acumulado, que atingiu R$ 94,9 bilhões até agosto, dará sinais de desaceleração nos meses finais.
  • Relação com o PIB: Observar se o déficit acumulado em 12 meses permanecerá controlado próximo ao patamar atual de 0,53% do PIB.
  • Curva de juros do Tesouro Direto: Avaliar o impacto das divulgações fiscais sobre as taxas dos papéis como o Tesouro IPCA+ 2045, 2050 e 2060, que costumam reagir com maior volatilidade às revisões do risco fiscal.

Visão do Rico aos Poucos: O déficit de R$ 13,585 bilhões em agosto veio melhor do que as expectativas do mercado, trazendo um alívio pontual para a curva de juros do Tesouro Direto. No entanto, com o rombo acumulado em R$ 94,9 bilhões no ano, o investidor pessoa física deve manter o foco em uma carteira diversificada, aproveitando as taxas atrativas da renda fixa sem negligenciar a proteção contra a inflação no longo prazo.