O Nikkei, principal índice da Bolsa de Tóquio, caiu 5,96% na sexta-feira (6) e entrou em bear market, segundo o InfoMoney e outros veículos. O motivo foi a venda em massa de ações de inteligência artificial que derrubou o Nasdaq na véspera. Para quem investe no Brasil, o risco não está no Ibovespa, que subiu no mesmo dia. Está nos BDRs e ETFs de tecnologia e no que o tombo pode fazer com os juros americanos.
Por que o Nikkei caiu e entrou em bear market?
A queda começou em Wall Street. Na quinta-feira, em Nova York, o Nasdaq tombou 5,52%, na maior queda diária desde 4 de abril de 2025. Em Tóquio, o Nikkei caiu 5,96%, a 57.434,77 pontos, no pior dia desde abril de 2025. O índice já tinha subido muito com o entusiasmo pela inteligência artificial, e essa foi a pá de cal.
"Bear market" é o nome que o mercado dá quando um índice cai 20% ou mais desde o pico mais recente. As fontes divergem um pouco sobre a referência. O Monitor do Mercado usa o maior fechamento: queda de 20,6% em relação ao pico histórico de 72.366 pontos, alcançado em 25 de junho. Já a Forex.com usa a máxima durante o pregão e calcula queda de 21,1% em relação ao recorde de 72.831,73 pontos, de junho. Em qualquer das duas contas, a linha dos 20% ficou para trás.
Parece contraditório, mas o Nikkei ainda está no positivo no ano. Segundo o relatório de mercado do dia, ele continuava com alta de cerca de 14% no acumulado de 2026. A conta mostra quanto o índice havia subido antes. Quem entrou no Japão em janeiro ainda ganha. O prejuízo é de quem comprou perto do topo.
O gráfico mostra que a queda não foi igual em toda a Ásia. Ela se concentrou onde estão as empresas da cadeia de semicondutores. Em Seul, o Kospi recuou 6,02%, a 5.059,59 pontos, e ampliou a perda da semana para 12%. Durante o pregão, a queda passou de 8% e acionou o 11º circuit breaker do ano. Entre as ações, a SK Hynix caiu 10,4% em Seul, o SoftBank Group recuou quase 11% no Japão e a TSMC perdeu 4,7% em Taipé. Resta saber o que levou Wall Street a vender tanto de uma vez.
O que derrubou as ações de inteligência artificial?
As fontes apontam dois motivos ao mesmo tempo. O primeiro é a dúvida sobre o retorno dos gastos bilionários em data centers. O segundo é político. As vitórias democratas nas eleições de meio de mandato ampliaram as expectativas de maior fiscalização dos investimentos em infraestrutura de IA. Juntos, os dois motivos levaram o mercado a reprecificar empresas avaliadas pelo crescimento futuro.
O tamanho do estrago em Nova York ajuda a entender a reação da Ásia. Segundo a QuotedData, a venda apagou cerca de US$ 2,5 trilhões em valor de mercado nos EUA, e só as "Sete Magníficas" perderam perto de US$ 1 trilhão. O Nasdaq 100 caiu 6,4%, a maior queda desde março de 2020. Entre as fabricantes de chips, a AMD caiu 17,3%, a Nvidia 9,3% e a Broadcom mais de 10%.
Ou seja, o tombo não veio do nada. O Nasdaq vinha caindo desde o pico de 6 de outubro: perdeu cerca de 5,3% em outubro, seu pior mês desde março de 2025. Na sexta houve alívio. O Nasdaq teve alta de 1,09% (24.579,42 pontos), mas o movimento não foi suficiente para reverter as perdas acumuladas na semana. Se o mundo vendeu ações, por que a Bolsa brasileira subiu?
Por que o Ibovespa subiu no meio do pânico?
O Ibovespa tem pouca tecnologia. Ele é formado sobretudo por bancos, petróleo, mineração e energia. Na sexta, o índice começou o dia sob influência do cenário externo e chegou à mínima de 165.909,74 pontos. Depois virou e fechou em 168.498,45 pontos, alta de 1,39%. Segundo o InfoMoney, foi a primeira semana positiva depois de três.
