Tesouro Direto em vaivém após reeleição de Lula — como investir agora nos prefixados, IPCA+ e Selic
INTERMEDIÁRIO

Tesouro Direto em vaivém após reeleição de Lula — como investir agora nos prefixados, IPCA+ e Selic

O maior choque diário da série histórica, recuo parcial e nova pressão — especialistas indicam o caminho para cada tipo de título

As taxas do Tesouro Direto viveram três dias de vaivém histórico desde a reeleição de Lula: o Prefixado 2032 saltou de 12,89% para 15,50% no primeiro pregão pós-eleição — o maior choque diário desde que o programa nasceu, em 2004 —, recuou 49 pontos-base na terça e voltou a pressionar nesta quarta. Para recursos novos, especialistas ouvidos pelo InfoMoney apontam o Tesouro Selic; para quem já tem papel longo, a orientação é segurar e não decidir por impulso.

O que aconteceu com o Tesouro Direto após a reeleição?

Três dias em três atos. A reeleição de Lula, confirmada no domingo (25), disparou no pregão de segunda-feira (26) o maior choque de juros da história do Tesouro Direto — superando, em magnitude, o registrado em 12 de março de 2020, no auge da pandemia de Covid-19. O Prefixado 2032 foi de 12,89% para 15,50% em um único dia; o Tesouro Nacional cancelou os leilões regulares da semana, realizou recompras de emergência e chegou a suspender as negociações de prefixados e IPCA+ por horas.

26/10 (seg)Maior choque da história — Pref 2032 vai de 12,89% para 15,50%; IPCA+ 2050 atinge IPCA+7,03%; Tesouro cancela leilões, faz recompra de emergência e suspende negociações por horas
27/10 (ter)Prefixados recuam 49 p.b. — Pref 2032 fecha a 15,01%; IPCA+ longos seguem pressionados, na contramão
28/10 (qua)Pressão volta — Pref 2032 sobe de 15,06% para 15,27%; IPCA+ 2032 avança de 7,78% para 7,97% de juro real; Ibovespa cede 2,78%; Fed mantém juros americanos em 3,75%–4,00%

O que surpreendeu não foi apenas a magnitude, mas a velocidade do vaivém. O choque do primeiro dia não teve uma causa única — teve três, simultâneas, e cada uma alimentou a seguinte. Antes mesmo da eleição, a Fitch já alertava para a trajetória da dívida pública brasileira e o mercado exigia prêmio de risco. O resultado eleitoral acelerou o que estava engatilhado.

Por que as taxas ainda oscilam?

Três vetores se somaram em poucas horas — e dois deles ainda estão ativos nesta quarta-feira.

Reeleição de Lula + Risco fiscal sem âncora + Estudo de IOF sobre isentos = Taxas em alta histórica

O primeiro vetor foi eleitoral: o mercado precificou o risco de um segundo mandato com expansão de gastos e sem uma PEC fiscal com corte estrutural concreto nos dias seguintes ao resultado. O segundo surgiu quando esse ajuste não foi sinalizado de forma clara. O terceiro chegou nesta quarta: o jornal O Globo noticiou que a equipe econômica estuda recriar o IOF sobre LCI, LCA, CRI, CRA e debêntures incentivadas — modalidades hoje isentas de IR que concorrem diretamente com os títulos do Tesouro. Se o IOF avançar, capital migraria dessas aplicações para os papéis públicos, o que poderia comprimir as taxas — mas a sinalização de mais uma mudança de regras no mercado de renda fixa sozinha já foi suficiente para pressionar.

Importante: até o fechamento desta edição, o Ministério da Fazenda não confirmou nenhuma alíquota nem data de entrada em vigor. É um estudo, não uma decisão. Isso não impediu o Ibovespa de ceder 2,78% ao meio-dia enquanto o mercado aguardava também a decisão do Federal Reserve — que manteve os juros americanos na faixa de 3,75% a 4,00%, em linha com a expectativa, sem acrescentar pressão externa ao quadro.

O que fazer com o dinheiro agora?

Especialistas ouvidos pelo InfoMoney divergem sobre o tempo certo para entrar nos prefixados, mas convergem em dois pontos: recursos novos vão para o Tesouro Selic enquanto a incerteza fiscal não se resolve, e nenhum investidor deveria agir por impulso numa semana de alta histórica.

Tesouro Selic 13,75% a.a.

Porto seguro para o dinheiro novo. Não oscila com a marcação a mercado, garante liquidez diária e remunera a cerca de três vezes a inflação dos últimos 12 meses. Recomendado pela XP Research e por Bruno Corano (Corano Capital) enquanto o quadro fiscal não clareia.

