FAMB11 — FII Edifício Almirante Barroso Responsabilidade Limitada

(Monoativo Av. Rio Branco, 174 — Centro, Rio de Janeiro; em reposicionamento para uso misto residencial)

Recomendação: VENDA · Nota 1,9/10 · Cotação R$ 912,66 · P/VP 0,9257 · DY 12m 0,0%

Análise e recomendação

O FAMB11 é um dos casos mais dramáticos do universo de FIIs brasileiros. Trata-se de um fundo monoativo que detém 100% do Edifício Almirante Barroso, prédio corporativo histórico na Av. Rio Branco, 174 (Centro do Rio de Janeiro), com 54.144 m² de área construída e 35 unidades. Entre 2003 e 2020, o fundo funcionou como renda estável locada integralmente à Caixa Econômica Federal (CEF). Em fev/2020 a CEF consignou as chaves em juízo e saiu, e o imóvel opera desde então com vacância entre 95% e 98%.

Em nov/2024 o fundo recebeu R$ 163 milhões de acordo judicial com a CEF, que viraram um rendimento extraordinário de R$ 1.001,61/cota em dez/2024 e uma amortização de R$ 200/cota em abr/2025. A partir de 2025 o ativo foi reavaliado pela Cushman & Wakefield de R$ 223 Mi para R$ 118,9 Mi (queda de 46% no ano), a administração passou do BTG Pactual (após 22 anos) para a Actual DTVM e a gestão virou a Áfira. Sob a Resolução CVM 175, o regulamento passou a definir o objetivo do fundo como desenvolvimento de empreendimento residencial e venda direta das unidades — em ago/2025 foi protocolado na Prefeitura do Rio o projeto de conversão para uso misto. Hoje o fundo não tem renda recorrente (resultado financeiro anual de 2025 foi negativo em R$ 4,84 Mi), a taxa de administração mantém piso de R$ 35 mil/mês mesmo com receita mínima, e a cota negocia a R$ 910 (P/VP 0,92). A tese é binária: ou a conversão é aprovada e destrava valor, ou o ativo continua sangrando caixa indefinidamente. Recomendação: VENDA — apenas investidor de special situations com posição irrelevante deve considerar.

Tese de investimento

A tese do FAMB11 hoje é binária e altamente especulativa. Não há mais tese de renda: o fundo não tem fluxo recorrente, tem 95% de vacância e o aluguel captado mal cobre as despesas fixas do edifício. A única narrativa que justifica posição é a de destravamento de valor via conversão para uso misto (residencial + comercial), protocolada na Prefeitura do Rio em ago/2025 e formalizada no objetivo do regulamento CVM 175 (desenvolvimento residencial e venda direta das unidades).

Os cotistas que aceitam essa tese precisam acreditar que: (i) a Prefeitura do Rio aprovará a mudança de uso/zoneamento; (ii) haverá CAPEX disponível (provavelmente nova emissão) para financiar a reforma completa; (iii) a demanda por unidades residenciais no Centro do Rio é real; e (iv) a Áfira/Actual têm capacidade técnica para entregar a reconversão. A contrapartida é o risco de que nenhuma dessas premissas se confirme, cenário em que o imóvel seria provavelmente alienado com novo desconto sobre o VP atual.

Para quem é

  • Investidores de turnaround / special situations dispostos a apostar na reconversão para uso misto residencial do prédio (tese binária)
  • Perfis que aceitam zero renda recorrente por anos em troca de potencial ganho de capital no valor da cota
  • Investidores com tolerância a altíssima volatilidade (cota oscilou entre R$ 741 e R$ 1.119 em poucos meses de 2025-26)
  • Pequenas posições táticas sem relevância no portfólio total

Para quem não é

  • Investidores de renda que buscam distribuição mensal previsível — o fundo não tem fluxo recorrente há mais de um ano
  • Perfis conservadores ou que priorizam preservação de capital
  • Quem monta posição em FIIs com base em DY e P/VP — ambos os indicadores estão poluídos aqui
  • Investidores que não aceitam risco de execução imobiliária (obras, licenças, demanda residencial no Centro/RJ)
  • Iniciantes no mercado de FIIs — é um caso de escola de armadilha de valor

Pontos de atenção e riscos

Vacância de 95% com ênfase do auditor

O relatório da BGM Auditores nas Demonstrações Financeiras de 31/12/2025 traz parágrafo de ênfase sobre a vacância de 95% (o imóvel representa 97,86% do PL). Em 2024 a vacância era de 98,01%. Com apenas 5% do imóvel alugado, a receita de aluguel mal cobre as despesas fixas (IPTU, manutenção, condomínio, energia, seguros). O auditor destaca que os fluxos de recebimento de aluguéis estarão comprometidos enquanto o imóvel permanecer com alta vacância.

