Recuperação judicial no agro cai 20,7% no 2º trimestre Relevância4,0
INTERMEDIÁRIO

Pedidos de recuperação judicial no agro caem 20,7% no segundo trimestre

O Mato Grosso liderou o indicador com 107 registros no período, segundo levantamento da Serasa Experian.

O que aconteceu com os pedidos de recuperação judicial no agro?

Os pedidos de recuperação judicial no agronegócio caíram 20,7% no segundo trimestre de 2026 em comparação com igual período do ano anterior, totalizando 448 solicitações em todo o país. O dado foi divulgado pela Serasa Experian nesta segunda-feira (19) e representa a primeira retração anual para um segundo trimestre registrada pelo setor desde 2022.

O levantamento da Serasa engloba tanto os pedidos realizados por produtores rurais que atuam como pessoa física quanto aqueles sob regime de pessoa jurídica, além de empresas ligadas diretamente à cadeia produtiva rural. Além da forte desaceleração em base anual, o indicador também apontou um recuo de 5,5% na comparação com os primeiros três meses de 2026, quando o campo havia registrado 474 pedidos de proteção contra credores.

1º Trimestre de 2026 474 pedidos Serasa Experian
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2º Trimestre de 2026 448 pedidos Queda de 5,5% (-20,7% a/a)

Para quem investe em certificados de recebíveis do agronegócio (CRAs) ou acompanha a carteira de um Fiagro, o número chama atenção imediata. Nos últimos dois anos, a disparada nos processos de recuperação judicial no campo foi a principal responsável por calotes pontuais, renegociações forçadas e cortes expressivos nas distribuições mensais de rendimentos.

Por que os pedidos de recuperação judicial recuaram no período?

A melhora apurada nos números não deve ser lida como um sinal de que a crise financeira do produtor rural está liquidada. De acordo com o head de agronegócio da Serasa Experian, Marcelo Pimenta, a desaceleração decorre principalmente de fatores sazonais de liquidez e de acordos prévios de repactuação de dívida, e não necessariamente de uma virada estrutural do setor.

Segundo a entidade, o segundo trimestre coincide com a entrada de recursos decorrentes da comercialização da safra para parte significativa das culturas brasileiras. Esse fôlego temporário no fluxo de caixa permitiu a diversos tomadores de crédito honrar compromissos emergenciais ou postergar decisões jurídicas mais extremas.

“A retração nesse segundo trimestre registrada em pelo menos dois dos três perfis analisados pode estar relacionada a um período de maior entrada de receitas para parte dos produtores, à sazonalidade das atividades agropecuárias e ao avanço de renegociações com credores. Por isso, é importante acompanhar se essa redução será sustentada nos próximos trimestres.” Marcelo Pimenta, head de agronegócio da Serasa Experian

Além da sazonalidade agrícola, as negociações extrajudiciais entre produtores e credores ganharam velocidade ao longo do primeiro semestre. Instituições financeiras, cooperativas e gestores de fundos de crédito buscaram alternativas bilaterais para evitar o rito desgastante e custoso de uma recuperação judicial formal.

Onde o estresse financeiro ainda está mais concentrado?

Apesar do recuo nacional, o Estado de Mato Grosso manteve a liderança isolada no número de processos de recuperação judicial, acumulando 107 registros no segundo trimestre. Por concentrar a maior produção de grãos, oleaginosas e rebanho bovino do Brasil, a região é também a que mais absorveu alavancagem financeira nos anos de expansão de lavouras e maquinário.

O recorte regional da Serasa Experian mostra que a pressão jurídica permanece bastante pulverizada pelos principais polos do agronegócio nacional. Goiás ficou com o segundo lugar em ocorrências, seguido de perto por polos agroindustriais relevantes no Sudeste:

Mato Grosso 107 pedidos
Goiás 84 pedidos
São Paulo 72 pedidos
Minas Gerais 54 pedidos

Essa concentração geográfica é um dado crucial para quem avalia o risco de crédito do portfólio. Fundos com carteiras excessivamente expostas a produtores do Centro-Oeste — especialmente em culturas que sofreram quebra climática ou compressão de margens nos últimos ciclos — continuam convivendo com um ambiente operacional mais vulnerável.

Alívio real ou efeito passageiro? Os dois lados do cenário

Para o investidor que precisa separar ruído de tendência, o relatório da Serasa Experian coloca em evidência forças opostas que ditam o ritmo financeiro do agronegócio neste ano. De um lado, há alívio pontual nas contas; de outro, os custos operacionais continuam elevados e as linhas de financiamento estão mais seletivas.

  • Sazonalidade favorável de receita: A liquidação financeira da colheita no segundo trimestre trouxe recursos frescos ao caixa de parte relevante dos produtores rurais.
  • Disposição para renegociar: O avanço de acordos prévios entre devedores e credores conteve a necessidade de ingressar com pedidos formais na Justiça.
  • Crédito cada vez mais seletivo: Instituições financeiras e fundos elevaram o rigor nas concessões e estão cobrando garantias reais mais robustas.
  • Custo de insumos e margens estreitas: O ambiente geral continua desafiador, com despesas de produção altas e preços de commodities pressionados em nível global.

A combinação de juros elevados com crédito restrito significa que produtores altamente alavancados têm pouca margem para cometer erros de gestão. Se o fluxo de caixa do segundo semestre não mantiver a consistência observada na safra, o risco de novos pedidos de proteção judicial volta a se elevar.

O que isso muda para quem tem cotas de Fiagro na carteira?

A notícia traz um alívio psicológico para o mercado, mas não elimina a necessidade de monitorar de perto os relatórios gerenciais dos fundos. A queda de 20,7% nos pedidos de recuperação judicial sinaliza que o ritmo de deterioração aguda perdeu tração momentânea, mas as sequelas dos anos anteriores ainda exigem provisões ativas nas carteiras.

O que isso muda para quem tem a cota

O risco de novas recuperações judiciais em massa arrefeceu no trimestre, o que reduz a pressão de curto prazo sobre os dividendos. Contudo, como o crédito continua seletivo e os custos seguem pesados, o investidor deve manter o foco na qualidade das garantias (alienação fiduciária de terras) em vez de buscar apenas os Fiagros com o maior dividend yield da tela.

Para navegar nos próximos meses sem surpresas negativas no fluxo de proventos, o investidor pessoa física deve acompanhar quatro indicadores objetivos nos informes mensais das gestoras:

1

Exposição por Estado — Verifique se a carteira não está excessivamente concentrada em regiões sob maior pressão de RJ, como Mato Grosso (107 casos) e Goiás (84 casos).

2

Qualidade e liquidez das garantias — Priorize operações lastreadas em alienação fiduciária de terras produtivas bem avaliadas, que oferecem recuperação rápida do capital em caso de inadimplência.

3

Índice de renegociações — Acompanhe se o gestor está prorrogando pagamentos de juros e principal sem exigir amortizações extraordinárias ou reforço de garantias.

4

Provisão para devedores duvidosos — Cheque se o fundo já reconheceu perdas esperadas no patrimônio líquido ou se mantém ativos estressados contabilizados pelo valor de face.

Veredito do Rico aos Poucos

O recuo de 20,7% nas recuperações judiciais do agronegócio apurado pela Serasa Experian confirma que a tempestade mais severa desacelerou no segundo trimestre de 2026. No entanto, como destacou a própria instituição, a melhora tem forte componente sazonal e não autoriza relaxamento. Para quem investe em crédito agrícola, o momento pede preferência por carteiras diversificadas, com devedores de porte comprovado e garantias reais que protejam o principal investido.