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INTERMEDIÁRIO PTENES

Vale a pena apostar contra o dólar agora?

Gestora aponta assimetria negativa e risco elevado para quem tenta antecipar movimentos cambiais olhando apenas para urnas.

Em 20 segundos
  • A posição da Vinland: Aurélio Bicalho não enxerga justificativa consistente para apostar na desvalorização do dólar frente ao real.
  • O motivo principal: O câmbio responde primordialmente à dinâmica macroeconômica global, e não unicamente ao calendário eleitoral ou político do Brasil.
  • O reflexo no bolso: Desmontar reservas em moeda forte para buscar ganhos rápidos com a valorização do real carrega assimetria negativa.

Vale a pena apostar contra o dólar?

Não há uma tese convincente para apostar na queda do dólar, segundo avaliação de Aurélio Bicalho, economista-chefe da gestora Vinland, em entrevista ao podcast Stock Pickers. Na visão do gestor, muitos investidores tentam antecipar movimentos cambiais olhando apenas para o termômetro político e eleitoral doméstico, esquecendo que a cotação da moeda americana é governada em primeiro lugar por forças macroeconômicas globais.

Para quem investe como pessoa física, essa advertência desmonta uma tentação recorrente: a de liquidar ativos no exterior ou posições dolarizadas na esperança de recomprar mais barato após eventuais desfechos eleitorais no Brasil. Segundo Bicalho, essa estratégia costuma falhar porque ignora o peso das taxas de juros externas, da liquidez mundial e da aversão a risco internacional sobre as moedas emergentes.

Ruído Eleitoral Local + Pressão Macroeconômica Global = Dólar Sustentado

Por que o cenário doméstico não basta para derrubar o dólar?

O mercado local representa apenas uma fração das forças que definem o câmbio, como frisou o economista-chefe da Vinland ao Stock Pickers. Quando o debate público se concentra nas eleições presidenciais ou em articulações em Brasília, o investidor tende a acreditar que uma vitória do candidato A ou B, ou um determinado discurso, seria capaz de produzir uma valorização duradoura do real por si só.

No entanto, como pontua Aurélio Bicalho, o comportamento do dólar contra divisas emergentes deriva de um conjunto muito mais abrangente de engrenagens econômicas. Se as taxas de juros nos Estados Unidos permanecerem atrativas ou se a economia americana continuar sugando capital do resto do planeta, o real continuará sob pressão estrutural, independentemente do humor momentâneo do Congresso ou dos comícios.

Foco Global Juros Externos

O custo de oportunidade de manter capital nos EUA dita o fluxo de capitais nos mercados emergentes.

Visão Limitada Miopia Local

Restringir a projeção cambial às urnas brasileiras ignora a correlação entre risco global e moedas fracas.

Tese Fraca Venda de Dólar

Apostar na queda da moeda americana sem alinhamento externo oferece assimetria desfavorável ao patrimônio.

Tratar o câmbio como mero espelho da política interna é uma das formas mais comuns de cometer erros patrimoniais. Mesmo em momentos em que o ambiente institucional brasileiro parece calmo, choques geopolíticos, revisões de política monetária do Federal Reserve ou desaceleração em grandes parceiros comerciais podem drenar dólares do país rapidamente.

O que precisaria acontecer para o dólar ceder terreno?

A desvalorização sustentada da moeda americana depende de alinhamento internacional, e não de um mero alívio pontual nas tensões internas. Na ótica da gestão da Vinland exposta no programa, apostar na apreciação do real exigiria que o contexto financeiro internacional abrisse espaço para uma busca agressiva por risco em países periféricos.

Para desenhar essa relação, é essencial separar as condições que sustentam a força do dólar daquelas raras janelas em que as moedas emergentes conseguem ganhar tração duradoura:

Cenário Vigente (Pressão no Câmbio) Dólar Forte Global

Juros externos elevados e aversão a risco mantêm o capital retido na moeda de reserva, limitando o fôlego do real.

Cenário Hipotético de Alívio Fluxo para Emergentes

Exigiria desaceleração da economia americana, cortes coordenados de juros globais e disciplina fiscal sólida no Brasil.

Como a probabilidade de um alinhamento perfeito de todos esses fatores favoráveis é historicamente baixa, vender moeda forte na esperança de um grande rali do real se torna uma operação de risco elevado, com ganho potencial limitado e proteção desarmada.

O que isso muda para quem investe

Se você tem investimentos no exterior, fundos cambiais ou BDRs, a recomendação implícita na leitura da Vinland é clara: não use a carteira de proteção cambial para fazer especulação política. Dólar na carteira não é aposta direcional de curto prazo; é seguro contra a perda estrutural de poder de compra de uma moeda emergente.

O que o investidor deve vigiar a partir de agora?

Acompanhar a rota das taxas de juros internacionais é mais urgente do que tentar prever pesquisas eleitorais. Ao avaliar a estrutura da sua carteira e decidir se vale a pena aumentar ou recalibrar a fatia internacional, quatro fatores merecem atenção constante:

1

Diferencial de juros — Meça a distância entre a taxa Selic e as taxas de títulos do Tesouro americano. Quanto menor o prêmio para correr risco no Brasil, menor o incentivo para o capital estrangeiro permanecer por aqui.

2

Liquidez e apetite a risco global — Quando o mercado externo entra em modo defensivo, ativos de países emergentes costumam ser os primeiros liquidados por fundos internacionais.

3

Equilíbrio fiscal do Brasil — O ruído eleitoral só vira tendência cambial duradoura se alterar a percepção de solvência da dívida pública e os gastos governamentais no médio prazo.

Veredito: proteger a carteira supera especular contra o dólar

A análise de Aurélio Bicalho no Stock Pickers reforça o princípio básico da alocação de ativos: apostar contra o dólar baseado no noticiário eleitoral doméstico é um jogo assimétrico contra o investidor. O dólar cumpre a função de ativo de refúgio e preservação de capital. Sem uma mudança profunda e articulada no quadro macroeconômico global, desmontar posições em moeda forte para caçar valorização pontual do real é trocar segurança estrutural por ruído de curto prazo.