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AZZA3 resultado 2T26: lucro de R$ 106 mi com prejuízo antes do imposto — e o caixa 3x maior

A Azzas 2154 divulgou o 2º trimestre com receita caindo 7,1%, margem no menor patamar desde a fusão e a maior geração de caixa em dois anos.

O que aconteceu com a AZZA3 no resultado do 2T26?

A Azzas 2154 — dona de Arezzo, Schutz, FARM Rio, Animale, Reserva e Hering — teve receita bruta de R$ 3,35 bilhões no 2º trimestre de 2026, queda de 7,1%. O EBITDA recorrente caiu 29,1% e o lucro recorrente somou R$ 106,5 milhões, 62,5% menos que um ano antes. Ao mesmo tempo, gerou R$ 356,5 milhões de caixa, 3,4 vezes o 2T25.

Os números saíram na noite de 12 de agosto, junto com o ITR entregue à CVM, e a apresentação a analistas foi divulgada na manhã de 13 de agosto. Este texto percorre o que está nos dois documentos, na ordem em que importa para quem tem a ação em carteira.

Receita bruta 2T26 R$ 3,35 bi -7,1% vs. 2T25 (marcas continuadas)
EBITDA recorrente R$ 379,6 mi -29,1%; margem de 14,2% (-4,3 p.p.)
Lucro recorrente R$ 106,5 mi -62,5%; contábil foi R$ 29,8 mi (-94,5%)
Caixa gerado R$ 356,5 mi 3,4x o 2T25; 90% do EBITDA após capex
Dívida líquida R$ 2,13 bi caiu R$ 39,9 mi; alavancagem subiu a 1,52x
Ciclo financeiro 93 dias -31 dias na comparação ajustada

O lucro de R$ 106,5 milhões veio de onde?

Esta é a linha que separa a manchete do balanço. A Azzas reportou lucro recorrente de R$ 106,5 milhões. Mas o EBT — o resultado antes do imposto de renda, ou seja, o que a operação produziu depois de todas as despesas e dos juros — foi de apenas R$ 45,7 milhões na visão recorrente. O lucro ficou maior que o resultado antes do imposto porque a linha de imposto de renda e contribuição social somou R$ 60,8 milhões em vez de subtrair.

Na visão contábil, que é a que entra no balanço e serve de base para dividendos, o quadro é mais duro:

Visão contábil (R$ milhões)2T261S26
Resultado antes do IR (EBT)-70,5-112,6
Imposto de renda e CSLL+100,3+181,0
   do qual: diferido+203,6
Lucro líquido do período29,868,4

Lendo em português: nos dois trimestres de 2026 a Azzas teve prejuízo antes do imposto e reportou lucro nos dois. No semestre, o prejuízo antes do imposto foi de R$ 112,6 milhões, e o lucro de R$ 68,4 milhões apareceu porque a companhia registrou R$ 203,6 milhões de imposto diferido.

O que é imposto diferido, sem jargão. Quando uma empresa tem prejuízo, ela ganha o direito de abater esse prejuízo do imposto que pagaria em anos futuros. A contabilidade permite lançar esse direito como um ativo no balanço — e como receita na linha de imposto, o que empurra o lucro para cima. Só que não entrou dinheiro nenhum no caixa: é uma promessa de pagar menos imposto depois, e ela só se realiza se a empresa voltar a ter lucro tributável.

O tamanho dessa promessa está no balanço e vale a pena acompanhar: o crédito de IRPJ e CSLL diferidos no ativo subiu de R$ 1.655,2 milhões em dezembro para R$ 1.846,8 milhões em junho — cresceu R$ 191,6 milhões em um semestre de prejuízo contábil. É um ativo que depende do lucro futuro de uma companhia que retirou o guidance em março de 2026 e, desde então, não voltou a projetar resultado.

O que melhorou de verdade: a geração de caixa

Se o lucro é contábil, o caixa não é. Aqui está a melhor notícia do trimestre, e ela é grande:

Geração de caixa (R$ milhões)2T252T2612 meses
Caixa operacional106,0356,51.618,3
Depois do capex11,8280,11.275,2
Conversão do EBITDA em caixa3%90%91%

No semestre, a geração operacional foi de R$ 504,3 milhões, contra R$ 55,7 milhões no mesmo período de 2025. O capex caiu 18,9% no trimestre, para R$ 76,4 milhões. Em 12 meses, sobraram R$ 1,27 bilhão depois de todo o investimento — para uma companhia que vale cerca de R$ 3,2 bilhões na bolsa.

