O ponto principal: o LMAI11 (antigo RMAI11) é um FII de imóveis físicos — galpões e contratos atípicos de aluguel — e essa carteira está jurídica e patrimonialmente separada da esfera financeira do Banco Master. A decisão das Bahamas mira fundos offshore e dinheiro desviado, não galpões em Campinas. O risco real para o cotista hoje não é a investigação do Master: é a vacância de quase metade do portfólio, o corte de 53% no dividendo e a dúvida sobre a nova gestora, a Arandu. O fio que liga tudo é o passado: o fundo nasceu sob a marca REAG, que aparece no centro do escândalo.
O que a Justiça das Bahamas decidiu
Em 26 de maio de 2026, a Suprema Corte das Bahamas reconheceu oficialmente o processo de liquidação do Banco Master e autorizou a busca e a administração dos ativos do grupo dentro do território das ilhas. Na prática, o que o Banco Central do Brasil já fazia no país agora tem efeito legal lá fora: a liquidação brasileira passou a ser reconhecida por uma corte estrangeira como um processo legítimo, com poder para alcançar contas e estruturas montadas no exterior.
A Corte reconheceu a EFB Regimes Especiais de Empresas Ltda. — a liquidante nomeada pelo Banco Central — como representante estrangeira nas Bahamas. É o tipo de chancela que abre portas: permite que os liquidantes peçam informações a bancos locais, congelem ativos e investiguem para onde foi o dinheiro.
O alvo são nove entidades e fundos ligados ao grupo, registrados naquele paraíso fiscal:
| Entidades-alvo nas Bahamas |
|---|
| Liquidity Strategies Fund Ltd. |
| Phoenix Multimarket Fund Ltd. |
| Faex Fund Ltd. |
| PMLS Ltd. |
| Octa Investments Ltd. (teria comprado ~R$ 30 milhões em obras de arte) |
| Sunshine Company Ltd. |
| Golden Star Investment Fund Ltd. |
| Artress Ltd. |
| Mosaic Financial Ltd. |
Segundo as autoridades, ao menos US$ 1 bilhão teriam sido desviados pelo banqueiro Daniel Vorcaro e por outros envolvidos. A decisão das Bahamas não é isolada: um tribunal americano já havia tomado medida semelhante em janeiro de 2026. O cerco internacional vem se fechando há meses.
Um dos episódios que melhor ilustra o esquema apareceu no caso do Banco de Brasília (BRB): ao comprar carteiras vinculadas ao Master, o BRB foi enganado — o fundo registrado nas Bahamas não tinha os títulos do Tesouro americano nem as ações que diziam existir, e o fundo de Jersey associado não possuía recursos desde 2023. Eram cascas vazias.
Onde entra a REAG — e por que isso toca o LMAI11
Aqui está o elo que faz este tema importar para o investidor de FIIs. O LMAI11 não nasceu com esse nome. Até janeiro de 2026 ele se chamava RMAI11, e o "R" vinha de REAG — a mesma REAG Investimentos que aparece como peça-chave no escândalo do Master.
O que se apurou até agora: a REAG era gestora de fundos investigados por suspeita de lavagem de dinheiro em favor do Master, com supostas ligações ao PCC. Em 2023, Vorcaro teria lucrado mais de R$ 440 milhões em 24 horas em operações com fundos geridos pela REAG. Os nomes por trás da casa — Tanure, Mansur e Quadrado, a chamada "trinca da REAG" — são investigados ao lado de Vorcaro. O Banco Central decretou a liquidação do Master em 18 de novembro de 2025, e Vorcaro foi preso no mesmo mês.
É nesse contexto que a mudança de marca ganha leitura. O antigo RMAI11 (REAG Multi Ativos) virou LMAI11 (Labina Multi Ativos Imobiliários), e a gestão passou da REAG Gestão para a Arandu Gestão de Fundos Imobiliários. A troca de nome e de gestora, em janeiro de 2026, tem toda a aparência de uma separação do grupo — afastar o veículo imobiliário da marca tóxica enquanto o cerco se fechava sobre o Master.
Fato x suspeita x análise — não misture os três:
Fato: a Justiça das Bahamas reconheceu a liquidação do Master e liberou a busca de ativos; o RMAI11 era gerido pela REAG e mudou de nome/gestora em jan/2026.
Suspeita apurada pelas autoridades: desvio de pelo menos US$ 1 bilhão, lavagem via fundos da REAG e ligações ao PCC — investigações em curso, sem decisão definitiva.
Análise editorial do Rico aos Poucos: a troca de marca parece manobra de blindagem reputacional, mas não há, até aqui, evidência pública de que os imóveis do fundo tenham sido alvo de desvio. O cotista deve tratar isso como risco de reputação e governança a monitorar — não como perda confirmada.
