Por que a bolsa caiu hoje: pesquisas eleitorais e alta do DI
INTERMEDIÁRIO

Bolsa, DIs e eleições: disputa acirrada empurra juros futuros para cima e derrubam o mercado — VAMO3 despenca 11,22% após reviravolta nas pesquisas?

Contratos de DI para 2035 avançaram 23 pontos-base e o dólar fechou cotado a R$ 5,0227 após o resultado dos levantamentos.

Por que a bolsa caiu hoje?

A bolsa brasileira recuou fortemente porque as taxas dos DIs dispararam mais de 20 pontos-base após pesquisas eleitorais apontarem empate técnico no segundo turno presidencial entre Flávio Bolsonaro e Lula. O salto nos juros futuros encareceu imediatamente o custo de capital das empresas, deflagrando vendas em massa em companhias alavancadas de varejo, no índice de Small Caps (SMLL, que caiu 3,28%) e nos fundos imobiliários medidos pelo IFIX.

Conforme dados apurados pela Reuters e divulgados pelo InfoMoney, o pregão pós-feriado reverteu a calmaria da semana anterior. A taxa do contrato de DI para janeiro de 2028 saltou 17 pontos-base, alcançando 12,70% (contra 12,528% do ajuste anterior). Na ponta mais longa da curva, o DI para janeiro de 2035 avançou 23 pontos-base, atingindo 12,57% ante os 12,345% registrados antes da rodada eleitoral.

DI Jan/2035 12,57%

Abertura de 23 pontos-base na ponta longa da curva a termo.

Dólar Comercial R$ 5,0227

Subida diária de 0,74%, descolando da fraqueza externa da moeda americana.

Índice Small Caps 2.731,59

Queda de 3,28% no dia, concentrada em consumo cíclico e educação.

A reação ocorreu na contramão do cenário internacional de moedas, já que o dólar perdeu força contra diversas divisas globais na mesma data. No mercado local, no entanto, a moeda americana avançou 0,74%, negociada a R$ 5,0227 no fechamento à vista, demonstrando que o vetor da desvalorização cambial foi o prêmio de risco doméstico trazido pela corrida ao Planalto.

O que as novas pesquisas eleitorais mostraram?

Os levantamentos divulgados pelo instituto Nexus (em parceria com o BTG Pactual) e pelo PoderData/Aya indicaram que a disputa presidencial de 25 de outubro está matematicamente indefinida dentro das respectivas margens de erro.

No levantamento da pesquisa BTG/Nexus realizado entre 10 e 12 de outubro — o primeiro realizado pela Nexus após o primeiro turno oficial —, o senador Flávio Bolsonaro (PL) apareceu com 48% das intenções de voto no segundo turno, enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) registrou 45%. Como a margem de erro estimada é de dois pontos percentuais para mais ou para menos, os dados caracterizam empate técnico.

Flávio Bolsonaro (PL) 48% Pesquisa BTG/Nexus (10-12/out)
×
Luiz Inácio Lula da Silva (PT) 45% Margem de erro: ±2 p.p. (5% brancos/nulos)

O quadro de indefinição também foi confirmado pela pesquisa PoderData/Aya divulgada simultaneamente, na qual Flávio obteve 51% e Lula somou 49%, igualmente empatados dentro da margem de erro de 1,8 ponto percentual. Paralelamente, dados citados pelo Terra Economia mostraram oscilações em que levantamentos prévios davam vantagem numérica a Lula (46% a 44%), ilustrando uma alternância de liderança estatística que impede qualquer aposta consensual do mercado.

Segundo analistas citados pelo InfoMoney, parte relevante do mercado associa a candidatura de Flávio à expectativa de maior rigor nas contas públicas, enquanto a continuidade do atual governo suscita dúvidas sobre a trajetória fiscal. Todavia, a indefinição matemática do resultado e a falta de clareza sobre as equipes econômicas definitivas forçam investidores institucionais a exigir juros muito maiores para financiar a dívida pública de longo prazo.

Por que o setor de varejo e consumo desabou?

O setor de consumo doméstico despencou porque empresas com dívida atrelada ao CDI sofrem impacto duplo: suas despesas financeiras sobem instantaneamente no balanço e a taxa de desconto usada para calcular o valor presente dos seus lucros futuros se eleva, destruindo o preço das ações em bolsa.

