- A posição da Vinland: Aurélio Bicalho não enxerga justificativa consistente para apostar na desvalorização do dólar frente ao real.
- O motivo principal: O câmbio responde primordialmente à dinâmica macroeconômica global, e não unicamente ao calendário eleitoral ou político do Brasil.
- O reflexo no bolso: Desmontar reservas em moeda forte para buscar ganhos rápidos com a valorização do real carrega assimetria negativa.
Vale a pena apostar contra o dólar?
Não há uma tese convincente para apostar na queda do dólar, segundo avaliação de Aurélio Bicalho, economista-chefe da gestora Vinland, em entrevista ao podcast Stock Pickers. Na visão do gestor, muitos investidores tentam antecipar movimentos cambiais olhando apenas para o termômetro político e eleitoral doméstico, esquecendo que a cotação da moeda americana é governada em primeiro lugar por forças macroeconômicas globais.
Para quem investe como pessoa física, essa advertência desmonta uma tentação recorrente: a de liquidar ativos no exterior ou posições dolarizadas na esperança de recomprar mais barato após eventuais desfechos eleitorais no Brasil. Segundo Bicalho, essa estratégia costuma falhar porque ignora o peso das taxas de juros externas, da liquidez mundial e da aversão a risco internacional sobre as moedas emergentes.
Por que o cenário doméstico não basta para derrubar o dólar?
O mercado local representa apenas uma fração das forças que definem o câmbio, como frisou o economista-chefe da Vinland ao Stock Pickers. Quando o debate público se concentra nas eleições presidenciais ou em articulações em Brasília, o investidor tende a acreditar que uma vitória do candidato A ou B, ou um determinado discurso, seria capaz de produzir uma valorização duradoura do real por si só.
No entanto, como pontua Aurélio Bicalho, o comportamento do dólar contra divisas emergentes deriva de um conjunto muito mais abrangente de engrenagens econômicas. Se as taxas de juros nos Estados Unidos permanecerem atrativas ou se a economia americana continuar sugando capital do resto do planeta, o real continuará sob pressão estrutural, independentemente do humor momentâneo do Congresso ou dos comícios.
O custo de oportunidade de manter capital nos EUA dita o fluxo de capitais nos mercados emergentes.
Restringir a projeção cambial às urnas brasileiras ignora a correlação entre risco global e moedas fracas.
Apostar na queda da moeda americana sem alinhamento externo oferece assimetria desfavorável ao patrimônio.
Tratar o câmbio como mero espelho da política interna é uma das formas mais comuns de cometer erros patrimoniais. Mesmo em momentos em que o ambiente institucional brasileiro parece calmo, choques geopolíticos, revisões de política monetária do Federal Reserve ou desaceleração em grandes parceiros comerciais podem drenar dólares do país rapidamente.
O que precisaria acontecer para o dólar ceder terreno?
A desvalorização sustentada da moeda americana depende de alinhamento internacional, e não de um mero alívio pontual nas tensões internas. Na ótica da gestão da Vinland exposta no programa, apostar na apreciação do real exigiria que o contexto financeiro internacional abrisse espaço para uma busca agressiva por risco em países periféricos.
Para desenhar essa relação, é essencial separar as condições que sustentam a força do dólar daquelas raras janelas em que as moedas emergentes conseguem ganhar tração duradoura:
Juros externos elevados e aversão a risco mantêm o capital retido na moeda de reserva, limitando o fôlego do real.
Exigiria desaceleração da economia americana, cortes coordenados de juros globais e disciplina fiscal sólida no Brasil.
Como a probabilidade de um alinhamento perfeito de todos esses fatores favoráveis é historicamente baixa, vender moeda forte na esperança de um grande rali do real se torna uma operação de risco elevado, com ganho potencial limitado e proteção desarmada.
Se você tem investimentos no exterior, fundos cambiais ou BDRs, a recomendação implícita na leitura da Vinland é clara: não use a carteira de proteção cambial para fazer especulação política. Dólar na carteira não é aposta direcional de curto prazo; é seguro contra a perda estrutural de poder de compra de uma moeda emergente.
O que o investidor deve vigiar a partir de agora?
Acompanhar a rota das taxas de juros internacionais é mais urgente do que tentar prever pesquisas eleitorais. Ao avaliar a estrutura da sua carteira e decidir se vale a pena aumentar ou recalibrar a fatia internacional, quatro fatores merecem atenção constante:
Diferencial de juros — Meça a distância entre a taxa Selic e as taxas de títulos do Tesouro americano. Quanto menor o prêmio para correr risco no Brasil, menor o incentivo para o capital estrangeiro permanecer por aqui.
Liquidez e apetite a risco global — Quando o mercado externo entra em modo defensivo, ativos de países emergentes costumam ser os primeiros liquidados por fundos internacionais.
Equilíbrio fiscal do Brasil — O ruído eleitoral só vira tendência cambial duradoura se alterar a percepção de solvência da dívida pública e os gastos governamentais no médio prazo.
Veredito: proteger a carteira supera especular contra o dólar
A análise de Aurélio Bicalho no Stock Pickers reforça o princípio básico da alocação de ativos: apostar contra o dólar baseado no noticiário eleitoral doméstico é um jogo assimétrico contra o investidor. O dólar cumpre a função de ativo de refúgio e preservação de capital. Sem uma mudança profunda e articulada no quadro macroeconômico global, desmontar posições em moeda forte para caçar valorização pontual do real é trocar segurança estrutural por ruído de curto prazo.