MULT3: o que aconteceu no 3T26 e por que o lucro de 73% não segurou a ação Relevância6,0
INTERMEDIÁRIO PTENES

MULT3 lucra R$ 383 milhões no 3T26 com alta de 73% — o que explica esse salto histórico nos resultados?

Venda de participação no ParkShoppingBarigüi e salto no FFO explicam o resultado recorde e a desalavancagem da companhia.

A ação MULT3 fechou o último pregão cotada a R$ 27,43, praticamente no mesmo patamar de doze meses atrás — enquanto os shoppings da Multiplan entregavam o maior lucro trimestral da companhia em anos, com crescimento de 73,3% no resultado líquido e recordes operacionais. O descolamento entre balanço e cotação tem uma explicação que começa fora da empresa.

O que aconteceu com a MULT3?

Em 29 de outubro de 2026, a Multiplan divulgou à CVM o relatório de resultados do terceiro trimestre de 2026. O lucro líquido alcançou R$ 383,2 milhões, avanço de 73,3% sobre os R$ 221,1 milhões registrados no 3T25. A receita líquida somou R$ 846,0 milhões, crescimento de 37,0% na comparação anual. O EBITDA chegou a R$ 598,2 milhões, alta de 37,3%.

São três linhas que andariam bem em qualquer balanço de empresa de shopping. O que torna o resultado mais interessante — e mais complexo de interpretar — é que parte expressiva desse crescimento tem origem numa transação pontual concluída no trimestre, não na operação diária dos empreendimentos. O leitor que só enxerga o "+73%" pode tirar conclusão errada se não separar o que é recorrente do que não é.

Indicador3T253T26Var. a/a
Receita líquidaR$ 618 miR$ 846,0 mi+37,0%
EBITDAR$ 435,6 miR$ 598,2 mi+37,3%
Lucro líquidoR$ 221,1 miR$ 383,2 mi+73,3%
FFO—R$ 405,3 mi+70,0%
NOI—R$ 509,0 mi+2,2%

Fontes: Multiplan (relatório entregue à CVM em 29/10/2026) e relatório do 3T25 divulgado pela companhia. FFO e NOI do 3T25 não disponíveis nos documentos consultados.

Quanto do salto de 73% vem de resultado recorrente?

Em agosto de 2026, a Multiplan concluiu a venda de 9,33% de sua participação no ParkShoppingBarigüi, em Curitiba, por R$ 250 milhões — operação cujo memorando de entendimentos havia sido assinado em maio. O pagamento foi dividido em duas parcelas: metade até o fim de agosto de 2026, e a segunda metade em 11 de fevereiro de 2028, com correção pelo IPCA. Com essa transação, a receita de venda de imóveis no 3T26 somou R$ 288,3 milhões, alta de 209,4% sobre o 3T25, e foi o componente que mais distanciou o lucro contábil do crescimento orgânico.

Isso não torna o resultado menos real — a operação existiu, o caixa entrou e a estratégia de reciclagem de portfólio que ela representa é parte do modelo de alocação de capital da Multiplan. Mas significa que a comparação com o 3T25 parte de uma base que também tinha seus próprios ruídos: a escalada das despesas financeiras depois das emissões de debêntures e CRIs em 2024 e 2025 havia comprimido o lucro naquele período, tornando a base de comparação artificialmente baixa. O salto de 73,3% é real; parte dele, porém, é normalização de dois efeitos opostos que se cancelaram nos trimestres anteriores.

O indicador que melhor captura a geração de caixa recorrente é o FFO, que avançou 70,0%, para R$ 405,3 milhões. Esse indicador inclui os efeitos de caixa da operação e filtra parcialmente os ruídos contábeis — e seu crescimento expressivo sugere que, mesmo descontada a venda do Barigüi, o negócio operacional está produzindo mais caixa que um ano atrás.

Como estão os shoppings na prática?

A linha que mais importa para avaliar a saúde dos empreendimentos é o NOI — Resultado Operacional Líquido —, que soma aluguéis e demais receitas dos shoppings depois dos custos diretos. No 3T26, o NOI somou R$ 509,0 milhões, avanço de 2,2% sobre o 3T25, e o relatório da Multiplan informa que representa um recorde da companhia para um terceiro trimestre. A margem NOI ficou em 91,6%. Segundo o próprio documento, esse patamar "voltou a superar a marca de 90%" — o que indica que ao menos um trimestre recente havia ficado abaixo desse nível, e que a recuperação de margem é uma melhora efetiva.

Dentro do NOI, as linhas operacionais mostram aceleração em todas as frentes: a receita de locação subiu 2,8%, para R$ 443,6 milhões; a receita de estacionamento cresceu 17,5%, para R$ 99,6 milhões; e a receita de serviços avançou 9,6%, para R$ 47,0 milhões. O crescimento real do aluguel nas mesmas lojas (SSR) foi de 3,1% no trimestre — os shoppings repassaram acima da inflação para os lojistas sem pressionar a ocupação. As vendas totais dos lojistas nos empreendimentos da companhia somaram R$ 6,4 bilhões no período, alta de 5,9% sobre o 3T25.

