A dúvida que todo cotista faz: "O dólar já saiu de R$ 4 e bateu R$ 5,20. Não é tarde demais para comprar agora?" Resposta curta: comprar dólar a R$ 5,20 não é apostar que ele vai a R$ 6 amanhã — é comprar seguro contra um cenário fiscal que, na leitura de quem trabalhou no Banco Central, ainda não estourou. O Dilma II levou o câmbio de R$ 2,50 a R$ 4,20 em pouco mais de um ano. Quem comprou "tarde", a R$ 3,50, ainda capturou metade do movimento. O que importa não é o ponto de entrada perfeito — é se a tese de fundo continua de pé. E ela continua.
Quem é Kanczuk — e por que o alerta tem peso
Fabio Kanczuk não é um analista qualquer fazendo barulho. Ele foi diretor de Política Econômica do Banco Central, com doutorado em economia e passagem por gestão de recursos. É o tipo de voz técnica que costuma medir as palavras — e justamente por isso o tom da entrevista chamou atenção. Ao InfoMoney, Kanczuk foi direto: "a aritmética é fácil". O fiscal brasileiro, na conta dele, é insustentável, e o governo segue aumentando gastos enquanto nega a gravidade do problema.
A projeção dele é desconfortável: quando o mercado parar de financiar o Brasil nas condições atuais, virá "disparada do dólar, disparada dos juros e economia que afunda" — exatamente o roteiro do segundo governo Dilma. Ele chama isso de ajuste "na marra": não o ajuste escolhido por uma decisão política responsável, mas o ajuste imposto pelo mercado quando a conta não fecha mais. A diferença entre os dois é a diferença entre frear o carro e bater no muro.
O mecanismo: como o mercado "para de financiar" um governo
O termo "ajuste na marra" soa abstrato até você entender a engrenagem. Nenhum governo quebra de um dia para o outro — ele é estrangulado por um ciclo que se auto-alimenta. Funciona assim:
O ponto crítico é o passo 4. Quando a despesa de juros passa a crescer sozinha, mais rápido do que qualquer corte de gasto consegue compensar, o governo entra num feedloop: emite dívida para pagar juros, o que aumenta a dívida, o que aumenta o juro cobrado, o que aumenta a despesa de juros. O câmbio é o termômetro mais rápido desse processo. Antes de o juro longo explodir nos leilões do Tesouro, o capital estrangeiro (e o doméstico) começa a sair — e a saída de capital é a disparada do dólar. O câmbio não sobe "porque sim": ele sobe porque é o primeiro a precificar a desconfiança fiscal. Se a mecânica de juro e dívida ainda for nebulosa, vale ler por que o Brasil paga o juro mais alto do mundo.
A lição do Dilma II: os números reais
Kanczuk não escolheu o Dilma II por acaso. Foi a última vez que o Brasil viveu esse roteiro completo — e os números mostram por que ninguém quer repeti-lo. Entre 2014 e 2016, a combinação de descontrole fiscal, perda de grau de investimento e crise política produziu o seguinte:
O detalhe que arrepia: a Selic de pico do Dilma II — 14,25% — é exatamente onde a Selic está hoje. A diferença é que, lá, o 14,25% foi o ponto onde a crise estourou. Hoje, é o ponto de partida. O investidor que tinha dólar em 2014 protegeu o patrimônio de uma desvalorização de quase 70% em reais. O que tinha bolsa brasileira ou estava 100% em renda fixa pós-fixada sem proteção cambial assistiu ao poder de compra internacional do seu dinheiro encolher.
O Brasil de 2026 vs Dilma II: o que é igual e o que mudou
A analogia não é perfeita — e reconhecer as diferenças é o que separa análise de pânico. Veja o que se repete e o que está distinto:
| Indicador / fator | Dilma II (2015-16) | Brasil (2026) |
|---|---|---|
| Trajetória fiscal | Déficit crescente, dívida em alta | Déficit persistente, dívida em alta |
| Selic | 14,25% (pico da crise) | 14,25% (ponto de partida) |
| Inflação projetada | 10,67% (2015) | acima de 5% (2026-27) |
| Dólar | R$ 2,50 → R$ 4,20 | já em R$ 5,20 |
| Independência do BC | BC subordinado ao governo | BC autônomo por lei (2021) |
| Reservas internacionais | Robustas (~US$ 360 bi) | Robustas — colchão cambial relevante |
| Gatilho político | Impeachment, paralisia | Ciclo eleitoral 2026 como balizador |
O que mudou para melhor: o Banco Central é autônomo por lei desde 2021, o que dá mais credibilidade à âncora monetária; e as reservas internacionais seguem robustas, um colchão que pode suavizar movimentos bruscos de câmbio. O que continua igual — e é o que importa na tese de Kanczuk — é a aritmética fiscal: gasto crescendo, dívida subindo e nenhum sinal crível de ajuste voluntário. O choque cambial do Dilma II não veio de um BC fraco; veio do fiscal. E esse vetor está intacto. Para entender por que o ajuste voluntário não acontece, vale o artigo Cortar gastos: o ajuste que ninguém quer fazer.
Por que CDI e dólar são o porto-seguro agora
Aqui está o núcleo da recomendação de Kanczuk — e ela é mais sofisticada do que "compre dólar". O raciocínio começa por um número que poucos param para calcular: o juro real.
