Segundo o InfoMoney, o Ibovespa fechou a semana com queda de 18,12%, a maior desde 2020 e a quinta maior desde o Plano Real. Para quem tem ações, a perda é direta; para quem tem FIIs e renda fixa, o recado é olhar o que mexe nos mesmos preços: juros, dólar e o humor com as contas públicas.
Por que o Ibovespa caiu tanto nesta semana?
A reportagem do InfoMoney associa o movimento a temor fiscal e externo, duas fontes de pressão ao mesmo tempo, e fala em mais uma queda do índice, a quinta. É essa combinação que costuma transformar um pregão ruim em uma semana histórica: o risco de dentro do país e o de fora empurrando a Bolsa para o mesmo lado. A fonte que temos não detalha quanto pesou cada um nem quais setores levaram a maior parte da perda, e não vamos preencher essa lacuna com palpite.
O que dá para dizer é que a semana não surgiu do nada. Em 28/10, na nossa cobertura da terceira queda seguida do Ibovespa desde a eleição, o índice já estava em sequência negativa. O que o InfoMoney consolida agora é o tamanho do estrago acumulado.
O lado fiscal tem números próprios. Como mostramos no dia de hoje, a dívida bruta do Brasil chegou a 82,93% do PIB em setembro. Quanto maior a dívida em relação ao PIB, mais o investidor se pergunta quem vai financiá-la e a que preço. Essa pergunta ficou mais barulhenta com o debate sobre o que o novo mandato pretende gastar, tema que a nossa matéria sobre o que a IFI disse sobre as promessas eleitorais abre com mais detalhe.
Quão rara é uma semana assim?
Só quatro semanas foram piores desde o Plano Real.Cálculo a partir do dado do InfoMoney: 5ª maior queda semanal desde o Plano Real
Se esta é a quinta maior, existem quatro semanas piores desde o Plano Real, e, como o InfoMoney diz que é a maior desde 2020, nenhuma delas é posterior a esse ano. Ou seja, o investidor que entrou na Bolsa depois de 2020 está vendo pela primeira vez uma semana desse tamanho. Isso ajuda a explicar o susto, e ajuda a evitar duas conclusões erradas: a de que "Bolsa sempre faz isso" e a de que "agora acabou tudo". Uma semana rara é, por definição, um ponto fora da curva. O que ela revela é o grau de estresse do momento, não a sequência do que vem depois.
Quanto o índice precisa subir para voltar ao ponto de partida?
Mais do que a perda. Uma queda e uma alta de mesmo percentual não se anulam, porque a alta incide sobre uma base menor. A conta abaixo é aritmética, não projeção, e usa R$ 10.000 como exemplo de quem acompanhasse o índice.
Essa assimetria é o motivo de uma queda forte ser tão difícil de desfazer, e também a razão pela qual vender no fundo é caro: quem sai agora transforma em perda definitiva o que ainda poderia ser recuperado, e a recuperação só vem para quem continua posicionado. Isso não é recomendação de ficar nem de sair. A pergunta que decide é de prazo: dinheiro com data marcada para ser usado não deveria estar em ação, e dinheiro de longo prazo costuma ser quem paga o preço de ver a carteira cair no meio do caminho.
E o Morgan Stanley? A projeção de queda de 30% já aconteceu?
Não dá para afirmar. Em 26/10, como mostramos na matéria sobre a projeção do Morgan Stanley de dólar a R$ 5,60 e queda de 30% na Bolsa após a reeleição de Lula, o banco já via um cenário de forte realização. A queda da semana é menor que esse número, mas a manchete que temos não informa a base de comparação nem o prazo da projeção, então qualquer conta do tipo "faltam tantos pontos" seria inventada. O que vale é o uso correto da projeção: um cenário de uma casa grande, não uma previsão.
O que isso muda para ações, FIIs e renda fixa?
Em ações, a perda é proporcional à exposição: quem tem carteira próxima do índice sentiu algo perto da queda do Ibovespa; quem tem pouco em Bolsa, menos. O InfoMoney não traz o desempenho de papéis individuais, e a média esconde dispersão, então vale abrir a própria carteira e ver o que de fato caiu, em vez de usar o número do índice como medida do que você perdeu.
Para FIIs e renda fixa, a reportagem não informa o que aconteceu com juros futuros, dólar ou fundos imobiliários, por isso não vamos cravar números. O que há é o mecanismo: quando o medo é fiscal, o mercado costuma exigir mais prêmio para financiar o governo, o que pressiona juros longos e o preço de ativos que dependem deles, como títulos prefixados e fundos imobiliários, via taxa de desconto. Já quem está em Tesouro Selic ou CDB com liquidez sente esse movimento de outro jeito, porque o preço desses títulos oscila bem menos. A cotação atualizada do índice está no nosso painel do Ibovespa.
O dado do InfoMoney não pede ação imediata, pede conferir exposição e prazo. Veja quanto da carteira está em ação, quanto em FIIs, e se algum dinheiro com uso próximo está exposto a esse risco. Se não está, a semana é desconforto, não motivo para decidir sob pânico.
O que acompanhar daqui para a frente?
Tema fiscal: a dívida bruta em 82,93% do PIB em setembro é o número de referência; o que importa é se os próximos dados e as propostas do novo mandato reforçam ou aliviam o temor.
Dólar: a projeção do Morgan Stanley de R$ 5,60 é o balizador para saber se o câmbio está andando na direção que o banco descreveu.
Fôlego da sequência: o InfoMoney fala na quinta queda; a primeira semana sem nova queda do índice é o sinal de que a pressão pode estar cedendo, ainda que sem recuperar a perda.