Por que o Ibovespa está caindo pelo terceiro dia seguido?
Três fatores em sequência: a reeleição de Lula no segundo turno surpreendeu o mercado, o governo ainda não entregou uma resposta fiscal concreta e o Santander publicou um balanço abaixo do esperado. Em três pregões, o índice saiu de 205.082 pontos para a casa dos 170 mil — uma perda de 17% em linha reta.
A resposta mais longa — e a que explica por que a queda não parou na segunda-feira — é que o mercado ainda aguarda uma âncora. Sem ela, cada dado negativo vira pretexto para mais vendas. A segunda-feira (26/10) foi o choque eleitoral. A terça (27/10) foi o dia em que o mercado testou se havia comprador. A quarta (28/10) mostrou que, por enquanto, não há: dos 87 papéis que compõem o Ibovespa, apenas seis subiam durante o pregão — Prio, Hypera, RD Saúde, TIM, WEG e Brava Energia.
O Santander puxou os bancos — e os bancos puxam o índice
Antes mesmo da abertura desta quarta, o Santander Brasil publicou o resultado do terceiro trimestre: lucro de R$ 2,885 bilhões no 3T26, queda de 28% em relação ao 3T25, abaixo dos R$ 3,161 bilhões que o consenso da Bloomberg esperava. O retorno sobre o patrimônio (ROAE) caiu para 11,9% — o menor nível em três anos —, ficando abaixo do CDI de 13,65%. Na prática, o banco entregou ao acionista menos do que uma aplicação conservadora em renda fixa. As provisões para crédito duvidoso chegaram a R$ 7,4 bilhões, alta de 14,3% em relação ao 3T25, pressionadas por inadimplência em grandes empresas do agronegócio, empresas e pessoas físicas de baixa e média renda.
A ação SANB11 recuou 4,87% no pregão e acumula queda de 24% em 2026. Itaú BBA, BTG Pactual e Safra avaliaram o balanço como fraco, sem sinais suficientes de melhora na qualidade dos ativos. O resultado contaminou o setor bancário inteiro mesmo nos papéis que ainda não reportaram: Bradesco caiu 6% no mesmo pregão. Os grandes bancos figuram entre os maiores pesos do Ibovespa — quando caem juntos e de forma expressiva, o índice não tem como reagir. O varejo também sangrou: VAMO3, MGLU3 e AZZA3 lideram as perdas do dia, penalizadas pela perspectiva de juros mais altos por mais tempo e menor estímulo ao consumo.
Dois dias sem resposta — o fiscal continua sendo o nó
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou na terça-feira que o governo prepara medidas para buscar o centro da meta fiscal — mas sem número e sem prazo. O Tesouro Nacional fez recompra de títulos públicos para aliviar a pressão nos juros longos. Não foi suficiente: investidores estrangeiros retiraram R$ 2,8 bilhões da B3 na segunda-feira, primeiro dia útil após o resultado eleitoral, e o fluxo de saída continuou ao longo da semana.
"O mercado ainda espera alguma sinalização mais concreta quanto ao fiscal. Isso é o que poderia acalmar ou reverter parte dessa queda."Renato Widmer, CIO da Aurum Wealth Management, ao MoneyTimes (28/10/2026)
Conforme noticiado pela InfoMoney, circulam nos bastidores rumores de que o governo estuda cobrança de IOF sobre aplicações em LCI e LCA — papéis que hoje têm isenção de imposto de renda para pessoa física. Se confirmado, o sinal seria de que a estratégia é aumentar receita sem cortar gasto — exatamente o que o mercado teme e o que impede os juros longos de recuar. O banco UBS afirmou que Lula terá alguns testes de credibilidade pela frente e que o primeiro deles é um pacote fiscal com números concretos.
E o Fed? A decisão americana não é o vilão — mas importa para o dólar
O Federal Reserve se reuniu nesta quarta-feira e o mercado precificava manutenção dos juros entre 3,75% e 4,00% com probabilidade de 90%. Enquanto o Brasil derretia, as bolsas americanas operavam com leves altas — o que deixa claro que o estresse desta semana é doméstico, não externo. O dólar recuou para R$ 5,34 nesta quarta, bem abaixo do pico de R$ 5,60 atingido durante o choque de segunda-feira. Esse recuo é, até agora, a única nota positiva da semana.
O canal de contágio existe, no entanto: um Fed mais agressivo elevaria o dólar globalmente, reduziria o diferencial de juros entre Brasil e EUA e pressionaria ainda mais o real. Não é o cenário desta quarta, mas é o risco que mantém o mercado atento à comunicação do banco central americano — e que complica qualquer eventual sinalização positiva do governo Lula no campo fiscal.
Quem tem ações está na terceira queda seguida sem sinal claro de fundo. O consenso dos analistas consultados pela imprensa especializada nesta semana é uniforme: sem âncora fiscal, comprar no desconto de 17% é apostar contra o fluxo. Renda fixa pós-fixada continua protegida — CDI alto e prêmio de risco elevado favorecem quem está no Tesouro Selic ou em CDBs atrelados ao CDI. FIIs sofrem em dois flancos ao mesmo tempo: a elevação dos juros longos comprime os preços de cota e o ambiente de aversão ao risco reduz o apetite do mercado por ativos de risco imobiliário. Para quem já está posicionado, os gestores recomendam aguardar um gatilho fiscal concreto antes de qualquer movimento — seja para reforçar a posição ou para sair.
Anúncio fiscal do governo — o único gatilho capaz de inverter o humor rapidamente. Se o pacote tiver corte de gasto com número concreto, a reação costuma ser imediata; se vier só receita nova (como o IOF sobre LCI/LCA), o mercado tende a reagir negativamente.
Dólar acima de R$ 5,40 — sinal de que o fluxo de saída de estrangeiros voltou a acelerar. O recuo desta quarta para R$ 5,34 é o único dado positivo da semana; uma nova alta rompe esse suporte.
Balanços de Itaú e Bradesco — os dois maiores bancos do índice ainda divulgam o 3T26 esta semana. Se o padrão do Santander — ROAE abaixo do CDI, provisões subindo — se repetir, o setor bancário puxa o Ibovespa mais para baixo independentemente do cenário macro.