VALE3 ou CMIN3: Goldman Sachs aponta quem sofre mais com frete Relevância4,0
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VALE3 escapa do encarecimento do frete que ameaça margens da CMIN3

Goldman Sachs aponta que contratos de longo prazo e frota própria blindam a Vale da disparada no transporte marítimo

O que o Goldman Sachs diz sobre o impacto do frete em VALE3 e CMIN3?

O Goldman Sachs aponta que a alta do frete marítimo pressiona as mineradoras brasileiras, mas vê a Vale (VALE3) mais protegida contra essa volatilidade, enquanto a CSN Mineração (CMIN3) está estruturalmente mais exposta ao encarecimento do transporte de minério de ferro para a Ásia.

De acordo com a análise do banco, o custo do transporte marítimo internacional tornou-se um fator de forte diferenciação de margens entre as duas gigantes do setor no Brasil. Como o minério de ferro é uma commodity de baixo valor unitário por tonelada quando comparado ao seu peso, o custo para deslocá-lo de um continente a outro representa uma parcela muito significativa do custo total entregue no destino final (conhecido no jargão de comércio exterior como custo CFR - Cost and Freight).

O Goldman Sachs ressalta que a dinâmica de contratação de navios de cada empresa determina o nível de blindagem contra as oscilações das tarifas globais de navegação. Enquanto uma das companhias conseguiu construir uma barreira logística ao longo dos anos, a outra opera de forma muito mais dependente das flutuações diárias do mercado à vista, o que gera impactos diretos em seus resultados financeiros em momentos de estresse logístico.

Por que a Vale (VALE3) está mais protegida contra a alta do frete?

A Vale conta com uma blindagem logística robusta desenhada especificamente para mitigar sua desvantagem geográfica em relação aos concorrentes australianos, conforme destaca o Goldman Sachs. A mineradora possui uma parcela muito significativa de sua capacidade de transporte assegurada por contratos de longo prazo e por uma frota própria ou afretada sob contratos de associação de longo prazo (COAs - Contracts of Affreightment).

Essa estratégia logística inclui a operação dos navios gigantes das classes Valemax e Guaibamax, que são os maiores mineraleiros do mundo. Essas embarcações foram desenvolvidas sob medida para realizar a rota entre o Brasil e a China com máxima eficiência energética e de custos. Ao operar com navios dedicados e contratos de longo prazo, a Vale consegue travar uma parte expressiva de seus custos de frete, evitando que a volatilidade diária das tarifas spot (mercado à vista) contamine sua planilha de custos operacionais.

O Goldman Sachs avalia que essa previsibilidade de custos confere à Vale uma vantagem competitiva crucial em ciclos de alta do frete. Mesmo quando as tarifas de mercado disparam globalmente devido a gargalos logísticos, tensões geopolíticas ou aumento na demanda por navios, o custo médio de frete reportado pela Vale em seus balanços tende a subir de forma muito mais suave e defasada, preservando suas margens operacionais e a geração de caixa para o pagamento de dividendos.

Por que a CSN Mineração (CMIN3) sofre mais com o frete spot?

A CSN Mineração apresenta uma exposição muito mais direta e imediata às oscilações do mercado spot de frete marítimo, segundo a análise do Goldman Sachs. Diferente de sua concorrente de maior porte, a CMIN3 possui uma estrutura de escoamento que depende de forma mais intensa da contratação de navios no mercado à vista para transportar sua produção a partir do Porto de Itaguaí, no Rio de Janeiro.

Sem a mesma escala de frota própria dedicada ou a mesma proporção de contratos de afretamento de longuíssimo prazo, a CSN Mineração fica vulnerável aos picos de preços que ocorrem no mercado internacional de fretes. Quando a demanda global por navios da classe Capesize (os navios de grande porte utilizados para o transporte de commodities secas a granel) supera a oferta disponível, as tarifas spot disparam rapidamente. Esse aumento é repassado quase que integralmente e de forma imediata para o custo de vendas da CMIN3.