De onde veio esse dinheiro: do ciclo financeiro, que é o tempo entre pagar o fornecedor e receber do cliente. Ele caiu de 132 para 93 dias. Os dias de estoque recuaram 20, os de contas a receber 6, e o prazo de pagamento a fornecedores aumentou 13 dias. Menos mercadoria parada e mais prazo para pagar significam dinheiro liberado no caixa.

A letra miúda dessa melhora. A queda de 39 dias no ciclo financeiro vira 31 dias quando se excluem duas provisões feitas no próprio trimestre: R$ 67,3 milhões de perda de estoque e R$ 11,0 milhões de recebível internacional não pago. A companhia mudou a regra e passou a provisionar calçados e matéria-prima parados há mais de dois anos. Ou seja: parte da redução de estoque não foi mercadoria vendida — foi mercadoria reconhecida como perda. A própria empresa publica os dois números, o cheio e o ajustado.

O paradoxo: a dívida caiu e a alavancagem subiu

A dívida líquida encerrou junho em R$ 2.127,2 milhões, R$ 39,9 milhões menor que em março. E a alavancagem subiu de 1,40x para 1,52x.

As duas coisas ao mesmo tempo porque a alavancagem é uma divisão: dívida líquida sobre o EBITDA dos últimos 12 meses. O numerador caiu pouco; o denominador caiu mais. Com o EBITDA recorrente pré-IFRS-16 dos últimos 12 meses em R$ 1.400,9 milhões e em queda, o indicador piora mesmo com a companhia pagando dívida. É o terceiro trimestre seguido de alta: 1,28x no 4T25, 1,40x no 1T26, 1,52x agora.

O perfil da dívida, por outro lado, não é apertado: dos R$ 3.267,9 milhões de dívida bruta, 82,3% vencem no longo prazo. Só R$ 579 milhões vencem em 12 meses, contra R$ 1.136,2 milhões de caixa e R$ 964,0 milhões em recebíveis de cartão de crédito.

Onde a receita caiu — e a diferença que muda a leitura

Essa é a distinção mais importante do trimestre, e ela não aparece no número consolidado. A Azzas vende por dois caminhos:

  • Sell-out — o que o consumidor final compra na loja própria ou no site da marca.
  • Sell-in — o que a Azzas vende para franqueados e lojas multimarca, que depois revendem.
Canal (R$ milhões)2T252T26Variação
Sell-out (consumidor)1.781,31.748,1-1,9%
   Lojas próprias1.128,91.139,2+0,9%
   E-commerce652,4608,9-6,7%
Sell-in (lojista)1.293,51.117,4-13,6%
   Franquias483,7404,6-16,4%
   Multimarcas809,8712,8-12,0%
Internacional498,3478,6-4,0%

O consumidor final praticamente manteve o ritmo: -1,9%, e +0,3% excluindo a Hering. Quem recuou forte foi o canal: -13,6%. A companhia afirma que parte desse corte foi deliberada — reduziu o quanto vende ao franqueado para desinchar o estoque da rede. Na apresentação de 13 de agosto, quantificou o efeito em Shoes & Bags: o sell-out das franquias caiu 4%, enquanto o sell-in caiu 21%, o que melhorou em 22% a relação entre o que a rede vende e o que ela compra.

Há também um fator que não é escolha: o lojista multimarca compra a prazo e é sensível a juros. Com a Selic em 14,00% ao ano, ele reduz pedido antes de o consumidor reduzir consumo. Por isso o efeito chega à Azzas amplificado e com defasagem.

O contraponto está na margem bruta, que subiu 1,3 ponto percentual, para 57,2%. Vender menos com margem maior indica menos desconto, não perda de poder de preço. O que derrubou o EBITDA foi a despesa: as despesas fixas cresceram 9,5% num trimestre em que a receita líquida caiu 8,2%, e o total de despesas passou de 37,7% para 43,3% da receita. É o que a companhia chama de desalavancagem operacional — a estrutura não encolheu junto com as vendas.

