Paga, mas pouco e só uma vez por ano, e o balanço do terceiro trimestre não indica que isso vá mudar tão cedo. O Assaí informou lucro recorrente 55% maior, mas o próprio CEO disse que o dinheiro que sobra vai primeiro para reduzir a dívida, não para o bolso do acionista.
A ASAI3 paga dividendos?
Sim, mas sem regularidade e em valores pequenos. O último provento da ação ASAI3 foi um JCP (juros sobre capital próprio) de R$ 0,1043 por ação, com data-ex em 07/01/2026 e pagamento em 26/06/2026. Somando os proventos dos últimos 12 meses, o retorno em dividendos foi de 1,24% sobre a cotação de R$ 8,44 de 05/11. Pagamento mensal, a empresa nunca fez.
O JCP foi aprovado pelo conselho no fim de 2025: pagamento de juros sobre capital próprio no valor bruto total de R$ 140 milhões, referentes ao exercício encerrado em 31 de dezembro de 2025. Sobre esse valor incidirá Imposto de Renda Retido na Fonte, ou seja, o valor que cai na conta da pessoa física é menor que o anunciado. Pela nossa conta (R$ 140 milhões ÷ R$ 0,104 por ação), a companhia tem cerca de 1,34 bilhão de ações, número que usamos nas contas abaixo.
A pergunta que o leitor faz em seguida é óbvia: com o lucro subindo, o provento não deveria crescer? Para responder, primeiro é preciso entender que número subiu.
O que o Assaí mostrou no 3T26, e por que o mercado esperava mais?
O Assaí divulgou o balanço na noite de 05/11. O Assaí (ASAI3) apresentou lucro líquido recorrente de R$ 248 milhões no terceiro trimestre de 2026 (3T26), avanço de 55,2% em relação ao mesmo período de 2025. O lucro contábil foi bem maior, mas parte dele não se repete:
Segundo a companhia, esse lucro contábil inclui R$ 179 milhões em créditos extemporâneos de PIS/Cofins, que não fazem parte do resultado recorrente. Em português claro: é imposto pago a mais em anos anteriores que a empresa recuperou, e não vai entrar de novo no trimestre seguinte. Por isso o número que mede a operação é o recorrente, e foi ele que decepcionou.
As projeções divergem bastante. O Money Times apontou que o resultado veio abaixo do consenso de mercado da Bloomberg, que era de R$ 287 milhões. Já o InfoMoney publicou que os analistas esperavam R$ 363 milhões, número de um levantamento da LSEG. Em qualquer das duas referências, o lucro ficou abaixo do esperado: 14% abaixo do consenso da Bloomberg e 32% abaixo da projeção da LSEG (conta nossa).
O restante do balanço veio sem surpresas. O Ebitda ajustado alcançou R$ 1,1 bilhão no 3T26, com margem de 5,7%, praticamente estável em relação ao mesmo período do ano anterior. A melhor notícia foi a dívida: a relação entre dívida líquida e Ebitda caiu para 2,15 vezes, ante 3,03 vezes um ano antes, como detalhamos em nossa análise da dívida e das vendas do Assaí no trimestre. E é justamente essa dívida que explica por que o provento não cresce.
Por que o lucro maior não vira dividendo maior?
Porque a empresa ainda paga mais juros do que lucra. Segundo levantamento do blog Investir é Coçar e Começar com base no balanço, o Assaí gastou R$ 551 milhões com juros e antecipação de recebíveis, 2,2 vezes o lucro recorrente do trimestre. Cada real de dívida abatido reduz essa conta, e por isso a administração prefere usar o caixa para pagar dívida em vez de distribuir. Belmiro Gomes disse isso na coletiva: o foco é diminuir o endividamento da empresa.
