Balança comercial tem superávit de US$ 9,3 bi em outubro, diz MDIC: o maior para o mês desde 1989, e por que o dólar subiu mesmo assim Relevância2,0
INICIANTE

Balança comercial registra superávit de US$ 9,3 bilhões em outubro

Petróleo e exportações para os EUA puxaram o melhor resultado para o mês desde 1989, mas juros externos pesaram no câmbio.

Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), o Brasil vendeu ao exterior US$ 9,318 bilhões a mais do que comprou em outubro, o melhor resultado para o mês desde 1989. Mesmo assim, o dólar subiu no dia. Isso mostra o que esse número faz pelo seu dinheiro e o que não faz.

Qual foi o saldo da balança comercial em outubro?

Ficou positivo em US$ 9,318 bilhões, segundo o MDIC, com US$ 37,807 bilhões em exportações e US$ 28,490 bilhões em importações. As vendas ao exterior subiram 20% sobre outubro de 2025 e as compras, 14,8%. O resultado veio um pouco acima do que o mercado previa: a pesquisa da Reuters apontava saldo de US$ 9,05 bilhões.

US$ 10 bi US$ 5 bi 0 4,1 6,7 9,32 out/24 out/25 out/26
Em dois anos, o saldo de outubro mais que dobrou. Out/24 usa o dado divulgado pelo MDIC na época e out/25, o dado revisado.

A comparação com o ano passado exige um ajuste. Em novembro de 2025, o MDIC tinha anunciado superávit de cerca de US$ 7 bilhões para aquele outubro. Na série atualizada, o saldo positivo do mesmo mês de 2025 foi de US$ 6,7 bilhões, e o crescimento agora é de 39,4%. Pela Agência Brasil, é o maior superávit para outubro em 37 anos. E de onde saiu tanto dólar? Quase metade da alta veio de um produto só.

De onde veio o dinheiro a mais?

Veio do petróleo. Segundo o MDIC, os embarques da indústria extrativa subiram 53,5%, puxados pelas vendas de óleo bruto, que cresceram 122,6% sobre outubro de 2025 e acrescentaram quase US$ 5 bilhões ao valor exportado. As exportações totais cresceram cerca de US$ 6,3 bilhões no mês: saíram de US$ 31,51 bilhões para US$ 37,81 bilhões. Pela nossa conta, o petróleo bruto respondeu sozinho por perto de 80% desse aumento. Esse movimento já aparecia em setembro, quando, como mostramos, o Brasil exportou volume recorde de petróleo.

O crescimento veio de dois motores ao mesmo tempo. O ministério informou que o preço médio dos produtos exportados subiu 10,8% e o volume, 7,3%. Multiplicando os dois, chega-se a quase toda a alta do mês:

Preço médio +10,8%+Volume +7,3%=Exportações +20% (1,108 × 1,073 ≈ 1,19)

O resto da pauta também cresceu, embora menos. A agropecuária exportou 12,8% a mais, com soja e café não torrado. A indústria de transformação vendeu 7,7% a mais, com combustíveis, farelo de soja, celulose e carne de frango. Esse detalhe pesa: quando a alta depende de preço, ela pode sumir se a commodity cair. Quem quiser acompanhar esse risco pode ver o preço do petróleo hoje.

E as tarifas dos Estados Unidos? As vendas para lá não deviam estar caindo?

Em outubro, subiram. Segundo o MDIC, as exportações para os EUA cresceram 87% no mês e chegaram a US$ 4,32 bilhões. Com isso, a fatia americana nas vendas brasileiras passou de 7,3% em outubro de 2025 para 11,4%. Uma parte do noticiário chamou esse 11,4% de "alta das vendas", mas o número é a participação dos EUA no total, não o crescimento.

Um mês bom não muda o ano. Com o resultado de outubro, as exportações para os Estados Unidos passaram a ter crescimento acumulado de só 0,2% no ano, segundo a Agência Brasil. Ou seja, as tarifas continuam valendo e outubro só compensou o terreno perdido nos meses anteriores. Para a União Europeia, as vendas subiram 32%, a US$ 6,05 bilhões. Se entrou tanto dólar, por que a moeda americana subiu?

