A Localiza Rent A Car entregou à CVM, às 18h27 de 05/11, o Earnings Release do 3T26: lucro líquido de R$ 1,125 bilhão, 29,1% acima do lucro ajustado do 3T25. O documento é um balanço trimestral, não trata de extinção, fechamento de capital nem suspensão de negociação, e o que ele pede de atenção é a dívida e o custo de manter a frota nova.
RENT3 o que aconteceu?
Foi a divulgação de resultado. A ação RENT3 (Localiza) ganhou manchete porque a empresa informou receita líquida consolidada de R$ 12.278 milhões no trimestre, crescimento de 14,4% sobre o 3T25. Se você não achou o papel na corretora ou ouviu falar em "acabou", nada nas fontes que analisamos fala nisso: o que a Localiza protocolou foi o press-release com os números do trimestre.
O lucro de R$ 1,125 bilhão tem uma ressalva que a própria empresa faz: a alta de 29,1% é contra o lucro ajustado do 3T25, descontados os efeitos da redução do IPI Verde. Pela conta entre os dois números, a base de comparação fica perto de R$ 871 milhões. Ou seja, o avanço é real, mas medido contra um trimestre que a Localiza mesma corrigiu.
Quanto cresceu cada linha do resultado?
Receita, EBITDA e EBIT subiram em dois dígitos, mas em ritmos diferentes. O detalhe que importa está na terceira linha da tabela: o EBIT cresceu menos que a receita.
| Indicador (3T26) | Valor | Variação anual |
|---|---|---|
| Receita líquida consolidada | R$ 12.278 mi | +14,4% |
| EBITDA | R$ 4.029 mi | +13,7% |
| EBIT | R$ 2.516 mi | +11,3% |
| Lucro líquido | R$ 1.125 mi | +29,1% (contra o ajustado) |
O EBIT é o resultado depois da depreciação dos carros. Que ele tenha crescido menos que a receita é compatível com o que a Localiza descreve no release: a indústria automotiva vive "maior depreciação", com novas marcas e modelos entrando e crédito ainda restritivo, o que pressiona os preços dos veículos e o valor residual da frota. O lucro cresceu mais que o EBIT, e o documento não detalha nos trechos que temos o que explica essa diferença, além do efeito do IPI Verde na base de comparação.
De onde vem o dinheiro: aluguel ou venda de carro?
Mais da metade da receita vem de onde a margem é mínima. Seminovos faturou R$ 6.772 milhões (cerca de 55% do total), com margem EBITDA de 1,6%. Já Aluguel de Carros e Gestão de Frotas somaram R$ 5.506 milhões e carregam margens bem mais gordas, que fazem quase todo o EBITDA da companhia.
No Aluguel de Carros, a receita de R$ 3.025 milhões (+16,5%) veio de volume 10,6% maior e diária média 5,2% maior, com utilização da frota de 82,4%. Em Gestão de Frotas, a receita de R$ 2.428 milhões cresceu 6,8%, com utilização de 96,9%. Somados, os dois negócios geram perto de R$ 3,9 bilhões dos R$ 4,0 bilhões de EBITDA. Seminovos entra como válvula: a Localiza vendeu 87.850 carros no Brasil, perto de 90 mil por trimestre, e isso renova a frota de aluguel, cuja idade média operacional caiu para 7,8 meses, segundo a companhia.
A tese de quem tem a ação depende, portanto, de duas coisas: a tarifa de aluguel continuar subindo e o preço de revenda dos carros não ceder demais. Foi sobre essa segunda perna que o JPMorgan fez sua aposta contra a empresa, como mostramos na análise sobre a troca de Localiza por Rumo.
A dívida de R$ 33 bilhões é o problema?
É o ponto que mais pesa. A dívida líquida chegou a R$ 33.063 milhões em 30/09/2026, 6,5% acima dos R$ 31.052 milhões do fim de 2025, ou seja, cerca de R$ 2 bilhões a mais em nove meses. A Localiza não dá o indicador de alavancagem nos trechos que temos, apenas diz que há "confortáveis indicadores", sem o número.
O que o release mostra é como a conta está protegida. Cerca de três quartos da dívida têm taxa travada por swap, e o resto flutua com o CDI:
A lógica que a companhia explica é casar o custo da dívida com o preço embutido nos contratos de Gestão de Frotas, para proteger o chamado ROIC spread (o retorno acima do custo de capital), que ficou em 6,4 p.p. nos 9M26, dentro da faixa-alvo. O lado frágil é a parcela de R$ 8,3 bilhões: se o CDI ficar alto por mais tempo, ela pesa direto no lucro.
E o preço da ação: o que o mercado já sabia?
A cotação mais recente que temos é de 30/10, antes do resultado: R$ 27,85, com queda de 4,06% no dia e de 29,03% em 12 meses. A reação ao balanço de 05/11 ainda não está nas nossas fontes. A própria triagem do documento classifica o efeito no preço como incerto, dependendo de como o mercado avalia a depreciação dos veículos e o endividamento.
Resultado bom não garante alta no pregão seguinte. Um ano de queda de 29,03% mostra que o mercado já vinha cobrando depreciação e juros altos, e o balanço não elimina nenhum dos dois.
A Movida, outra locadora, também divulgou seu trimestre há pouco, como cobrimos no resultado recorde da MOVI3. Vale comparar os dois: o setor enfrenta o mesmo ambiente de juros e preço de carro, e a diferença está em quem consegue segurar a margem.
O que isso muda para quem tem RENT3?
Nada obriga você a vender nem a comprar por causa do balanço. O resultado confirma que a operação cresce e lucra. A dúvida segue sendo quanto a depreciação e a dívida comem desse lucro nos próximos trimestres. Proventos não aparecem nos trechos do release que temos, então não dá para dizer o que a empresa vai distribuir; a página da ação com cotação, dividendos e documentos reúne o histórico.
- Receita consolidada +14,4% e EBIT +11,3%, com a frota de aluguel mais nova (7,8 meses de idade média).
- Cerca de R$ 24,7 bi da dívida com juro pré-fixado travado por swap, o que dá previsibilidade.
- Dívida líquida 6,5% maior que no fim de 2025, com R$ 8,3 bi ainda expostos ao CDI.
- EBIT crescendo menos que a receita, num cenário de depreciação elevada e preços de carro sob pressão.
- Seminovos é mais da metade da receita com margem de 1,6%: o negócio depende do preço de revenda.
Resumo: a Localiza informou um trimestre de lucro maior, e a RENT3 não foi extinta nem saiu do mercado por causa disso. O que decide a ação daqui para frente é a dívida de R$ 33 bilhões e o preço dos carros usados, não o lucro do 3T26.