Os números por ação mostram como o provento é pequeno perto do lucro. Dividindo o lucro recorrente do trimestre por 1,34 bilhão de ações, dá cerca de R$ 0,18 por ação em apenas três meses. O JCP referente a todo o ano de 2025 foi de R$ 0,104. A ficha que acompanhamos registra payout (a parcela do lucro distribuída) de 14,47% nos últimos 12 meses. O balanço não informa se os créditos de PIS/Cofins vão entrar na base de cálculo do dividendo mínimo de 2026. Essa é a pergunta que vale fazer à área de relações com investidores.
A outra forma de devolver dinheiro ao acionista ficou para a recompra. Um dia depois do balanço, a Sendas aprovou um programa de até 11 milhões de ações em 12 meses, explicado em nossa matéria sobre o quarto programa de recompra. Pela nossa conta, à cotação de R$ 8,44, isso equivale a cerca de R$ 93 milhões, se o programa for executado por inteiro. Para quem fica com a ação, a recompra aumenta a fatia de cada um na empresa, mas não deposita nada na conta.
Quando a ASAI3 pode pagar o próximo provento?
Se o padrão dos últimos anos se repetir, o próximo provento seria um JCP anunciado no fim de dezembro, com data-com no início de janeiro. A empresa não confirmou nada para 2026. O histórico mostra o padrão:
| Data-ex | Tipo | R$ por ação | Pagamento |
|---|---|---|---|
| 07/01/2026 | JCP (ref. 2025) | 0,1043 | 26/06/2026 |
| 28/04/2025 | Dividendo | 0,0145 | 23/06/2025 |
| 07/01/2025 | JCP | 0,0927 | 28/02/2025 |
| 28/04/2023 | Dividendo | 0,0500 | 26/06/2023 |
Em 2024 não houve nenhuma distribuição. Repare também no prazo: o último JCP levou quase seis meses entre a data-ex e o pagamento. Uma estimativa nossa: se o próximo JCP repetir os R$ 0,104 do ano passado, o retorno fica perto de 1,2% sobre a cotação de 05/11, menos que um mês de CDI. Isso combina com a avaliação de um analista entrevistado pelo Monitor Mercantil em 2025, para quem o Assaí não é uma ação para quem quer pagamento de dividendos.
Se você comprou ASAI3 pensando em renda, o 3T26 não muda o quadro: o provento continua anual, perto de R$ 0,10 por ação, e a empresa diz que o caixa vai para a dívida. O ganho possível está no preço da ação, se a desalavancagem continuar e os juros pesarem menos no lucro. Quem busca renda periódica encontra pagamentos mais frequentes em outros ativos.
O "Natal mais gordo" sem bets muda a tese?
Pode ajudar as vendas do fim do ano, mas o próprio CEO pediu cautela. Segundo Belmiro Gomes, desde a proibição das bets ele percebe uma melhora no consumo alimentar, especialmente entre clientes de baixa renda. As bets foram proibidas em 25 de setembro deste ano.
“a expectativa é que talvez as famílias possam ter o Natal mais gordo nesse ano do que foi nos últimos dois anos”Belmiro Gomes, CEO do Assaí, em coletiva sobre o 3T26
A ressalva veio na mesma entrevista: ainda não existe um dado concreto que permita estabelecer uma relação direta entre a medida e a evolução das vendas. A empresa também citou a campanha de aniversário de outubro como motivo da melhora no mês. Ou seja, o efeito das bets ainda é uma hipótese. A prova vem no 4T26, que inclui o Natal e sai no começo de 2027. A ação vem de um período agitado: caiu 35% no último mês até 05/11, depois de ter disparado em outubro com a recomendação do JPMorgan ligada à venda de ativos.
Resumo para quem busca dividendos: a ASAI3 paga, mas pouco e uma vez por ano, e o balanço do 3T26 reforça que a prioridade é a dívida. O lucro cresceu, mas abaixo das projeções, e parte do lucro contábil veio de crédito tributário que não se repete. Nossa avaliação de valuation, de 05/11, segue em "evitar", com preço justo estimado em R$ 6,26 e incerteza alta entre os métodos. O ponto a acompanhar é a alavancagem: abaixo de 2 vezes o Ebitda, a conversa sobre aumentar o provento começa a fazer sentido.