Sem renda recorrente — resultado financeiro 2025 negativo

O resultado financeiro anual de 2025 foi de -R$ 4,84 milhões e zero rendimento foi declarado no exercício (regime de caixa). Desde a amortização de R$ 200/cota em abr/2025, o fundo não distribui renda recorrente. No 1T2026 houve declaração marginal de R$ 308,9 mil (95% de R$ 325 mil de resultado financeiro trimestral, ~R$ 2,52/cota), mas o informe mensal de mar/26 reporta DY 0% e R$ 0 a distribuir — sinal frágil e não recorrente.

Monoativo e monoinquilino em crise

O Ed. Almirante Barroso é o único ativo. Após a saída da CEF em 2020 (consignação de chaves em juízo), não há locatário âncora. Os contratos atuais somam apenas 10,58% da receita potencial e 100% vencem em até 3 meses — praticamente locação de curtíssimo prazo/balcão, indexada a IGP-M.

Desvalorização de 46% do imóvel em 2025

A Cushman & Wakefield reavaliou o imóvel em jan/2026 (data-base dez/2025) para R$ 118,9 Mi, queda de R$ 104,05 Mi frente aos R$ 223 Mi de 2024 (-46%). Premissas: taxa de desconto 11,5% a.a., cap rate 10% a.a., período de análise 11 anos, vacância 95%. Em 2016 o mesmo imóvel valia R$ 573,9 Mi e em 2023 valia R$ 261,4 Mi — destruição de 79% em 9 anos.

Tese 100% dependente do projeto de conversão para uso misto

Em 26/08/2025 foi protocolado na Prefeitura do Rio um projeto para converter o imóvel em uso misto (residencial + comercial), anunciado ao mercado em 28/08/2025. A classificação de autorregulação do fundo já mudou para 'Tijolo Híbrido Residencial' e o regulamento CVM 175 redefiniu o objetivo do fundo como desenvolvimento residencial e venda direta das unidades. A aprovação depende de consulta formal aos cotistas, licença municipal, CAPEX de reforma (provável nova emissão) e demanda residencial no Centro do Rio (historicamente fraca). Tese binária.

Cota negocia abaixo do VP, mas sobre VP severamente deteriorado

A cota fechou jun/2026 a R$ 910 enquanto o VP é R$ 985,90 (mar/26) — P/VP de 0,92, depois de o VP já ter caído 52% em 2025 (de R$ 2.065,66 em dez/24 para R$ 991,92 em dez/25). O desconto modesto de 8% não embute margem suficiente para o risco de nova rodada de desvalorização caso a conversão não vingue.

Inadimplência de 11,82% sobre receita

Do pouco que é locado, 11,82% está em atraso superior a 90 dias (informe trimestral 1T26). Base de locatários atual é frágil e pulverizada, sem garantias robustas, com contratos de curtíssimo prazo.

Concentração extrema da base de cotistas

20 cotistas detêm 69,64% do total de cotas (informe anual 2025). Apenas 15,38% estão pulverizados até 5%. Base altamente concentrada amplifica oscilações de preço e reduz liquidez efetiva — agravada pela ausência de formador de mercado.

Troca múltipla de prestadores de serviço em plena crise

Em 2025 houve substituição do administrador (BTG Pactual → Actual DTVM em 20/06/2025), do gestor (passou a Áfira Gestão), do auditor (Ernst & Young → BGM Auditores) e do custodiante (BTG Pactual → Banco Daycoval). Descontinuidade institucional em momento de crise operacional. Tanto a Áfira quanto a Actual são instituições pequenas, sem histórico relevante em FIIs de tijolo em reposicionamento.

Taxa de administração com piso fixo pesado

Regulamento prevê 2,5% a.a. sobre a receita total com mínimo de R$ 35 mil/mês corrigido por IGP-M (Actual) + R$ 7 mil/mês (Áfira). Em 2024 a taxa de administração consumiu R$ 4,81 Mi (1,74% do PL médio). Em 2025, com o PL e a receita já deteriorados, caiu para R$ 429 mil no ano (≈0,35% do PL) — mas o piso fixo segue absorvendo fatia relevante da receita locatícia mínima.