Tesouro IPCA+ IPCA + 7,97%

Juro real historicamente elevado com proteção contra inflação. XP Research prioriza os vencimentos 2032 e 2035; entrada gradual, em parcelas, para diluir o risco de timing num cenário ainda volátil.

Tesouro Prefixado 15,27% a.a.

Taxa em nível atrativo, mas volatilidade ainda alta. Só para quem não precisa do dinheiro antes do vencimento e tolera ver o extrato oscilar durante a turbulência.

"Com a Selic em 13,75% ao ano, cerca de três vezes a inflação acumulada em 12 meses, o investidor é muito bem remunerado para esperar."Bruno Corano, CEO da Corano Capital, ao InfoMoney

Para quem optar pelo IPCA+, a ferramenta de inflação real do site ajuda a entender quanto do rendimento contratado vai de fato além do IPCA — a régua mais direta de se saber se o prêmio do papel compensa o prazo.

Quem já tem título: vende ou segura?

A resposta padrão é segurar — mas a resposta útil depende de quando você precisa do dinheiro. O Tesouro Direto usa marcação a mercado: o preço do título oscila todos os dias conforme as taxas. Quando as taxas sobem (como aconteceu esta semana), o preço cai, e o extrato mostra rentabilidade menor ou negativa no curto prazo. Isso não significa perda definitiva: quem mantiver o papel até o vencimento recebe exatamente a taxa contratada, independentemente do que aconteceu no meio do caminho.

16% 15% 14% 13% 12% 12,89% 23/10 15,50% 26/10 15,01% 27/10 15,27% 28/10
Taxa do Tesouro Prefixado 2032 de sexta (23/10) a quarta (28/10): o choque histórico de segunda e o recuo parcial que não segurou.

O gráfico mostra o que a manchete às vezes esconde: boa parte do choque já foi revertida. O pico histórico da segunda foi parcialmente devolvido na terça; a quarta trouxe nova pressão, mas a taxa está abaixo do pico. Quem comprou o Pref 2032 antes da eleição vê perda de mercado enquanto a taxa estiver acima do preço contratado — mas vender agora realiza o pior momento. O Tesouro Nacional chegou a recomprar 15 milhões de títulos prefixados para tentar estabilizar o mercado — sinal do quanto a volatilidade foi fora do padrão.

O que vem pela frente?

A velocidade com que o quadro fiscal se desenhar nas próximas semanas vai ditar o preço dos títulos longos. O Copom se reúne em 4 de novembro; antes da crise desta semana, o mercado projetava a Selic encerrando 2026 em 13,25%. Dois caminhos estão na mesa.

Ajuste fiscal Juros longos recuam

Governo apresenta PEC com corte de gastos estrutural concreto ainda em 2026 → prefixados e IPCA+ se valorizam, quem aportou a taxas históricas pode ter ganho de capital antes do vencimento.

Sem âncora fiscal Pressão acima de 15%

Expansão de gastos persiste, IOF sobre isentos avança sem contrapartida e Copom sinaliza retomada de altas → títulos longos seguem voláteis, e a estratégia do Tesouro Selic para o dinheiro novo se confirma como a mais conservadora.

O que isso muda para você

Se você tem Tesouro Selic, nada muda: o preço não oscila e o rendimento segue acumulando à taxa da Selic. Se tem prefixado ou IPCA+ comprado antes desta semana, a perda no extrato ainda é só de mercado — vender agora realiza o pior momento; aguardar até o vencimento garante a taxa contratada. Para o dinheiro novo: Tesouro Selic enquanto a incerteza fiscal não se resolve é a recomendação unânime; o IPCA+ com vencimentos em 2032 ou 2035 entra depois, em parcelas, para quem tem horizonte longo e tolera volatilidade no meio do caminho.

1

Copom de 4 de novembro — se mantiver a Selic com comunicado mais duro do que o esperado, o mercado vai interpretar que o BC também vê risco fiscal elevado; se a decisão vier neutra, pode ser sinal de acomodação.

2

PEC fiscal — qualquer proposta com número de corte de gastos estrutural e prazo fecha parte da curva de juros longos; sem número concreto, a pressão nos IPCA+ e prefixados longos continua.

3

Decreto de IOF sobre isentos — se publicado, LCI e LCA perdem competitividade e a demanda pelo Tesouro IPCA+ aumenta, o que pode comprimir as taxas dos títulos mais curtos; fique atento a qualquer publicação no Diário Oficial.