A conta do juro real: Selic de 14,25% menos inflação projetada acima de 5% = juro real acima de 9% ao ano. É um dos maiores juros reais do mundo. Para o investidor, significa que o CDI hoje paga uma das melhores remunerações ajustadas pela inflação do planeta — sem risco de crédito relevante e com liquidez diária.
Esse juro real altíssimo tem dois lados. Para a dívida pública, é veneno: cada ponto de juro real acima do crescimento do PIB faz a dívida rolar como bola de neve — o termo (juro real − crescimento) é justamente o que empurra a relação dívida/PIB para cima quando o primário não cobre. Para o investidor pessoa física, porém, o mesmo número é uma oportunidade rara: enquanto a incerteza eleitoral não se resolve, o CDI paga para esperar. É a lógica de Kanczuk — ele recomenda permanecer em CDI enquanto há indefinição, justamente porque a Selic elevada remunera bem a paciência.
O dólar entra como a outra ponta da proteção. Se o cenário de Kanczuk se materializar, o CDI segura o nominal e o dólar segura o real internacional do seu patrimônio. As eleições funcionam como balizador da dosagem: na leitura dele, vitória de Lula reforça a tese de comprar dólar; um candidato alternativo com agenda fiscal crível abriria espaço para rali na bolsa. Em qualquer cenário, ter dólar + CDI é estar protegido para os dois lados da moeda eleitoral.
Como o investidor PF protege patrimônio com dólar
"Comprar dólar" não significa ir à casa de câmbio e guardar notas no cofre — isso é o jeito mais caro e improdutivo de fazê-lo. O investidor pessoa física tem veículos líquidos, baratos e dentro da própria corretora:
| Veículo | Como funciona | Ponto de atenção |
|---|---|---|
| ETFs de bolsa global | Cotas na B3 que replicam índices em dólar (ex.: S&P 500). Exposição cambial + ações. | Carrega risco de bolsa junto — não é dólar "puro". |
| BDRs | Recibos de ações estrangeiras negociados na B3. Sobem com o dólar e com a empresa. | Mistura risco cambial com risco da empresa específica. |
| Fundos cambiais | Fundos que acompanham a variação do dólar diretamente. Dólar "puro". | Cobram taxa; conferir custo total e tracking. |
| Tesouro com correção cambial | Títulos atrelados à variação do câmbio — exposição soberana ao dólar. | Disponibilidade e liquidez variam; checar oferta vigente. |
| ETF de ouro (ex.: GOLD11) | Ouro é cotado em dólar — sobe com o câmbio E com a aversão a risco global. | Dupla exposição: câmbio + preço do ouro. |
A escolha do veículo depende do objetivo. Quem quer dólar puro como seguro cambial tende a um fundo cambial ou título com correção cambial. Quem aceita carregar bolsa internacional junto usa ETFs e BDRs — capturando câmbio e o prêmio das ações lá fora. O ouro (via ETFs como o GOLD11) é um híbrido: protege contra o dólar e contra o risco global ao mesmo tempo. O importante é entender que cada veículo embute riscos diferentes além do câmbio — não existe "comprar dólar" sem escolher também o que vem de carona.
Onde isso conversa com a nossa carteira
A tese de Kanczuk não é uma novidade radical para quem acompanha o site — ela reforça o posicionamento que já carregamos. Na alocação atual, dólar responde por 25% da carteira com sentimento otimista, e caixa/CDI por 15%, também otimista. Juntos, são 40% do patrimônio posicionados exatamente nos dois portos-seguros que o ex-diretor do BC aponta. Em contrapartida, mantemos o IBOV em apenas 10% com sentimento pessimista e o S&P 500 zerado — coerente com a leitura de que o risco fiscal doméstico e o valuation esticado lá fora pedem cautela. O racional completo está no Rebalanceamento de Maio/2026.
Vale o contraponto honesto: o alerta de Kanczuk é um cenário de risco, não uma certeza. O Brasil tem saídas — elas existem e estão mapeadas em A dívida do Brasil tem solução?. O problema é que a saída menos dolorosa exige decisão política que não está sendo tomada, e a saída fácil — imprimir dinheiro — é um calote disfarçado, dissecado em A saída inflacionária: o calote que não tem esse nome. Proteção cambial é o que permite atravessar qualquer um desses desfechos sem destruir patrimônio.
O veredito
Quem deve ter dólar? Praticamente todo investidor com patrimônio em reais. Não como aposta direcional de curto prazo, mas como seguro estrutural contra um cenário fiscal que segue intacto na sua origem. O dólar a R$ 5,20 não é "tarde" — o Dilma II mostrou que o movimento, quando vem, é de dezenas de pontos percentuais, e quem entrou no meio do caminho ainda se protegeu.
Quanto? A nossa leitura aponta para algo em torno de 25% da carteira em dólar, somado a 15% em CDI — os dois lados da proteção que Kanczuk descreve. O CDI a um juro real acima de 9% paga para você esperar a definição eleitoral; o dólar protege caso o ajuste venha "na marra". É uma posição que ganha nos dois cenários eleitorais: se o risco fiscal se concretiza, o dólar dispara; se um ajuste crível emerge, o CDI elevado seguiu remunerando e a perda de oportunidade é pequena.
A frase de Kanczuk que resume tudo: a aritmética é fácil. O fiscal não fecha, e o mercado não financia descontrole para sempre. Proteger patrimônio em dólar e CDI não é pessimismo — é precificar a aritmética antes que ela cobre a conta.