O Goldman Sachs aponta que essa dinâmica resulta em uma maior volatilidade nas margens EBITDA da CSN Mineração. Em períodos de frete marítimo deprimido, a companhia consegue capturar margens excelentes; contudo, em momentos de escalada nos custos de transporte, a rentabilidade de suas exportações sofre uma compressão rápida, uma vez que a empresa não dispõe dos mesmos mecanismos de hedge natural e contratual que a Vale possui.

Como o frete marítimo afeta a competitividade do minério brasileiro?

O custo do transporte marítimo é a variável mais crítica para determinar a competitividade do minério de ferro brasileiro no mercado asiático, que é o maior centro consumidor do planeta. O Goldman Sachs explica que o Brasil enfrenta uma desvantagem geográfica natural em relação à Austrália, onde operam concorrentes globais como Rio Tinto, BHP e Fortescue. A distância marítima entre os portos australianos e a China é substancialmente menor do que a distância entre os portos brasileiros (como Ponta da Madeira e Itaguaí) e o mercado chinês.

Essa diferença de distância significa que o frete a partir do Brasil é estruturalmente mais caro e consome mais tempo de viagem. Para compensar essa barreira geográfica, o minério brasileiro precisa apresentar duas características: custos de lavra extremamente baixos na mina (custo C1) ou uma qualidade de produto muito superior (alto teor de ferro e baixas impurezas) que justifique o pagamento de um prêmio de qualidade pelos clientes chineses.

Quando o frete marítimo global sobe de patamar, a diferença absoluta de custo de transporte entre o Brasil e a Austrália se alarga. Se o frete geral sobe, o impacto sobre a rota brasileira é proporcionalmente maior devido à maior distância percorrida. Por essa razão, o Goldman Sachs monitora de perto essa métrica, pois um frete persistentemente elevado reduz a competitividade do produto brasileiro na margem, penalizando de forma mais severa os produtores que não possuem proteção contratual contra essa alta.

O que o investidor deve monitorar: A dinâmica do frete marítimo é altamente cíclica e influenciada por fatores que vão além do setor de mineração, como o preço do combustível marítimo (bunker), regulamentações ambientais de descarbonização da frota global e o congestionamento em canais e portos internacionais.

O que o investidor de VALE3 e CMIN3 deve acompanhar a partir de agora?

O investidor focado em ações do setor de mineração e siderurgia deve integrar o acompanhamento das tarifas de frete marítimo à sua rotina de análise, utilizando indicadores de mercado como o Baltic Dry Index (BDI) e as cotações específicas da rota Tubarão-Qingdao como termômetros de curto prazo.

O Goldman Sachs sugere que, diante de um cenário de frete marítimo pressionado, a preferência relativa entre os ativos deve levar em consideração a resiliência logística de cada player. A Vale (VALE3) tende a se consolidar como uma tese defensiva sob a ótica de custos logísticos, oferecendo maior previsibilidade para quem busca dividendos consistentes e menor volatilidade operacional. Por outro lado, a CSN Mineração (CMIN3) pode apresentar maior volatilidade em seus resultados trimestrais, exigindo do investidor uma atenção redobrada aos momentos de entrada e saída do papel em consonância com os ciclos de frete.

Além disso, vale acompanhar os relatórios de produção e vendas divulgados trimestralmente por ambas as companhias. Nesses documentos, as mineradoras detalham o custo médio de frete realizado no período, permitindo ao mercado aferir a eficácia de suas estratégias de contratação e o impacto real das tarifas globais sobre o custo de caixa entregue na China.

Veredicto Rico aos Poucos

A análise do Goldman Sachs deixa claro que investir em commodities vai muito além de olhar apenas o preço do minério de ferro na tela. A logística de escoamento é o coração que define quem sobrevive com margens saudáveis nos momentos de estresse de mercado. Para o investidor de longo prazo que busca menor volatilidade e maior previsibilidade de proventos, a estrutura logística superior da Vale (VALE3) funciona como um amortecedor indispensável contra as tempestades do frete marítimo global.