ASAI3: o que aconteceu no 3T26 — o Assaí reduziu a dívida, mas as vendas mesmas lojas ficaram paradas Relevância8,0
INTERMEDIÁRIO PTENES

ASAI3 o que aconteceu no 3T26 com a dívida e as vendas do Assaí

Alavancagem cai para 2,15x no trimestre, mas vendas nas mesmas lojas sobem apenas 0,1% e geram alerta no varejo.

Para quem tem a ação ASAI3, o balanço trouxe uma boa notícia e uma ressalva. O Assaí informou à CVM que a dívida em relação ao lucro operacional caiu bastante, mas as vendas nas mesmas lojas praticamente não saíram do lugar. A melhora está no caixa, não ainda no varejo.

O que aconteceu com a ação ASAI3?

Nada travou nem sumiu: a ação ASAI3 segue negociando. Fechou o pregão de 5 de novembro a R$ 8,44, com alta de 4,20% no dia e queda de 5,70% em 12 meses. O que mudou foi o balanço. O Assaí entregou à CVM o release de resultados do 3T26 às 19h13 daquele dia, depois do fechamento do mercado. A alta de 4,20% veio antes de qualquer número ser conhecido, e a reação ao resultado só aparece nos pregões seguintes.

O release traz receita bruta de R$ 21,3 bilhões, alta de 2,7% sobre o 3T25. O EBITDA ajustado ficou em R$ 1,1 bilhão, com margem estável em 5,7%. O lucro líquido recorrente foi de R$ 248 milhões e o contábil, de R$ 427 milhões; ambos são números pré-IFRS 16, a visão que a própria companhia adota para refletir a operação. A empresa fez videoconferência com analistas nesta sexta, 6 de novembro, às 11h. A pergunta que importa é se a dívida caiu de verdade.

A dívida do Assaí caiu de verdade?

Sim, e é o ponto forte do balanço. A alavancagem, que o release calcula como dívida líquida mais recebíveis descontados dividida pelo EBITDA ajustado, caiu em dois sentidos: contra um ano atrás e contra o trimestre anterior.

3T253,03x
2T262,37x
3T262,15x

A companhia atribui a queda à geração de caixa operacional de R$ 3,3 bilhões nos últimos 12 meses. A dívida líquida recuou R$ 1,3 bilhão no período, por dois motivos citados no release: menos investimento e um EBITDA acumulado 27,3% maior. Outro movimento pesa na conta: os recebíveis descontados, que o Assaí antecipa a bancos, caíram de R$ 2,0 bilhões no 3T25 para R$ 1,2 bilhão. Como esse item entra no cálculo da alavancagem, reduzi-lo é desalavancar sem maquiagem. A disponibilidade total de caixa fechou em R$ 6,8 bilhões, 12,2% acima do 3T25.

Há uma nuance. O release diz que o EBITDA acumulado de +27,3% considera créditos tributários, enquanto o EBITDA de R$ 1,1 bilhão do trimestre exclui os créditos de PIS/COFINS. São critérios diferentes, e parte da melhora do indicador acumulado depende desses créditos. O trecho do documento que lemos também não menciona venda de ativos, tema que o JPMorgan tratou como gatilho de compra para a ação em outubro, como mostramos na cobertura da visão do banco sobre a venda de ativos. A dívida desce, então, principalmente pelo caixa da operação.

E as vendas? O lado que não melhorou

As vendas nas mesmas lojas subiram apenas 0,1% sobre o 3T25, já com a exclusão de um efeito calendário de -0,3 p.p., segundo o release. A receita bruta cresceu 2,7% porque o aumento vem de fora das mesmas lojas, e o trecho que temos não detalha de onde. O fluxo de clientes subiu 2,1%, com mais de 40 milhões de clientes por mês, e o market share nas mesmas lojas ficou estável em 30,0% no acumulado do ano. O Assaí não perdeu terreno, mas também não ganhou.

A margem segurou por outro caminho. A margem bruta subiu 0,45 p.p. (sem contar créditos de PIS/COFINS) e as despesas cresceram 0,2 p.p. abaixo da inflação de 12 meses. Com venda parada, foi o controle de custo que manteve a margem EBITDA em 5,7%.

A empresa aponta Outubro como virada: a melhor performance nas mesmas lojas em 15 meses, que ela associa à campanha de aniversário e às mudanças nas regras de apostas esportivas. O release também traz "+9,3% de SSS nos últimos 24 meses" ao lado de Outubro, mas o trecho não esclarece a base de comparação. Esse número não dá para ler como crescimento do mês. Um mês bom não faz tendência, e o próprio resultado do trimestre mostra isso.

O lucro é de R$ 427 milhões ou de R$ 248 milhões?

Os dois, porque medem coisas diferentes. O lucro recorrente de R$ 248 milhões inclui créditos recorrentes de PIS/COFINS com alíquota base de 34%, conforme a nota do release. O contábil, de R$ 427 milhões, é R$ 179 milhões maior. O trecho do documento não explica o que compõe essa diferença. Para avaliar a ação, o recorrente é o número mais prudente, pois mostra o que a operação tende a repetir, e o contábil pode carregar itens que não se repetem. O release lista, entre os riscos, os efeitos de regulamentação e tributação sobre os créditos de PIS/COFINS.

As novas frentes já pesam no resultado?

Ainda não há número que mostre isso. O Assaí destaca no release a farmácia (11 lojas em São Paulo e meta de 250 farmácias, sem prazo informado), as marcas próprias (140 SKUs, com expectativa de 250 até dezembro) e o Assaí Pets, previsto para o 4T26. Informa também que as vendas de last mile cresceram 204% sobre o 3T25 e que o processo de cisão dos serviços financeiros com a FIC aguarda aprovação do Banco Central. Os suplementos estão disponíveis em 300 lojas. O trecho do release não traz receita ou margem dessas frentes, então elas ainda são tese. O resultado do trimestre vem do atacado de sempre.

O que isso muda para quem tem a ação ASAI3?

O balanço reduz o risco financeiro, o que tende a ser mais relevante quando os juros estão altos e o consumidor, endividado, que são os fatores de atenção que a própria empresa aponta. Mas, sem crescimento nas mesmas lojas, a tese de valorização ainda depende de uma virada de vendas que o trimestre só insinua.

  • Alavancagem em queda contra o ano anterior e contra o 2T26, com menos recebíveis descontados e mais caixa.
  • Despesas crescendo abaixo da inflação e margem EBITDA estável, mesmo com vendas paradas.
  • Outubro apontado pela empresa como o melhor mês nas mesmas lojas em 15 meses.
  • Vendas nas mesmas lojas praticamente zeradas no trimestre, com market share estável, sem ganho.
  • Parte da melhora do EBITDA acumulado depende de créditos tributários, sujeitos a regulamentação.
  • Lucro contábil bem acima do recorrente, sem explicação detalhada no trecho do release.

Nos próximos balanços, vale acompanhar três coisas: se as vendas nas mesmas lojas passam a crescer e se Outubro foi um ponto fora da curva; se a alavancagem continua abaixo do patamar atual sem depender de créditos tributários; e se farmácia e marcas próprias passam a aparecer com números. A Sendas também aprovou um novo programa de recompra, que detalhamos na análise do programa de recompra aprovado pela Sendas.

Veredito: o Assaí entregou um balanço sólido na dívida e neutro nas vendas. A ação precisa de pelo menos mais um trimestre de crescimento nas mesmas lojas para que a melhora do caixa se transforme em tese de crescimento. Até lá, o que o 3T26 compra é segurança financeira, não aceleração.