NEOE3: o que o leilão da Aneel muda nos resultados — Neoenergia arrematou dois lotes e garantiu R$ 127,9 milhões de receita anual Relevância4,0
INTERMEDIÁRIO PTENES

NEOE3 arremata dois lotes no leilão da Aneel e garante R$ 127,9 mi de RAP

Neoenergia assume compromisso de R$ 1,4 bilhão em obras na Bahia e na Paraíba sem prazo definido para entrega

A Neoenergia arrematou dois lotes no leilão de transmissão da Aneel realizado na sexta-feira (30) e garantiu uma Receita Anual Permitida (RAP) para a ação NEOE3. Mas essa receita vem de linhas que ainda não existem: ela não aparece nos resultados de agora, e sim num horizonte mais longo.

O que a Neoenergia arrematou no leilão da Aneel?

Foram dois lotes: o 1 e o 7, com projetos na Bahia e na Paraíba. A Neoenergia venceu os dois, e a RAP somada deles e o investimento previsto são os números que o mercado está olhando:

RAP conjuntaR$ 127,9 mi

Receita anual permitida somada dos dois lotes.

Investimento previstoR$ 1,4 bi

Quanto a empresa terá de colocar nos dois projetos.

Lotes1 e 7

Um projeto na Bahia e outro na Paraíba.

RAP é a receita anual que a transmissora tem direito a receber pela linha. Ela é fixada no leilão e, por isso, a empresa sabe de antemão quanto vai entrar por ano, em vez de depender de preço de energia ou de volume vendido. Mas antes de qualquer receita vem o dinheiro saindo: a conta do investimento vem primeiro. Então a pergunta que importa é se isso muda o resultado da empresa.

O leilão muda os resultados da NEOE3?

Agora, não. Os investimentos são "previstos", ou seja, as obras ainda estão por fazer. As fontes não informam o cronograma, então não dá para dizer em que ano a RAP começa a entrar no caixa da Neoenergia. O que o leilão muda é o que a empresa pode esperar receber depois, não o que ela reporta no próximo balanço.

Uma conta simples ajuda a dimensionar. A RAP conjunta equivale a cerca de 9,1% do investimento previsto (127,9 ÷ 1.400). É uma relação bruta: receita sobre investimento, não lucro nem retorno. Não sabemos o custo de operar as linhas, os impostos nem como a obra será financiada, e sem esses três dados não existe taxa de retorno a calcular.

Também não dá para dizer quanto isso pesa na receita total da Neoenergia: as fontes não trazem esse número. Sem ele, qualquer frase do tipo "o leilão aumenta a receita em X%" seria invenção.

  • Receita regulada e definida no leilão, com previsibilidade de caixa.
  • Dois projetos novos em dois estados, ampliando a base de ativos de transmissão.
  • Receita só depois da obra: o investimento vem antes.
  • Fontes não informam prazo da obra, reajuste da RAP, índice nem financiamento.

Por que o leilão importa para quem tem NEOE3 num país de juros altos?

Porque a receita de transmissão é previsível. Com juros elevados, o investidor paga caro para ter certeza, e uma receita fixada em leilão é justamente essa certeza. A leitura é de que a empresa busca expansão seletiva em transmissão, com foco em ativos estratégicos, e esse tipo de concessão regulada tende a ser tratado como defensivo dentro do Ibovespa.

O leilão se soma a um ano de reorganização na companhia. Já mostramos como a Neoenergia centralizou sete transmissoras e assumiu 51% da subsidiária de transmissão, e os lotes novos entram num segmento que a empresa vem organizando. No outro lado do balanço, ela vendeu a Dardanelos para a Itaú Asset, e a análise da venda da Dardanelos mostra a lógica: sair de um ativo para pôr o capital em outro.

NEOE3 paga dividendos por causa disso, ou dá para decidir comprar ou vender?

As fontes não falam de dividendos nem de preço da ação. O que dá para dizer é estrutural: um investimento de R$ 1,4 bilhão exige caixa antes de render, e como será financiado define se há folga para proventos. Essa informação ainda não existe nos documentos que temos. Um leilão vencido é um dado a favor da tese, não uma recomendação de compra ou venda; a decisão depende de preço, dívida e do resto do portfólio.

O que isso muda para quem tem a ação NEOE3

No resultado do trimestre e nos dividendos de agora, nada. O que muda é o lado de lá: a Neoenergia passa a ter mais uma receita regulada contratada, que só começa a pesar depois que as linhas ficarem prontas.

O que acompanhar daqui para a frente?

1

Como a empresa vai financiar o investimento — se for dívida nova, o custo dela decide quanto da RAP sobra; o ponto de referência é a relação de 9,1% entre receita e investimento.

2

Cronograma das obras — é ele que define quando a RAP começa a entrar; as fontes não trazem a data.

3

Comunicado da própria Neoenergia sobre os lotes — reajuste da RAP, índice e prazo da concessão ainda não foram divulgados nas fontes.

Veredito: o leilão é uma boa notícia de longo prazo para a ação NEOE3 e não mexe no resultado de agora. A Neoenergia garantiu uma receita regulada anual de R$ 127,9 milhões, mas o caixa sai antes de entrar. O que decide se vale a pena é o financiamento e o cronograma, que ainda não foram divulgados.