Sustentabilidade dos dividendos

O fundo está queimando caixa de forma estrutural — não distribui renda recorrente e o resultado financeiro de 2025 foi negativo. O caixa de R$ 6,84 Mi é finito e, no ritmo de queima atual, oferece fôlego de aproximadamente 1,5 ano. Qualquer distribuição futura depende de novas locações relevantes, de evento de venda do ativo ou do sucesso da conversão residencial — nada disso é operação recorrente. Não é um fundo de renda.

Sobre a gestora

A Áfira Gestão de Recursos Ltda. (Rua Visconde de Pirajá, 414, Ipanema/RJ) assumiu a gestão do FAMB11 em 2025, junto com a mudança do administrador para a Actual Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários S.A. (Belo Horizonte/MG, autorizada pela CVM desde dez/2023, ato declaratório 21.509). É uma gestora pequena sem histórico significativo de FIIs listados, fator de incerteza num momento em que o fundo precisa executar um projeto complexo de reconversão imobiliária.

A administração do BTG Pactual durou 22 anos (desde 2003) até ser destituída em assembleia/consulta formal aprovada em mar/2025, com efeito a partir de 20/06/2025. A saída do BTG ocorreu em meio à crise de vacância e à frustração dos cotistas com o desempenho pós-CEF. O custodiante passou ao Banco Daycoval e o auditor à BGM Auditores. Toda a estrutura institucional foi reconstruída em 2025 — o que aumenta o risco de execução exatamente no período mais crítico do fundo.

Ver a análise completa da gestora Áfira Gestão de Recursos →

Conclusão

O FAMB11 é um dos casos mais instrutivos do mercado brasileiro de FIIs sobre o que acontece quando um fundo monoativo perde seu locatário âncora. Durante 17 anos (2003-2020), foi uma das teses de renda corporativa mais previsíveis da bolsa, com a CEF pagando aluguel ajustado pelo IGP-M em um prédio icônico do Centro do Rio. Entre 2016 e 2025, porém, o imóvel perdeu ~79% de valor de mercado (R$ 573,9 Mi → R$ 118,9 Mi) e a ocupação desabou de 100% para 5%. O acordo judicial de R$ 163 Mi com a CEF em nov/2024 foi uma tábua de salvação pontual, mas não estrutural: o caixa recebido foi quase integralmente distribuído via rendimento extraordinário (R$ 1.001,61 em dez/2024) e amortização (R$ 200 em abr/2025).

O diagnóstico atual é severo. O imóvel tem 95% de vacância (enfatizado no relatório do auditor BGM nas Demonstrações de 31/12/2025), os contratos remanescentes somam só 10,58% da receita potencial e 100% vencem em até 3 meses, a inadimplência é de 11,82% e o resultado financeiro anual de 2025 foi negativo em R$ 4,84 milhões — zero rendimento recorrente foi declarado. A reavaliação da Cushman & Wakefield em jan/2026 usou premissas conservadoras (taxa de desconto 11,5%, cap rate 10%, 11 anos), incorporando expectativa de longo período até o imóvel retomar geração de caixa. Toda a estrutura institucional (administrador, gestor, auditor, custodiante) foi trocada em 2025 por casas pequenas, sem histórico relevante, exatamente no momento mais delicado do fundo.

A única tese que justifica posição hoje é a aposta binária na conversão para uso misto (residencial + comercial), protocolada na Prefeitura do Rio em 26/08/2025 e já incorporada ao objetivo do regulamento sob a CVM 175 (desenvolvimento residencial e venda direta das unidades). Essa conversão exigiria: (i) aprovação regulatória; (ii) CAPEX elevado de reforma — provavelmente nova emissão, com risco de diluição, dado o caixa de apenas R$ 6,84 Mi; (iii) demanda por unidades residenciais no Centro do Rio, historicamente fraca; e (iv) execução técnica por gestora pequena. A cota negocia a R$ 910 (P/VP 0,92), ou seja, ~12% acima do nosso preço justo central de R$ 800 — o mercado precifica algum sucesso da reconversão, e cenários adversos implicariam nova rodada de perdas. Para investidores de renda, o FAMB11 saiu do radar há anos. Para investidores de special situations, é uma opção de alto risco com upside assimétrico se o projeto vingar, mas com probabilidade razoável de armadilha de valor adicional ou diluição.