Por que o petróleo caiu tanto — e como isso derrubou as taxas do Tesouro Direto Relevância4,0
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Petróleo mais barato derruba juros do Tesouro Direto e alivia inflação

O Tesouro Prefixado 2032 recuou para 14,10% ao ano após a disparada nas exportações sauditas.

A forte desvalorização do petróleo no mercado internacional, impulsionada pelo aumento das exportações sauditas e pelo otimismo diplomático, foi detalhada em relatórios da consultoria Kpler e de analistas do BTG Pactual. Esse recuo expressivo das commodities energéticas reduz as pressões inflacionárias globais, o que acabou se refletindo diretamente no mercado de renda fixa brasileiro, provocando uma queda generalizada nas taxas de juros dos títulos públicos do Tesouro Direto.

Por que o preço do petróleo caiu no mercado internacional?

O aumento expressivo na oferta da Arábia Saudita e o otimismo com negociações diplomáticas entre os Estados Unidos e o Irã foram os principais fatores que derrubaram as cotações do petróleo. Conforme dados da consultoria Kpler divulgados pelo mercado, as exportações de petróleo bruto da Arábia Saudita voltaram a superar a marca de 4 milhões de barris por dia em setembro. Esse volume representa uma forte recuperação frente aos 2,4 milhões de barris por dia registrados em agosto, que havia sido o menor nível de exportação do país desde pelo menos 2013.

Além disso, informações da agência Reuters apontam que a estatal Saudi Aramco carregou cerca de 14 milhões de barris de óleo bruto em sete superpetroleiros. Esse movimento ocorreu após o reino aumentar os embarques a partir de seus terminais de exportação no Golfo, restabelecendo os fluxos que haviam sido interrompidos por um ataque ao oleoduto Leste-Oeste, que faz a ligação até o Mar Vermelho. Paralelamente, dados do Comando Central dos EUA (Centcom) confirmaram que o volume de petróleo e cargas transportadas pelo Estreito de Ormuz nas últimas duas semanas foi o maior registrado nos últimos seis meses.

No campo diplomático, analistas do BTG Pactual destacaram que o mercado reagiu com otimismo à possibilidade de conversas entre o presidente dos EUA, Donald Trump, e líderes do Golfo e do Irã à margem da 81ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) em Nova York. Esse cenário reduziu o prêmio de risco geopolítico na região do Oriente Médio. Como resultado direto dessas forças de oferta e diplomacia, o petróleo Brent para novembro fechou em queda de 3,40%, cotado a US$ 100,34 o barril na Intercontinental Exchange (ICE) de Londres, enquanto o WTI recuou 3,86%, fechando a US$ 92,37 o barril na Nymex.

Como a queda do petróleo afeta o Tesouro Direto no Brasil?

A queda nos preços da commodity alivia as projeções de inflação global e doméstica, o que provocou o quarto recuo consecutivo nas taxas dos títulos públicos do Tesouro Direto. Com o petróleo mais barato, a pressão sobre os preços dos combustíveis diminui, o que ajuda a moderar as projeções de inflação de curto prazo no Brasil. Esse alívio abriu espaço para o fechamento das curvas de juros futuros no mercado local.

De acordo com dados oficiais do Tesouro Direto divulgados pelo InfoMoney, as taxas dos títulos prefixados e indexados à inflação recuaram de forma consistente. O Tesouro Prefixado 2032, por exemplo, caiu de 14,18% ao ano no fechamento anterior para 14,10%. O Prefixado com Juros Semestrais 2037 recuou de 14,23% para 14,15%, enquanto o Prefixado 2029 passou de 13,85% para 13,79%.

Nos títulos atrelados ao IPCA, o movimento de queda também foi nítido. O Tesouro IPCA+ 2050 registrou a maior retração do dia, recuando de 7,19% para 7,17%. O IPCA+ 2032 caiu de 7,60% para 7,57%, e o IPCA+ com Juros Semestrais 2060 passou de 7,20% para 7,18%. Esse alívio nas taxas de juros domésticas foi reforçado pelo Relatório Focus do Banco Central, que mostrou uma revisão para baixo na expectativa consensual para a taxa Selic ao fim de 2026, agora projetada em 13,50%, sinalizando que o mercado espera mais um corte de juros ainda neste ano.

Título Público Taxa Anterior (%) Nova Taxa (%)
Tesouro Prefixado 2032 14,18% 14,10%
Tesouro Prefixado 2037 (Juros Semestrais) 14,23% 14,15%
Tesouro Prefixado 2029 13,85% 13,79%
Tesouro IPCA+ 2050 7,19% 7,17%
Tesouro IPCA+ 2032 7,60% 7,57%
Tesouro IPCA+ 2060 (Juros Semestrais) 7,20% 7,18%

Quais ações da Bolsa brasileira ganham ou perdem com esse movimento?

As petroleiras sofrem pressão direta com a desvalorização do barril, enquanto setores dependentes de logística e transporte se beneficiam da redução dos custos operacionais com combustíveis. Na Bolsa brasileira, a queda do petróleo tende a pesar sobre o peso pesado do Ibovespa, a Petrobras, além de outras produtoras independentes de petróleo, cujas receitas são diretamente dolarizadas e atreladas à cotação internacional da commodity. Por outro lado, empresas de aviação, transportadoras e varejistas que dependem de uma malha logística complexa ganham fôlego com a perspectiva de combustíveis mais baratos.

No entanto, o setor de petróleo e gás também conta com movimentos corporativos importantes no radar de longo prazo. Um relatório divulgado pelo banco Goldman Sachs apontou para um possível "renascimento" do petróleo na Venezuela. O banco americano estima que os recentes acordos firmados por petroleiras internacionais no país vizinho podem impulsionar a produção de hidrocarbonetos para cerca de 1,9 milhão de barris por dia até 2030.

Esse movimento já começou a gerar parcerias práticas para empresas brasileiras. A Halliburton anunciou a assinatura de memorandos de entendimento com a brasileira Eneva (ENEV3) e com a WESCA para apoiar o desenvolvimento energético e identificar oportunidades de negócios na Venezuela. Em análise sobre o tema, o Bradesco BBI avaliou que o interesse demonstrado pela Eneva evidencia a crescente atratividade do país vizinho para investimentos e apontou que a própria Petrobras também poderia avançar sobre oportunidades na região.

O que o investidor deve acompanhar de perto nos próximos dias?

O investidor deve monitorar os desdobramentos da Assembleia Geral da ONU e os discursos de dirigentes do Federal Reserve para entender os próximos passos dos juros globais. Embora o alívio no petróleo traga otimismo, o cenário de juros nos Estados Unidos ainda exige cautela. O presidente do Federal Reserve de Chicago, Austan Goolsbee, afirmou em evento em Londres que a autoridade monetária precisa ter coragem para enfrentar a inflação e que só se sentirá confortável em apoiar uma redução de juros quando houver evidências convincentes de que os preços estão convergindo de forma sustentável para a meta de 2%. Segundo Goolsbee, o Fed não enfrenta atualmente um problema de emprego, mas sim um problema de inflação persistente.

No cenário doméstico, além do comportamento das commodities e das decisões do Banco Central, o mercado segue atento ao cenário político. A pesquisa eleitoral Nexus mostrou a manutenção de um quadro de empate técnico em um eventual segundo turno entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro, com o atual presidente liderando por apenas um ponto percentual. Esse equilíbrio político adiciona volatilidade aos ativos locais, tornando o acompanhamento das reformas fiscais e das próximas pesquisas de opinião essencial para quem investe em renda fixa e ações.