O Safra rebaixou as units da Klabin de compra para neutra e cortou o preço-alvo de R$ 21,40 para R$ 20,60 até o fim de 2027. A ação KLBN11 fechou a última sessão, na sexta (06/11), a R$ 17,60. O banco não diz para vender, mas deixou de ver motivo para comprar já, e isso pesa justamente quando o mercado espera saber quanto a Klabin vai declarar de dividendo para 2026.
KLBN11 cotação hoje: quanto está e quanto o Safra ainda vê de alta?
Com a bolsa fechada no domingo, a referência é o fechamento de R$ 17,60 na sexta. A ação cai 4,9% no mês e 6,2% no ano, mais perto da mínima de 12 meses (R$ 16,10) do que da máxima (R$ 21,25). Sobre a cotação de R$ 18,08 usada no relatório, o Safra calcula potencial de valorização de 14%, e de 21% incluindo dividendos. Pelo fechamento de sexta, a distância até o novo alvo sobe para cerca de 17% (R$ 20,60 ÷ R$ 17,60, conta nossa).
Então o rebaixamento não quer dizer que o Safra veja a ação cara. Quer dizer que o retorno esperado deixou de compensar o risco e ficou no nível de um papel "neutro". O corte do alvo foi pequeno (−3,7%). O peso está na mudança de recomendação, e ela vem depois de uma sequência: em outubro, o banco já tinha reduzido a projeção de Ebitda da Klabin para o 3T26 abaixo do consenso. Em maio, segundo o Money Times, o Safra mantinha visão neutra para o papel, com preço-alvo de R$ 23,30. Desde então, o alvo do banco caiu cerca de 11,6%. O relatório não informa quando houve a passagem intermediária para compra.
Como o Safra se compara com as outras casas, e com o nosso próprio cálculo?
O Safra fica agora no grupo mais cauteloso entre os bancos. A XP reiterou compra em setembro, com alvo de R$ 24,00. O BTG está neutro, com alvo de R$ 23. Nosso modelo é mais pessimista que todos eles: preço justo de R$ 11,81, mas com as técnicas de cálculo divergindo muito entre si e uma faixa de R$ 6,89 a R$ 18,86. Mesmo o alvo rebaixado do Safra fica acima do teto dessa faixa. A divergência mostra o tamanho da aposta: os bancos projetam recuperação de margem até 2027, enquanto o nosso cálculo parte do lucro comprimido de hoje.
Por que o Safra deixou de recomendar a compra?
O motivo é o papel, não a celulose. Os analistas Ricardo Monegaglia e Caique Isidoro avaliam que a celulose mais cara e o real mais fraco não compensam um mercado de papel mais fraco, custos que demoram a normalizar e um custo de capital próprio maior. A Klabin é, antes de tudo, uma empresa de embalagens. Por isso a melhora da celulose ajuda menos aqui do que numa produtora pura da fibra.
- Celulose: o banco segue otimista no curto prazo, com reposição de estoques na China, menos produto disponível e produtores mais disciplinados.
- Kraftliner: o papel usado em caixas de papelão pode ter pouco espaço para novos reajustes de preço.
- Demanda interna: o consumo de embalagens no Brasil também preocupa o banco.
- Custos: pelas contas do Safra, o efeito do El Niño só se dissipa por completo no início de 2028.
- Caixa e dívida: crescimento limitado, geração de caixa moderada e redução lenta da dívida tiram atratividade frente aos pares.
O ponto dos custos é o que mais conversa com o balanço recente. No 3T26, o custo caixa foi de R$ 3.483 por tonelada, acima da faixa de R$ 3.200 a R$ 3.300 prometida pela própria Klabin para 2026. Se essa pressão só passa em 2028, quase todo o ano de 2027 também roda com margem apertada. O mesmo quadro aparece no lucro, como mostramos em por que a ação vem caindo depois do balanço: o lucro recua 77,4% em 12 meses e a dívida líquida está em 3,47 vezes o Ebitda, acima da média de cinco anos (2,73 vezes).
E a boa notícia de dois dias atrás? O relatório chega logo depois de a Klabin anunciar a sociedade florestal no Paraná, com R$ 1,2 bilhão de um investidor. As fontes não dizem se o Safra incorporou essa operação, que ainda depende de aprovações. Se não incorporou, é um ponto a favor que fica fora da conta do banco. Mesmo assim, o dinheiro reduz a dívida, mas não resolve o preço do papel nem o custo por tonelada, que são o centro da crítica.
KLBN11 dividendos: o rebaixamento ameaça o provento?
O que já foi declarado está garantido. A última parcela de R$ 0,2280 por unit, com data-ex em 16/12/2025, cai na conta em 12/11/2026, nesta semana. Com ela, terminam as quatro parcelas trimestrais referentes ao resultado de 2025. Somando tudo o que entrou em 12 meses, os proventos dão R$ 1,16 por unit, um rendimento de 6,6% sobre a cotação de sexta.
Nada no pagamento desta semana. A dúvida é a próxima declaração: no ano passado, a data-ex saiu em meados de dezembro. Pela nossa conta, os 7 pontos de diferença entre o retorno total (21%) e a alta de preço (14%) projetados pelo Safra mostram que o banco ainda espera dividendos perto do ritmo atual até o fim de 2027. Ou seja, o rebaixamento não embute corte de provento. O risco vem do balanço, com lucro em queda e dívida alta, e não do relatório do banco.
KLBN11 ou KLBN4: o rebaixamento muda a escolha?
Não. A KLBN11 é uma unit, um pacote de 1 ação ordinária e 4 preferenciais da mesma empresa. A recomendação do Safra vale para o negócio Klabin, e as duas formas de ter a ação sobem e descem juntas. A escolha continua dependendo de liquidez e da diferença de preço entre o pacote e as ações avulsas, como detalhamos em KLBN11 ou KLBN4 no balanço do 3T26.
Também não há motivo para pressa. Recomendação neutra não é ordem de venda, e a maior parte do alívio que a empresa conseguiu no endividamento já é conhecida, incluindo os prazos mais longos para pagar a dívida. Pesa mais a combinação de três coisas: o custo por tonelada voltar à faixa prometida, o kraftliner aceitar reajuste e a dívida cair abaixo de 3 vezes o Ebitda. Enquanto isso não aparecer no balanço, a tendência é que outras casas façam o mesmo movimento do Safra, e não o contrário.
Veredito: o Safra não virou pessimista. Passou a ver na Klabin uma história de espera, não de compra. Para quem já tem a ação, o alvo de R$ 20,60 ainda supera a cotação, e o dividendo desta semana está pago. Quem pensa em comprar deve esperar a declaração de dezembro e o custo do 4T26: nosso preço justo segue muito abaixo do preço de tela, e a margem só volta ao normal, pelas contas do próprio banco, em 2028.