A perda mais severa foi registrada pela ação VAMO3 (Vamos Locação), que desabou 11,22% no dia, sendo negociada a R$ 6,09. Companhias educacionais e redes varejistas consolidadas acompanharam a sangria com recuos que superaram com folga a média do Ibovespa.

VAMO3-11,22%
YDUQ3-8,45%
LREN3-8,03%
MGLU3-7,04%
CEAB3-5,96%

Na lista de maiores perdas do pregão, o setor educacional viu a ação YDUQ3 ceder 8,45% (R$ 13,32) e a ação COGN3 (Cogna) cair 5,97% (R$ 2,99). No segmento de vestuário e magazine, a ação LREN3 (Lojas Renner) caiu 8,03% para R$ 13,85, enquanto a ação MGLU3 (Magazine Luiza) perdeu 7,04%, fechando a R$ 11,36, e a ação CEAB3 (C&A Modas) recuou 5,96% a R$ 12,77.

O movimento atingiu também empresas de grande porte de outros ramos cíclicos: a ação RENT3 (Localiza) caiu 5,72% (R$ 51,39), a ação NATU3 cedeu 5,50% (R$ 7,04) e a ação CSAN3 (Cosan), exposta a alavancagem estrutural, encerrou em queda de 5,37% a R$ 5,11. O denominador comum de todos esses papéis é a vulnerabilidade direta a um ambiente de juro elevado e consumo retraído.

Empate nas Pesquisas + DIs Longos > 12,5% = Repricing de Varejo e FIIs

Como a alta dos juros atinge os fundos imobiliários?

Nos fundos imobiliários, o efeito da abertura da curva de juros é imediato: o IFIX sofre pressão vendedora porque o investidor passa a exigir retornos maiores para manter cotas de risco, comparando os dividendos mensais com o rendimento garantido pelo Tesouro Direto.

Quando o contrato de DI sobe mais de 20 pontos-base em uma única sessão, as taxas das Notas do Tesouro Nacional (as NTN-Bs, que pagam IPCA mais uma taxa fixa) também são puxadas para cima. Um fundo de tijolo — seja de galpões logísticos ou lajes corporativas — que remunera 8% ou 9% ao ano ao investidor pessoa física perde atratividade instantânea caso um título público comece a remunerar juros reais elevados com garantia soberana.

Além da concorrência direta com a renda fixa, fundos imobiliários com passivos em aberto (como Certificados de Recebíveis Imobiliários indexados ao CDI para financiar compras de imóveis) veem suas despesas financeiras aumentarem, o que reduz o caixa líquido distribuível sob a forma de proventos nos meses subsequentes.

O que isso muda para quem tem a cota

Se você tem ações de varejo ou cotas de FIIs na carteira, a volatilidade das cotações até o dia 25 de outubro não reflete a saúde operacional dos ativos, mas o ajuste na curva de juros futuros. Vender ativos de qualidade no fundo de um pregão motivado por pesquisa eleitoral cristaliza perdas puramente causadas pelo custo de capital temporário.

O que vigiar até o segundo turno em 25 de outubro?

Com as urnas marcadas para 25 de outubro, a tendência é que a volatilidade se mantenha elevada em todas as classes de ativos do mercado brasileiro. O comportamento dos preços dependerá diretamente da evolução de três marcadores objetivos:

1

Abertura do DI Jan/2028 — Se o vencimento intermediário furar de forma consistente a faixa de 12,70% e testar níveis acima de 13%, o custo de rolagem de dívida das empresas listadas pressionará novas quedas no Ibovespa.

2

Comportamento do suporte de R$ 5,00 no câmbio — O dólar à vista fechou em R$ 5,0227. A manutenção da moeda americana acima de cinco reais realimenta expectativas de inflação importada e trava cortes adicionais na Selic.

3

Novas rodadas de pesquisas e sinalizações de política fiscal — Conforme novos levantamentos forem divulgados na reta final, qualquer indicação de consolidação de liderança fora da margem de erro tende a ditar o fechamento ou a abertura dos prêmios de risco na B3.

Atenção ao risco de liquidez: A reprecificação abrupta de taxas de juros afeta primeiro papéis de menor volume financeiro. Não confunda desvalorização contábil de cotação com calote de emissores ou perda de inquilinos em carteiras de renda passiva.