As quatro unidades, uma a uma

UnidadeMarcasReceita 2T26Variação
Shoes & BagsArezzo, Schutz, Anacapri, VansR$ 966,5 mi-12,4%
Fashion WomenFARM Rio, Animale, Cris Barros, Maria FilóR$ 1.404,4 mi-2,8%
Fashion MenReserva, Oficina, FoxtonR$ 420,2 mi-0,3%
BasicHeringR$ 559,5 mi-12,1%

Shoes & Bags teve a maior queda, puxada pelo corte de sell-in (-21%) e pela Vans, que segue recuando. Nas lojas próprias, porém, Arezzo cresceu 12,3% e Schutz 7,7%. Sobre a Vans, a companhia foi específica na apresentação: as medidas de recuperação começaram no 1T26, mas os efeitos são esperados a partir do 4T26, com evolução mais consistente ao longo de 2027.

Fashion Women caiu 2,8% sobre uma base que havia crescido 20,1% no 2T25. O sell-out da unidade cresceu 1,5%, com Cris Barros (+19,9%) e Carol Bassi (+13,9%) puxando. A operação internacional da FARM Rio cresceu 4,3% em dólar, sobre uma base de +25%; no semestre, o crescimento é de 10,4% em dólar. Em junho a marca abriu quatro pop-ups na Europa — Marbella, Capri, Saint-Tropez e Ibiza — que somam US$ 1,5 milhão em vendas desde a abertura, o dobro da meta, com vendas nas mesmas lojas 41% maiores no período.

Fashion Men ficou praticamente estável. A Reserva manteve sell-out positivo (+7,6%) mesmo cortando desconto e reduzindo investimento em mídia digital; a Oficina cresceu 7,6% sobre uma base de +30%; a linha Reserva Go avançou 17% no canal multimarcas.

Basic (Hering) é a história mais relevante do trimestre para quem acompanha o turnaround. A receita ainda cai 12,1%, mas isso é uma melhora de 6,4 pontos em relação ao -18,5% do trimestre anterior. E os indicadores operacionais viraram:

Dias de estoque 149 eram 214 no 2T25 — queda de 59 dias
Caixa após capex (2T26) +R$ 97 mi era consumo de R$ 76 mi no 2T25
Margem bruta 40,4% +1,2 p.p. vs. 2T25
Carteira de verão +34% pedidos de franqueados vs. ano anterior

No semestre, a Hering passou de um consumo de R$ 163 milhões de caixa para uma geração de R$ 166 milhões. A companhia também anunciou o lançamento, em setembro, da Camiseta Brasil a R$ 49,99 — preço 38% menor que o do ano anterior no item que representa 6% das vendas da marca —, com expectativa de aumentar o volume em 45% apenas pelo ajuste de preço.

A margem que decide a conta

Para varejo, o indicador mais honesto é a margem EBITDA pré-IFRS-16. A regra contábil IFRS-16 tira o aluguel das lojas da linha de despesa e o transforma em depreciação e juros, o que infla o EBITDA de qualquer varejista. A visão pré-IFRS-16 devolve o aluguel para onde ele economicamente está — é o número que mostra quanto sobra de verdade depois de pagar para manter as lojas abertas.

Margem EBITDA pré-IFRS-161T254T251T262T261S26
Percentual da receita líquida13,3%13,0%10,4%11,7%11,1%

São dois trimestres seguidos abaixo de 12%, depois de um 2025 que rodou em 13%. Essa diferença de dois pontos percentuais é o que separa os caminhos possíveis daqui para frente — e é por isso que ela, e não o lucro reportado, é a linha a acompanhar no próximo balanço.

O que a companhia declarou sobre o segundo semestre

Na apresentação de 13 de agosto, a administração fez afirmações que podem ser verificadas no próximo resultado:

  • Que "a maior correção dos canais já foi realizada".
  • Que, no 3º trimestre, Shoes & Bags projeta retomada do crescimento de sell-out.
  • Que o sell-in de franquias já se aproxima da estabilidade na comparação com o 3T25.
  • Que, apesar das questões societárias, o foco executivo permanece integralmente na operação.

Sobre a FARM Rio, a companhia reiterou o que havia comunicado no Fato Relevante de 19 de julho: contratou o Morgan Stanley para avaliar alternativas estratégicas envolvendo a marca, o processo "segue dentro do timing esperado" e não há decisão tomada, operação aprovada ou estrutura definida. É a marca com a operação internacional que mais cresce dentro do grupo.

