Segundo a Receita Federal, o imposto de renda sobre lucros e dividendos rendeu R$ 5,26 bilhões de janeiro a setembro de 2026, metade dos R$ 10,5 bilhões que o governo espera para o ano inteiro. Para quase todo investidor pessoa física, o imposto em si não muda nada. O que pode pesar no seu bolso é o buraco fiscal que ficou aberto.
Quanto o imposto sobre dividendos arrecadou até setembro?
A Receita divulgou o balanço em 22 de outubro: R$ 5,26 bilhões em nove meses, o que dá 50,1% da projeção anual revisada. Só setembro rendeu R$ 1,23 bilhão. Dos R$ 5,26 bi, cerca de R$ 3,4 bilhões vieram de dividendos pagos a pessoas físicas que moram no Brasil. O restante, perto de R$ 1,9 bilhão pela nossa conta, veio da alíquota de 10% sobre lucros remetidos ao exterior.
Metade da meta em três quartos do ano já seria um resultado fraco. O pior é que essa meta já foi rebaixada duas vezes. No começo do ano, a previsão ficava entre R$ 28 bi e R$ 29 bi (as fontes do governo variam). Em julho caiu para R$ 17,2 bi. No relatório bimestral de setembro, foi para os atuais R$ 10,5 bi.
Então a pergunta deixa de ser se a meta original vai ser cumprida, porque ela já foi abandonada. A pergunta é se a meta de R$ 10,5 bi se sustenta até dezembro.
A meta de R$ 10,5 bilhões ainda fecha?
Só se o ritmo acelerar bastante. A arrecadação mês a mês sai da diferença entre os acumulados que a Receita foi divulgando ao longo do ano:
| Período | Acumulado | No mês (nossa conta) |
|---|---|---|
| 1º semestre | R$ 2,2 bi | ~R$ 0,37 bi/mês (média) |
| Até julho | R$ 3,145 bi | ~R$ 0,95 bi |
| Até agosto | R$ 4,029 bi | ~R$ 0,88 bi |
| Até setembro | R$ 5,26 bi | R$ 1,23 bi |
| Necessário out–dez | R$ 10,5 bi | ~R$ 1,75 bi/mês |
A boa notícia para o governo é que a arrecadação vem crescendo. Saiu de uma média de menos de R$ 0,4 bi por mês no primeiro semestre para R$ 1,23 bi em setembro. A má notícia é que faltam R$ 5,24 bi em três meses, cerca de 42% acima do melhor mês do ano até aqui. Dezembro pode ajudar, porque é quando muitas empresas distribuem lucro. Ainda assim, a meta só fecha com um último trimestre bem diferente do que se viu até agora.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, deu duas explicações para o resultado fraco. A primeira é que muitas empresas anteciparam dividendos para o fim de 2025, antes da regra valer. A segunda é uma liminar do STF que esticou até 31 de janeiro de 2026 o prazo para aprovar a distribuição dos lucros de 2025 ainda sem imposto. Ele também disse que muitas companhias relatam estar esperando para distribuir. Na leitura do governo, isso deve fazer a arrecadação subir quando as empresas tiverem mais previsibilidade. Mas e o rombo que o imposto deveria cobrir?
Que buraco ficou aberto nas contas públicas?
O imposto foi criado para compensar a isenção de IR para quem ganha até R$ 5 mil e o desconto para quem ganha até R$ 7.350. Segundo a reportagem do Metrópoles, essas duas medidas custam R$ 28 bilhões por ano. Pela própria lógica da lei, a tributação dos dividendos deveria render o mesmo valor.
A conta é simplificada. Parte da compensação ainda vai chegar em 2027, quando começa o ajuste anual do imposto mínimo para rendas acima de R$ 600 mil. Mesmo assim, a frustração de 2026 não volta. Segundo a Receita, a renúncia está sendo coberta por outras fontes de receita, e a arrecadação federal como um todo vai bem, como mostramos na análise do recorde de arrecadação federal em setembro. O que não muda é o recado: a principal fonte de compensação prevista entregou menos de 40% do prometido, pela nossa conta (R$ 10,5 bi sobre cerca de R$ 28 bi). Isso empurra o governo a cortar gastos ou buscar receita nova. E é aí que o assunto chega à sua carteira.
Eu pago esse imposto? E meu FII?
Quase certamente não. A Lei 15.270, em vigor desde 1º de janeiro, retém 10% na fonte quando uma mesma empresa paga mais de R$ 50 mil em um mês à mesma pessoa física. A retenção incide sobre o total, e não só sobre o excedente. Uma conta nossa, como ordem de grandeza: para receber R$ 50 mil de uma só empresa num único pagamento com rendimento de 3%, seria preciso ter cerca de R$ 1,67 milhão naquela ação. Quem divide a carteira entre vários papéis fica longe disso.
Os rendimentos de FIIs e Fiagros que já eram isentos para a pessoa física continuam fora da retenção. O dividendo mensal do seu fundo imobiliário não muda por causa dessa regra. Para quem chega a ser retido, há um alívio: segundo a Receita, se a renda anual ficar abaixo de R$ 600 mil, o valor retido pode ser devolvido na declaração.
Ações: o efeito direto sobre o seu dividendo é zero na maioria dos casos. O efeito indireto vem do calendário. Se as empresas seguraram distribuições em 2026, como disse o ministro, os pagamentos podem se concentrar no fim do ano ou em 2027. Renda fixa: uma receita que frustra aumenta a dúvida sobre a meta fiscal, e essa dúvida costuma aparecer nos juros longos, ou seja, nas taxas do Tesouro IPCA+ e prefixado. Todos: receita que falta precisa vir de algum lugar. O próximo imposto a subir tende a ser outro, não este.
Esse movimento já começou. A MP que mexe em tributos sobre consumo ajuda a ver para onde o governo está olhando, como explicamos em o que a MP do imposto do pecado muda em 2027. Por outro lado, mineração e petróleo ficaram de fora dessa cobrança, um ponto que detalhamos em alíquota zero do Imposto Seletivo para Vale e Petrobras. Vale a pena acompanhar quem fica fora e quem entra na mira à medida que o buraco aparece.
O que acompanhar até dezembro
Arrecadação de outubro (Receita, fim de novembro): abaixo de R$ 1,23 bi no mês, o ritmo de R$ 1,75 bi/mês necessário fica praticamente fora de alcance e um terceiro corte da meta vira o cenário mais provável (leitura nossa).
Relatório bimestral de novembro: se a projeção cair abaixo de R$ 10,5 bi, a cobertura do buraco precisa vir de corte de gasto ou de receita nova. O tamanho do bloqueio de despesas é o termômetro.
Anúncios de dividendos em dezembro: se as empresas soltarem distribuições represadas, confirma-se a tese do ministro de que o dinheiro estava esperando. Se não, a base do imposto é menor do que o governo imaginava.
Juros longos do Tesouro: uma alta das taxas sem mudança na Selic costuma ser o primeiro sinal de que o mercado está cobrando pelo risco fiscal.