- A disparada aconteceu: a curva de juros futuros cedeu com o resultado do 1º turno e os títulos públicos prefixados e IPCA+ tiveram ganhos expressivos de marcação a mercado.
- O impasse dos gestores: segundo apuração do InfoMoney, o mercado se divide entre os que acham que a vitória política já está no preço e os que exigem ver o plano fiscal para crer.
- O que fazer: embolsar parte dos ganhos em papéis longos ou focar no carrego de papéis pós-fixados e híbridos médios evita ser pego no contrapé da eleição.
A forte queda nas taxas de juros futuros após o 1º turno entregou lucros rápidos para quem estava posicionado em renda fixa longa, mas comprar agora exige entender que boa parte do otimismo já foi para as cotações.
O que aconteceu com a renda fixa após o primeiro turno?
A renda fixa brasileira registrou uma expressiva valorização em marcação a mercado logo após o primeiro turno. O mercado financeiro reagiu à configuração do Congresso e à liderança eleitoral de Flávio com alívio imediato, o que provocou o fechamento das taxas de juros futuros em toda a curva e fez o preço unitário dos papéis prefixados e atrelados ao IPCA disparar.
Esse movimento premiou quem comprou títulos quando os prêmios estavam estressados antes da votação. No entanto, segundo apuração do InfoMoney com gestores de recursos, o mercado começou a se perguntar se o movimento não foi rápido demais. Quando os juros futuros caem rápido, os títulos ganham valor de tela, mas as novas compras passam a oferecer uma rentabilidade menor até o vencimento.
A dúvida que divide as mesas de operação neste momento é se ainda existe espaço para as taxas caírem mais ou se o investidor pessoa física está comprando títulos na euforia, justamente às vésperas de um segundo turno que carrega incertezas fundamentais.
Quanto da vitória de Flávio já está no preço?
Para parte significativa dos gestores ouvidos pelo InfoMoney, o favoritismo eleitoral já foi amplamente colocado na conta. O recuo nas taxas refletiu a aposta de que o futuro governo terá maioria favorável no Congresso Nacional para conter gastos e destravar reformas, reduzindo o risco de insolvência das contas públicas.
Entretanto, outro grupo relevante de gestores adota uma postura mais conservadora. Na visão dessa ala, a política venceu a primeira batalha, mas a economia ainda precisa ser entregue. A curva de juros reagiu à expectativa, mas o próximo presidente terá que apresentar nomes de peso para a equipe econômica e medidas fiscais duras logo nos primeiros meses para justificar a manutenção desses prêmios baixos.
O eleito confirma um ministro da Fazenda com respaldo do mercado, apresenta corte de gastos tangível e a inflação converge, permitindo corte de juros mais agressivo pelo Banco Central.
O discurso de campanha não se traduz em medidas fiscais reais, surgem concessões orçamentárias e os juros futuros voltam a subir, devolvendo a marcação a mercado recente.
Essa divergência mostra que a renda fixa não virou um jogo ganho. Quem entra agora em títulos prefixados ou de prazo longo está pagando um preço muito mais alto do que há três semanas, assumindo o risco de ver a rentabilidade recuar caso a entrega fiscal decepcione.
Como fica cada tipo de papel para o segundo turno?
Nem todo título de renda fixa reage da mesma maneira ao calor das urnas e ao humor do mercado. A composição da sua carteira precisa respeitar o equilíbrio entre a busca por valorização e a proteção do patrimônio acumulado.
Os papéis de dívida pública e privada respondem a forças contrárias. Enquanto o título atrelado à inflação garante poder de compra mesmo em crises, os prefixados exigem convicção absoluta de que a inflação e a Selic não voltarão a subir.
Já os pós-fixados mantêm a liquidez blindada de oscilações bruscas, funcionando como um porto seguro enquanto o quadro eleitoral não se consolida em ações concretas.
- Pós-fixados (Tesouro Selic / CDB 100% CDI): continuam remunerando com taxa de dois dígitos e sem risco de oscilação negativa de cota.
- IPCA+ de prazo médio (3 a 5 anos): asseguram juro real gordo acima da inflação, sem expor o investidor à volatilidade extrema das pontas de 20 anos.
- Prefixados longos (acima de 5 anos): perderam grande parte da atratividade tática e ficam vulneráveis se o fiscal azedar.
A regra de ouro neste momento de indefinição é não se deslumbrar com o retrovisor. O retorno passado recente da marcação a mercado não se repetirá com a mesma facilidade sem novos fatos positivos concretos no campo das contas públicas.
Atenção ao alongamento excessivo: Títulos do tipo Tesouro IPCA+ com vencimentos superiores a 2035 ou 2045 possuem uma métrica chamada duration muito elevada. Se a percepção fiscal piorar no 2º turno e a taxa exigida subir apenas 0,50 ponto percentual, o preço de tela desses papéis pode cair mais de 6% em poucos dias.
O que isso muda para quem investe na pessoa física?
Para quem não vive de especular na mesa de renda fixa, a decisão gira em torno do objetivo do dinheiro e do prazo disponível. O investidor comum não precisa adivinhar o resultado das urnas se a carteira estiver bem alinhada aos fundamentos.
Se você comprou papéis longos com o único objetivo de obter lucro rápido via marcação a mercado, pode fazer sentido realizar ao menos parte do ganho antes do pleito. Já se o foco for o carrego até o vencimento com juro real elevado, não há motivo para pânico: mantenha a posição e direcione os novos aportes mensais para pós-fixados ou papéis atrelados à inflação de prazos intermediários.
O investidor de varejo frequentemente comete o erro de correr atrás do papel que mais subiu na semana anterior. Com as taxas de juros nominais do país ainda bastante elevadas, a paciência é remunerada com generosidade nos instrumentos mais simples e seguros do mercado.
O que acompanhar a partir de agora?
A chave para os próximos passos da renda fixa estará na transição entre o palanque eleitoral e a montagem de governo. Os anúncios que sucederem a apuração do segundo turno definirão se os juros seguirão trajetória de queda contínua ou se estacionarão em patamar defensivo.
O primeiro termômetro será a indicação dos nomes para o Ministério da Fazenda e para o Planejamento. O mercado exige perfis com compromisso comprovado com a sustentabilidade da dívida pública e independência técnica.
O segundo gatilho decisivo será o plano de metas para a dívida bruta em relação ao PIB. Sem uma âncora fiscal crível que estipule tetos rígidos ou limites de despesas obrigatórias, o alívio conquistado na curva de juros após o primeiro turno pode ser revertido rapidamente.
Veredito: A renda fixa teve um rali relevante após o 1º turno, mas o investidor prudente não deve comprar prefixados longos no topo do otimismo. Aproveite as taxas reais atrativas em papéis médios de inflação e mantenha uma reserva expressiva em pós-fixados para atravessar o 2º turno sem sustos na carteira.