Squadra assume Hapvida (HAPV3) como o maior erro de sua história — vale a pena seguir a gestora agora? Relevância4,0
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HAPV3: Squadra assume que falhou na fusão e errou em sua maior tese

Fusão travada, inflação médica e custos corroeram as margens da companhia.

O que aconteceu com a Hapvida (HAPV3) segundo a Squadra?

A gestora de recursos Squadra admitiu, em sua última carta semestral aos cotistas, que o investimento nas ações da Hapvida (HAPV3) foi o maior erro de sua história. A casa de análise e gestão, amplamente conhecida no mercado financeiro por sua precisão técnica e por ter desmascarado inconsistências contábeis de grandes empresas no passado, revelou que subestimou os desafios operacionais e a destruição de valor decorrentes da fusão entre a Hapvida e a NotreDame Intermédica (GNDI).

De acordo com o posicionamento da gestora, a tese de investimento que parecia sólida no papel — baseada na criação de uma gigante nacional de saúde suplementar com modelo verticalizado e ganhos de escala massivos — esbarrou em uma realidade operacional muito mais complexa e hostil do que o projetado. O processo de integração das duas companhias gerou fricções severas, enquanto o cenário macroeconômico e setorial do pós-pandemia corroeu as margens que antes justificavam os múltiplos elevados da ação.

Ao assumir o erro publicamente, a Squadra adota uma postura de transparência rara no mercado de capitais brasileiro, especialmente por se tratar de uma tese que consumiu uma parcela relevante do patrimônio sob gestão ao longo dos últimos anos. A admissão serve como um alerta contundente para o investidor pessoa física sobre os riscos de carregar teses de crescimento acelerado que dependem de fusões gigantescas em setores intensivos em capital e regulação.

Por que a tese de HAPV3 deu tão errado para a gestora?

O principal pilar do erro apontado pela Squadra reside na falha de integração entre a Hapvida e a NotreDame Intermédica. A fusão, desenhada para capturar sinergias bilionárias e consolidar o mercado de saúde de baixo custo no Brasil, acabou revelando culturas corporativas difíceis de unificar e sistemas operacionais incompatíveis, o que atrasou a captura de eficiência e elevou os custos de transição.

Além dos problemas internos de execução, o setor de saúde suplementar enfrentou uma tempestade perfeita nos anos seguintes à combinação dos negócios. A inflação médica escalou de forma persistente, impulsionada pelo aumento do custo de materiais, medicamentos e pela retomada de procedimentos eletivos represados durante a pandemia. Esse fenômeno pressionou diretamente a sinistralidade da companhia — a relação entre o que o plano arrecada e o que ele gasta com os atendimentos dos beneficiários.

O calcanhar de Aquiles da verticalização: O modelo de hospitais próprios (verticalizado), que sempre foi o grande diferencial competitivo da Hapvida para manter custos baixos, mostrou sinais de saturação e ineficiência quando expandido para regiões metropolitanas mais complexas, onde a NotreDame Intermédica operava historicamente.

A Squadra também identificou que a capacidade de repasse de preços da Hapvida foi superada pela deterioração da renda média da população e pelo orçamento apertado das empresas contratantes. Em planos de saúde voltados para as classes C e D, qualquer tentativa de reajuste acima da inflação resulta em cancelamentos em massa (churn), limitando o poder de precificação da companhia justamente no momento em que ela mais precisava recompor suas margens operacionais.

O que a Squadra está fazendo com o portfólio agora?

Após o reconhecimento do fracasso na tese de Hapvida, a Squadra reduziu drasticamente sua exposição ao papel, estancando a perda de capital e redirecionando seus recursos para novas oportunidades na Bolsa brasileira. A gestora indicou que está focando em ativos que apresentam maior previsibilidade de fluxo de caixa, barreiras de entrada mais sólidas e, acima de tudo, que não dependam de grandes eventos de fusão e aquisição (M&A) para destravar valor.

Embora a carta mencione que a casa identificou oportunidades promissoras em outras quatro ações do mercado local, a Squadra optou por manter o foco estratégico na reciclagem do portfólio sem carregar o viés de tentar recuperar o prejuízo no mesmo ativo que gerou a perda. Essa disciplina de portfólio é um dos conceitos mais importantes que o investidor pessoa física pode aprender com o episódio: o dinheiro perdido em uma ação não precisa, necessariamente, ser recuperado com ela mesma.

A rotação de portfólio da gestora reflete um movimento mais amplo de busca por qualidade (quality) em detrimento de histórias de crescimento acelerado a qualquer custo. Em um cenário de juros estruturalmente mais altos no Brasil, empresas com endividamento controlado e capacidade comprovada de gerar caixa livre no curto prazo passam a ter prioridade na alocação de grandes fundos.

Vale a pena investir em Hapvida (HAPV3) após o veredito da gestora?

A decisão de investir ou manter Hapvida (HAPV3) na carteira exige que o investidor pessoa física pese o pessimismo da Squadra contra o preço atual das ações, que já carregam um desconto severo em relação às máximas históricas. O mercado financeiro costuma punir excessivamente empresas em processo de reestruturação, o que pode criar distorções de preço para quem tem horizonte de longuíssimo prazo.

Por um lado, os desafios estruturais apontados pela gestora são reais e não vão desaparecer rapidamente. A regulação da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) continua rígida, a sinistralidade do setor demora trimestres para convergir a patamares históricos e a integração completa da GNDI ainda demanda energia da administração. Quem compra HAPV3 hoje precisa estar ciente de que está adquirindo uma tese de "turnaround" (virada de resultados), e não mais uma história de crescimento linear e previsível.

O Veredito para o Investidor

Se uma das gestoras mais minuciosas do país capitulou diante da complexidade da Hapvida, o investidor individual deve redobrar a cautela. Manter uma posição pequena e controlada pode fazer sentido apenas para quem acredita na recuperação marginal das margens operacionais nos próximos anos. Para o investidor defensivo, que busca dividendos ou menor volatilidade, o setor de saúde suplementar atualmente apresenta mais incertezas do que prêmios de risco atraentes.

A lição que fica deste movimento da Squadra é que até mesmo os profissionais mais qualificados do mercado estão sujeitos a erros de avaliação de longo prazo. A diferença entre o sucesso e o fracasso do investidor comum reside na capacidade de reconhecer esses erros rapidamente, limitar as perdas e diversificar o patrimônio para que nenhuma tese individual tenha o poder de comprometer o futuro financeiro da carteira.