O que isso significa, de fato, para quem tem LMAI11
Comece pela boa notícia, que é técnica e importante: um FII de tijolo é dono de imóveis físicos e de contratos de aluguel, registrados em nome do fundo, com patrimônio segregado por lei. O dinheiro desviado nas Bahamas circulava por fundos financeiros offshore — não por galpões logísticos em Campinas. Um investigador pode congelar uma conta na Caribbean; ele não "leva embora" um centro de distribuição alugado para o Assaí.
O patrimônio do LMAI11 é concreto: R$ 581 milhões, com 95% dos ativos avaliados pela Binswanger (avaliadora independente de peso), indexação a IPCA em 95% da receita contratada e uma reserva de caixa de R$ 29,4 milhões (mar/26). E negocia a P/VP de 0,34 — um desconto de 66% sobre o valor patrimonial. No papel, é barato.
O problema é que "barato" aqui não é sinônimo de "oportunidade". Os riscos que pesam sobre o fundo são operacionais e independentes do escândalo:
O ativo mais visível dessa fragilidade é o galpão de Campinas, avaliado em R$ 180 milhões e totalmente vago. Ele entra no cálculo do patrimônio — e infla o P/VP "atraente" —, mas não gera um centavo de aluguel. Some a isso o fato de que os aluguéis dos contratos atípicos com Assaí (20 anos, via Pedra Alta) e ArcelorMittal (10 anos, via Francorchamps) não estão chegando ao caixa do fundo como deveriam, e você entende por que o dividendo desabou de R$ 0,58 para R$ 0,27 em meio ano. A ocupação de apenas 52% do portfólio fecha o diagnóstico: metade do imóvel não está trabalhando.
Em outras palavras: mesmo que o escândalo do Master nunca tivesse existido, o LMAI11 já seria um fundo problemático. O desconto de 66% não é um presente — é o preço que o mercado cobra para carregar vacância alta, dividendo encolhendo e uma base de apenas 1.094 cotistas, o que significa liquidez baixíssima (sair da posição pode ser difícil sem derrubar o preço).
O que o investidor deve monitorar daqui pra frente
Para quem tem o fundo ou pensa em entrar pelo desconto, a checklist é objetiva. O foco não é a manchete do Master — é a saúde operacional do veículo e a idoneidade de quem o gere agora:
| O que monitorar | Por que importa | Sinal de alerta |
|---|---|---|
| A nova gestora Arandu | Herdou o fundo da REAG. Sua governança define o futuro do LMAI11. | Qualquer ligação que surja entre Arandu e as investigações da REAG/Master. |
| Locação do Galpão de Campinas | R$ 180 Mi parados. Resolver isso é o maior gatilho de recuperação do dividendo. | Meses passando sem anúncio de novo inquilino ou de venda do ativo. |
| Fluxo dos aluguéis Assaí / ArcelorMittal | São contratos atípicos longos — deveriam ser o caixa estável do fundo. | Aluguéis que seguem sem repassar ao caixa do FII; disputas com as SPEs Pedra Alta/Francorchamps. |
| Trajetória do DPS | Já caiu 53%. Indica se a deterioração estancou ou continua. | Novo corte abaixo de R$ 0,27/mês. |
| Avaliações patrimoniais | O P/VP de 0,34 depende dos laudos da Binswanger. | Reavaliação para baixo dos imóveis (o desconto pode ser menor do que parece). |
Veredicto do Rico aos Poucos — VENDA: a decisão das Bahamas é grave para o caso Master, mas não atinge diretamente os imóveis do LMAI11, que seguem segregados em nome do fundo. O verdadeiro risco do cotista é outro e já está na mesa: vacância de quase metade do portfólio, um galpão de R$ 180 milhões vago em Campinas, aluguéis que não chegam ao caixa e um dividendo que despencou 53% em seis meses. O P/VP de 0,34 atrai o caçador de barganhas, mas é um desconto que reflete problemas reais — não um erro de precificação. Somamos a isso o histórico REAG e a liquidez quase nula (1.094 cotistas) para chegar a um sentimento que chamamos de neutro amargo. Nota 4,0/10 no comparativo (4,5/10 no absoluto). Não é o tipo de risco que recomendamos carregar pelo desconto.
Fontes
Os dados de fato e as suspeitas atribuídas às autoridades refletem o material apurado até 10/06/2026 e investigações em curso, sem decisão definitiva. As notas, o veredicto e a leitura sobre a separação do grupo são análise editorial do Rico aos Poucos e não constituem recomendação de investimento.