Focus de 3 de novembro: segundo o Money Times, economistas revisaram quase todas as projeções depois da eleição Relevância4,0
INICIANTE PTENES

Boletim Focus economistas revisam projeções após eleição

O levantamento semanal do Banco Central foi reescrito em bloco pelos economistas, mexendo com juros, inflação e câmbio.

Segundo o Money Times, os economistas revisaram quase todas as projeções do Boletim Focus desta segunda-feira (3), e o veículo atribui o movimento ao efeito da eleição. Para quem tem Tesouro, FII ou ação, o que pesa não é uma linha isolada: é o cenário-base do mercado ter sido reescrito em bloco.

Os economistas mudaram mesmo as projeções do Focus desta segunda (3)?

Sim, é o que informa o Money Times. A matéria sobre o Focus de 3 de novembro diz que os economistas revisaram quase todas as projeções e coloca a eleição como causa já no título. O Focus é o levantamento semanal do Banco Central com as projeções de economistas do mercado para juros, inflação, câmbio e crescimento. É a régua que muita gente usa para precificar renda fixa e ações.

O que a fonte traz e o que não traz. O material do Money Times a que tivemos acesso confirma o fato: revisão quase generalizada, motivada pela eleição. Ele não informa quais projeções mudaram, para que lado nem em quanto. Por isso este texto não cita nenhum número do boletim. Não vamos completar o que a fonte não disse. O que dá para entregar é o mapa de leitura: para onde cada linha do Focus aponta dentro da sua carteira.

Por que "quase todas" pesa mais do que qualquer número isolado?

Porque as variáveis do Focus são encadeadas. A projeção de juros depende da de inflação e da leitura sobre as contas públicas. O câmbio reage aos juros e ao risco fiscal. O crescimento depende, em boa parte, do custo do dinheiro. Um economista que muda uma premissa de fundo dificilmente mexe só em uma linha, porque deixaria o resto da planilha incoerente.

Por isso, a revisão em bloco costuma ser sintoma de que uma premissa mudou, e não de que cada projeção foi ajustada por motivo próprio. No caso, a premissa seria a eleição, segundo o Money Times. É uma leitura nossa sobre como o mecanismo funciona, não um dado do boletim.

O assunto já aparecia na nossa leitura de como os mercados abririam depois da reeleição de Lula, quando a reação vinha em preços de bolsa, dólar e juros. O Focus mostra o mesmo tema por outro ângulo: o que os economistas passam a esperar nos meses seguintes. Preço reage no dia; projeção mostra a aposta para adiante.

Como cada projeção do Focus chega ao seu bolso?

Antes de saber o sentido das revisões, vale saber onde cada linha do boletim bate na sua carteira. É esse caminho que transforma uma tabela de economistas em rendimento, ou em perda, para quem investe:

Linha do FocusOnde bate na carteiraO que checar
SelicTesouro Selic, CDBs pós-fixados, custo da dívida de empresas e fundosSe a trajetória esperada ficou mais alta ou mais baixa que a da semana anterior
Inflação (IPCA)Tesouro IPCA+, aluguéis e papéis indexados à inflaçãoSe a inflação esperada para o ano e para o seguinte mudou, e quanto disso entra no seu rendimento
CâmbioDólar, BDRs, empresas exportadoras e importadorasSe a expectativa para o dólar subiu ou caiu, e que empresas da sua carteira ganham ou perdem com isso
PIBLucro das empresas, demanda por imóveis comerciais e galpõesSe o crescimento esperado foi para cima ou para baixo, e o que isso sugere para os resultados das empresas
Contas públicasJuros longos, Tesouro prefixado, prêmio de risco do paísSe a expectativa de déficit e de dívida piorou ou melhorou

A última linha merece atenção especial, porque é a que costuma puxar as demais. Já mostramos, na nossa análise das projeções de déficit primário e dívida bruta, como a expectativa fiscal dos economistas contamina juros e câmbio. Se a revisão pós-eleição tocou nessa linha, o efeito não fica restrito a ela.

A revisão ajuda ou atrapalha o seu investimento?

Depende do sentido de cada revisão, e esse é justamente o dado que o resumo do Money Times não nos entrega. Dá para deixar a régua pronta, para você aplicar quando abrir o boletim completo:

  • Projeção de Selic mais alta: renda fixa pós-fixada rende mais por mais tempo, e quem está em Tesouro Selic ou CDB de liquidez diária ganha.
  • Projeção de Selic mais alta: FIIs e ações perdem atratividade relativa, porque o investimento sem risco passa a concorrer melhor com eles.
  • Projeção de inflação mais baixa: o Tesouro IPCA+ já comprado não perde, e o poder de compra do rendimento preservado melhora.
  • Projeção de inflação mais alta: quem tem renda fixa prefixada fica com ganho real menor, porque a taxa contratada rende menos que o esperado em termos reais.
  • Projeção de dólar mais alto: pesa sobre empresas endividadas em moeda estrangeira e sobre a inflação de produtos importados.
  • Projeção de dólar mais alto: ajuda exportadoras e a carteira dolarizada, incluindo BDRs.

Repare que quase toda revisão tem lado bom e lado ruim, dependendo do que você carrega. Não existe "Focus bom" ou "Focus ruim" em abstrato: existe o Focus que favorece a composição da sua carteira ou não.

Preciso mexer na carteira por causa deste Focus?

Não por causa de um único boletim. O Focus é a média das apostas dos economistas, e não uma previsão garantida. Os preços de mercado costumam incorporar parte dessas expectativas antes de a tabela sair. Agir por reflexo a uma revisão, sem checar o que mudou, é o jeito mais comum de transformar notícia em prejuízo.

O que vale fazer é usar o boletim como termômetro. Três checagens rápidas, em ordem:

1

Abra o Focus completo no site do Banco Central e compare cada linha com a semana anterior. O resumo do Money Times diz que quase tudo mudou; só a comparação mostra para onde.

2

Cruze com a sua carteira usando a tabela acima. Pós-fixados, IPCA+, prefixados, FIIs, ações e dólar reagem a linhas diferentes. Veja quais linhas que mudaram tocam o que você realmente tem.

3

Espere o próximo Focus antes de concluir. Uma revisão em bloco que se repete nas semanas seguintes confirma que o cenário mudou. Se as projeções voltam atrás, foi só ruído de curto prazo.

Quando as linhas de interesse estiverem em mãos, vale conferir se a mudança chega ao que você já tem, e não ao que você poderia ter. A decisão de comprar ou vender nasce da sua tese e do seu prazo; o Focus só ajuda a saber se o cenário em que essa tese foi montada continua valendo.