Isso não quer dizer que a Bolsa brasileira está imune. A sequência de quedas que o índice acumulou depois das eleições, que mostramos na análise da quinta queda seguida do Ibovespa, tinha causas internas. A venda de tecnologia ainda não pesou aqui porque o Brasil quase não tem empresas do setor. A Europa, que tem mais tecnologia e reagiu também ao dado de emprego americano, caiu no mesmo dia, como explicamos em por que as bolsas europeias recuaram na sexta. O canal de contágio que preocupa é outro: os juros.
Onde isso pesa no bolso do investidor brasileiro?
O primeiro canal é direto: BDRs e ETFs de tecnologia ou de Nasdaq negociados na B3. Eles acompanham a ação lá fora convertida pelo câmbio, e o dólar ajudou a amortecer. Na quinta, segundo o InfoMoney, o dólar comercial fechou com alta de 0,67%. Pela nossa estimativa, um BDR de Nvidia ficou perto de -8,7% em reais (0,907 × 1,0067 ≈ 0,913), contra -9,3% em dólar. Ou seja, a alta do dólar protege um pouco, mas não muda o tamanho do problema.
O segundo canal é indireto e pode durar mais: os juros americanos. Na sexta, o Departamento do Trabalho dos EUA informou a criação de 165 mil vagas em outubro, acima das 65 mil esperadas, e o desemprego recuou de 4,2% para 4,1%. Para a Capital Economics, os dados reforçam a possibilidade de uma nova alta dos juros pelo Fed na reunião de dezembro. O mercado já apostava em cerca de 70% de chance dessa alta. Juros mais altos nos EUA atraem dinheiro para o dólar e dificultam a queda dos juros no Brasil. Isso afeta a renda fixa prefixada, os FIIs de tijolo e as ações de empresas endividadas.
- Ibovespa com pouca tecnologia: o choque das ações de IA não atinge diretamente bancos, petróleo e mineração
- O dólar em alta reduz a perda em reais de quem tem BDRs e ETFs de ações americanas
- Quem entrou no Japão no começo do ano ainda está no lucro, mesmo depois do bear market
- Carteira concentrada em BDRs de chips e de IA sente o choque quase por inteiro
- Um Fed subindo juros em dezembro pressiona o dólar e a curva de juros no Brasil, e com ela prefixados e FIIs
- O risco de vendas forçadas continua: o Kospi já teve 11 interrupções de pregão em 2026
Bear market no Japão costuma durar? E agora, vendo?
Não há regra, mas o precedente mais próximo serve de lembrete. Em agosto de 2024, a queda de 12,4% foi o pior dia do Nikkei 225 desde a "Black Monday" de 1987, e o índice recuperou o terreno em poucas semanas. Na época, o gatilho foi uma operação de câmbio com o iene que precisou ser desmontada às pressas. Desta vez a dúvida é sobre os lucros de um setor inteiro, e esse tipo de dúvida costuma levar mais tempo para ser resolvido.
Vender no dia seguinte a uma queda forte costuma garantir o prejuízo no pior momento. A pergunta útil é outra: quanto da sua carteira está exposto a tecnologia americana e asiática? Se o peso passou do que você aguenta ver cair 20%, o problema é de alocação, e vale a pena rebalancear com calma, não por causa de um único pregão. Para saber quando o quadro muda, três números dão o sinal.
Nikkei em relação à linha dos 20%: pelo cálculo da 24/7 Wall St., ela fica perto de 58.265 pontos. Fechar acima disso tira o índice do bear market. Romper a mínima do pregão de sexta, 56.745 pontos, indica que a venda continua
Reunião do Fed em dezembro: se a chance de alta passar de 70%, a pressão sobre ações de crescimento e sobre os juros no Brasil aumenta. Se cair, o lado dos juros perde força
Nasdaq em relação ao recorde de 6 de outubro: o índice está na faixa de correção, entre 10% e 20% abaixo do topo. Passar de 20% levaria os BDRs de tecnologia ao mesmo bear market que o Japão já confirmou