Se entrou tanto dólar, por que o câmbio subiu no mesmo dia?

Porque o saldo comercial influencia o câmbio aos poucos, e os juros americanos mexem nele no mesmo dia. Na rodada acompanhada pela redação, o dólar estava em R$ 5,50, com alta de 0,68%. No mesmo dia, segundo a Reuters, os contratos futuros nos EUA passaram a embutir cerca de 80% de chance de o Federal Reserve (o banco central americano) subir os juros em 0,25 ponto, depois do relatório de emprego (payroll). Juro mais alto lá atrai dinheiro para o dólar e tira de países emergentes como o Brasil. Esse efeito pesou mais que os US$ 9 bilhões da balança.

O superávit funciona como colchão, não como freio. Um fluxo comercial forte reduz a necessidade de dólar de fora para fechar as contas externas e ajuda a evitar disparadas em dias de pânico. Mas não vence sozinho o juro americano nem a desconfiança com as contas públicas, um ponto que piorou com a dívida bruta chegando perto de 83% do PIB. Esse desenho já tinha aparecido no fim de outubro, quando o dólar subiu e depois recuou com o resultado da eleição. Falta saber se o ano vai fechar como o governo prevê.

O ano vai bater a projeção do governo?

Está perto. De janeiro a outubro, as exportações somaram US$ 321,88 bilhões e as importações, US$ 250,84 bilhões, com superávit de US$ 71,04 bilhões, 34,1% acima do mesmo período de 2025. O saldo de dez meses já passa do ano de 2025 inteiro, que fechou com superávit de US$ 68,3 bilhões.

Em outubro, o MDIC cortou a projeção do superávit de 2026 de US$ 90 bilhões para US$ 84,4 bilhões e manteve esse número com o dado novo. O mercado é mais cauteloso: pelo boletim Focus, do Banco Central, os analistas projetam US$ 79,9 bilhões. A conta do que falta para cada projeção se cumprir:

Projeção do MDICUS$ 13,4 bi em 2 meses

Média de cerca de US$ 6,7 bi por mês em novembro e dezembro. Em dezembro de 2025, o saldo foi de US$ 9,6 bi.

Projeção do FocusUS$ 8,9 bi em 2 meses

Cerca de US$ 4,4 bi por mês. Isso exige que petróleo e grãos percam bastante força no fim do ano.

Pela nossa estimativa, os números de outubro deixam a projeção do MDIC mais fácil de alcançar do que parecia quando ela foi cortada. Se isso se confirmar, 2026 terá o segundo melhor resultado anual desde o início da série histórica, em 1989, abaixo só de 2023. A dúvida está no preço: com a cotação do petróleo explicando boa parte da alta, uma queda do barril reduz o saldo de novembro e dezembro.

O que isso muda para quem investe?

Pouco no curto prazo e algo no médio prazo. O dado não justifica mexer na carteira hoje, mas mostra de onde vem o dinheiro que sustenta a economia e quais riscos continuam:

  • Câmbio com colchão. Com dólar entrando pelo comércio, fica menor a chance de o real desabar em dias de estresse. Quem tem dívida ou gastos em dólar ganha um pouco de previsibilidade.
  • Exportadoras de petróleo e agro se beneficiam. O ganho veio de preço e de volume ao mesmo tempo, o melhor cenário para a receita de petroleiras e do agronegócio exportador. O dado do MDIC mostra o país inteiro, não o balanço de cada empresa.
  • Não segura o dólar quando o Fed ameaça subir juros. O dia da divulgação mostrou isso. Quem conta com o superávit para derrubar o câmbio está olhando para a variável errada.
  • Depende do preço do petróleo. Quase todo o salto de outubro veio de um produto cotado no mercado internacional. Se o barril cair, o saldo encolhe.
  • Não resolve o fiscal. Juros longos, renda fixa prefixada e o desconto da bolsa continuam dependendo das contas públicas, e não do comércio exterior.

O próximo teste é o saldo de novembro, que o MDIC divulga no início de dezembro. Um resultado acima de US$ 6,7 bilhões mantém a projeção oficial dentro do alcance. Abaixo de US$ 4,4 bilhões, a leitura mais cautelosa do Focus passa a fazer mais sentido.