Vale registrar o pano de fundo societário, que segue aberto: a arbitragem entre os controladores na CAM-B3, iniciada em maio de 2026, não foi encerrada. No trimestre, a companhia reconheceu R$ 7,1 milhões em rescisões pela saída de executivos. E em 6 de agosto respondeu ao Ofício 160/2026 da CVM, esclarecendo que declarações sobre projeções de uma de suas marcas publicadas na imprensa não haviam passado pela diretoria de relações com investidores. O histórico completo dessa disputa está na análise da briga de sócios que publicamos em julho.

E os dividendos?

Os sites de dados ainda exibem dividend yield de dois dígitos para AZZA3. Esse número vem de dois pagamentos de novembro e dezembro de 2025 (R$ 0,89 e R$ 1,58 por ação), referentes ao lucro do primeiro ano completo após a fusão. Em 2026, até 13 de agosto, a companhia não declarou nenhum provento — o último aviso aos acionistas na CVM é de dezembro de 2025.

A matemática do 1º semestre explica a cautela: o dividendo obrigatório sai do lucro do exercício, e o lucro contábil do semestre foi de R$ 68,4 milhões — cerca de R$ 0,33 por ação, sobre 206,5 milhões de ações. Como o yield exibido hoje se refere a pagamentos de novembro e dezembro do ano passado, ele deixa a janela de 12 meses ao fim deste ano.

Quanto a empresa vale por fundamento

A análise completa de AZZA3 no site foi atualizada hoje com os números do 2T26. O método parte da capacidade de gerar caixa e do custo de capital, sem usar a cotação como ponto de partida, e chega a três referências conforme a margem que a companhia entregar:

Cenário de margem EBITDA pré-IFRS-16Valor por ação
10,5% — o ritmo do 1T26 se torna permanenteR$ 15,23
11,1% — a margem realizada no 1S26 se mantémR$ 17,51
13,0% — retorno à margem entregue em 2025R$ 24,71
15,0% — margem plena, com a Hering neutraR$ 32,28
Piso de balanço (patrimônio tangível ex-crédito fiscal)R$ 13,31

Como número derivado: com a ação em R$ 15,49 nesta quinta-feira (13/08), o mercado paga 16% acima do piso de balanço e abaixo do valor correspondente à margem que a companhia acabou de entregar. O patrimônio líquido é de R$ 8.040,3 milhões, o que dá 0,40 vez o valor patrimonial — lembrando que R$ 3,45 bilhões desse patrimônio são intangíveis (marcas e ágio da fusão) e R$ 1,85 bilhão é o crédito fiscal descrito no começo deste texto.

Nota da análise: 5,5/10 · EM ANÁLISE. O relatório datado com a metodologia completa, a matriz de sensibilidade e os cenários está disponível em PDF, e a versão navegável fica na página da ação.

O que acompanhar daqui para frente

  • Resultado do 3T26 (novembro). As três afirmações da administração são verificáveis: o sell-out de Shoes & Bags voltou a crescer? O sell-in de franquias estabilizou? A margem pré-IFRS-16 saiu da faixa de 11%?
  • A sustentação do caixa. O ciclo financeiro caiu de 132 para 93 dias, mas estoque só se corta uma vez. Quando o ciclo parar de encolher, a geração volta a depender do EBITDA. O indicador a olhar é a conversão do EBITDA em caixa, não o valor absoluto.
  • O crédito de IR diferido de R$ 1,85 bilhão. As notas explicativas dos próximos ITRs dirão como a companhia e o auditor avaliam a recuperabilidade desse ativo — que cresceu R$ 191,6 milhões num semestre de prejuízo contábil.
  • Qualquer fato relevante sobre a FARM Rio: se sai operação, a que preço, com que estrutura e qual o destino do dinheiro.
  • A primeira declaração de provento de 2026, que indicará o que o conselho decidiu sobre preservar caixa.
  • O Copom de 15 e 16 de setembro. A Selic está em 14,00% desde 6 de agosto, e o boletim Focus projeta 14,00% no fim de 2026 e 12,00% no fim de 2027 — o custo do crédito é o que trava o lojista multimarca.
  • O lançamento da Camiseta Brasil em setembro, primeiro teste do novo modelo de preço e sortimento da Hering.

Todos os números deste artigo vêm do Earnings Release do 2T26 e do ITR entregues à CVM em 12 de agosto de 2026 e da Apresentação de Resultados divulgada em 13 de agosto de 2026, exceto onde outra fonte está indicada. A cotação citada é a do pregão de 13 de agosto de 2026.