Esse quadro operacional era exatamente o que analistas esperavam ver. Em outubro, o JPMorgan havia apontado potencial de alta de até 27% para operadoras de shopping com base na resiliência de receitas que o 3T26 confirma — o resultado não traz surpresas negativas na operação, apenas o contexto externo mudou.

A dívida está sob controle?

Um dos sinais mais relevantes do balanço é a redução da alavancagem. A relação entre dívida líquida e EBITDA dos últimos doze meses caiu de 1,93x em junho para 1,76x em setembro de 2026, terceiro recuo trimestral consecutivo. A combinação de crescimento do EBITDA com a entrada do caixa da venda do Barigüi acelerou essa desalavancagem. O nível de 1,76x está dentro do que o mercado considera saudável para empresas de shopping, cujos ativos imobiliários tendem a suportar financiamentos de longo prazo com mais conforto que setores de capital de giro intensivo.

A redução contínua retira um dos pontos de atenção que analistas levantavam após as emissões de dívida de 2024. Em setembro, o Morgan Stanley havia trocado sua preferência de construtoras para operadoras de shopping justamente pelo argumento de desalavancagem e geração de caixa mais previsível nesse segmento — e o 3T26 confirma que a tese operacional não mudou.

Por que a ação MULT3 não está subindo se o resultado é positivo?

A resposta está fora do balanço. A MULT3 encerrou o pregão de 27 de outubro a R$ 27,43, com variação de -1,72% nos últimos doze meses, apesar da trajetória operacional positiva entregue trimestre a trimestre. A queda mais recente da ação começou antes do balanço ser divulgado e atingiu de forma ampla o setor de shoppings, fundos imobiliários e ativos de renda variável ligados ao mercado interno brasileiro após o resultado eleitoral de outubro.

O canal de transmissão é conhecido: em cenários de revisão para cima da taxa de juros, ou de incerteza sobre o rumo da política econômica, investidores migram de renda variável para renda fixa. Ativos sensíveis a taxa de desconto — como ações de shopping, cujos fluxos de caixa são longos e as cotas de FII do setor concorrem diretamente com o CDI — são os primeiros a ser reprecificados. A MULT3 não caiu porque o negócio piorou. Caiu porque o preço que o mercado está disposto a pagar por crescimento futuro ficou menor, e isso independe do que o balanço entrega.

Em setembro, a Multiplan havia aprovado R$ 139 milhões em Juros sobre Capital Próprio para os acionistas, sinal de confiança na geração de caixa. O mercado havia reagido bem naquele momento. A mudança de humor veio depois, por fatores sistêmicos — e não há balanço forte o suficiente para neutralizar, no curto prazo, uma revisão de prêmio de risco que atinge o mercado inteiro.

O que isso muda para quem tem a ação MULT3

O balanço do 3T26 não entregou nenhuma deterioração operacional: NOI cresceu, vendas dos lojistas avançaram, alavancagem recuou pela terceira vez seguida. Quem tem a ação e está preocupado com o resultado em si pode deixar essa preocupação de lado — a empresa está produzindo mais caixa operacional que um ano atrás. A questão relevante é diferente: num cenário de juros mais altos ou mais incertos, o mercado exige um desconto maior para segurar renda variável, e shoppings são sensíveis a esse repricing. A decisão de manter ou reduzir a posição passa por quanto do custo de oportunidade — a taxa disponível no risco zero — o investidor aceita abrir mão para ficar exposto à tese operacional da Multiplan.

1

Inadimplência dos lojistas no 4T26 — o relatório do 3T26 não informou a taxa de inadimplência do trimestre nos trechos disponíveis; acompanhe o próximo informe para verificar se o crescimento de vendas dos lojistas está sustentado por base de locatários saudável ou conta com algum risco não precificado.

2

Alavancagem abaixo de 1,5x — a relação dívida/EBITDA caiu de 1,93x para 1,76x em três trimestres; se o ritmo se mantiver, a empresa pode atingir esse patamar ao longo de 2027, o que tende a liberar mais capital para JCP e recompras sem comprometer o crescimento via CAPEX.

3

Cronograma de expansões — a Multiplan investiu R$ 122,7 milhões em CAPEX no 3T26, principalmente em expansões de shoppings; a entrega desses projetos vai elevar custos antes de gerar receita incremental — acompanhe o andamento e os prazos divulgados pela empresa.

4

SSR e renovação de contratos no 4T26 — com crescimento real de 3,1% no aluguel das mesmas lojas e ocupação elevada, o gatilho de alerta é uma desaceleração no SSR no próximo trimestre, que sinalizaria pressão nas renovações ou queda no fluxo de consumidores.