O Banco do Japão (BoJ) manteve a taxa básica em 1,25% ao ano nesta sexta-feira (30), como os analistas esperavam, mas o presidente Kazuo Ueda avisou que uma nova alta pode vir já na reunião de dezembro. A pausa não encerra o ciclo de juros altos pelo mundo, e é isso que chega ao dólar e às bolsas.
O que o Banco do Japão decidiu nesta sexta-feira?
Manteve a taxa, por 8 votos a 1. A decisão era amplamente esperada pelos analistas consultados pela Broadcast, o sistema de notícias do Grupo Estado. O voto contrário foi de Hajime Takata, integrante da diretoria, que defendeu subir 25 pontos-base e levar a taxa a 1,5% ao ano. Para ele, o banco deveria acelerar o aumento até chegar a um nível neutro, aquele que nem freia nem estimula a economia, para segurar a inflação na meta de 2%.
Um voto isolado num colegiado de nove pesa mais do que parece. Na nossa leitura, ele mostra para que lado o debate interno puxa: quem já quer subir não está pedindo calma, está pedindo pressa. Mas por que a maioria preferiu esperar, se a inflação já passou da meta?
Por que o BoJ esperou, com a inflação acima da meta?
Porque quer enxergar o efeito da alta de setembro antes de dar o passo seguinte. O comunicado diz que as condições financeiras seguem acomodatícias, ou seja, ainda favoráveis ao crédito, e que a economia se recupera de forma moderada, apesar de alguma fraqueza recente. Esperar dá ao banco tempo para ver como o aperto já feito chega ao crédito.
E a inflação de 2,1% é alta? No mês passado, o CPI japonês, índice de preços ao consumidor, acelerou para esse nível na taxa anual, acima da meta pela primeira vez em nove meses. A folga é de 0,1 ponto percentual sobre os 2%. Na nossa leitura, isso é pouco para forçar a mão de quem acabou de apertar, mas suficiente para manter dezembro vivo.
Dezembro está decidido?
Não, mas está na mesa. Na entrevista coletiva, Ueda afirmou que os juros serão discutidos a cada reunião, incluindo a de dezembro, e evitou indicar um calendário fixo de altas. O recado mais claro veio nesta frase:
“É importante ancorar a inflação subjacente em torno de nossa meta. Isso não significa que vamos simplesmente ficar parados esperando. Ajustaremos a política monetária conforme apropriado para que a inflação subjacente fique ancorada em torno de 2%.”Kazuo Ueda, presidente do Banco do Japão, em entrevista coletiva
Inflação subjacente é a medida que tenta captar a tendência dos preços, sem o ruído de movimentos pontuais. E aqui está a virada de chave: depois de quase 14 anos tentando levar a inflação à meta de 2%, o BoJ avalia que a subjacente atingiu um nível compatível com esse objetivo. O desafio deixou de ser fazer os preços subirem e passou a ser mantê-los perto da meta, sem deixar a inflação escapar para cima.
O banco também elevou sua projeção de inflação para 2027. O valor novo não consta no material que temos, então não vamos cravar número. Na nota, o BoJ disse que seguirá monitorando a guerra no Oriente Médio, o iene e a demanda por inteligência artificial, e que sobe juros conforme crescimento, preços e condições financeiras. Em português claro: dezembro depende dos dados, não de uma data marcada.
O que isso muda para o investidor brasileiro?
Hoje, nada diretamente no seu rendimento: a renda fixa daqui responde à Selic, e a página da Selic mostra o patamar atual e a data da próxima reunião do Copom. O que muda é o pano de fundo. A leitura abaixo é nossa, não do BoJ: juros globais altos por mais tempo preservam o diferencial de juros favorável ao dólar e mantêm comprimidos os múltiplos das ações de tecnologia, aquelas que dependem de lucros distantes no tempo.
No mesmo dia, o Nasdaq 100 recuou 2,62%, para 28.631,97 pontos. Nenhuma das fontes liga a queda à decisão do BoJ, então não dá para atribuí-la a ela. Mas o episódio ilustra o ambiente em que a pausa japonesa acontece: o Japão não está sozinho, já que o Fed subiu os juros nos EUA pela primeira vez em três anos em setembro.
O iene entra nessa conta porque o próprio BoJ disse que o monitora. Já analisamos como a alta de setembro mexeu com o carry trade global, a operação de tomar dinheiro barato no Japão para aplicar onde o juro é maior. Cada sinal de nova alta japonesa reabre essa discussão.
O que acompanhar até a reunião de dezembro?
O próximo CPI japonês — se vier em 2,1% ou acima, reforça o argumento de Takata; se voltar a 2% ou menos, enfraquece a tese de alta.
O placar da próxima reunião — hoje há 1 voto por alta em 9; se esse número crescer, dezembro ganha força.
Guerra no Oriente Médio, iene e demanda por IA — os três fatores citados pelo BoJ; qualquer um que mude o quadro de crescimento ou de preços entra na decisão.
O número da projeção para 2027 — a revisão para cima foi anunciada, mas o valor novo é o que mostra quanto o banco teme a inflação adiante.