O que aconteceu com o CARE11?
Em 03/08/2026, uma consulta formal de cotistas aprovou que a administradora (Mérito DTVM) e a gestora (Zion Gestão) elaborem um Plano de Liquidação do CARE11. Ou seja: os cotistas autorizaram começar a preparar o encerramento do fundo. O plano ainda não existe — será escrito e depois passará por nova votação.
O CARE11 é o Brazilian Graveyard and Death Care Services FII, o único fundo imobiliário de death care (cemitérios, crematórios e funerárias) da bolsa brasileira. A decisão marca uma virada: em vez de tentar reerguer o fundo, os cotistas escolheram o caminho de vender os ativos e devolver o que sobrar.
Junto com a autorização para elaborar o plano, a mesma consulta aprovou um pacote de governança: relatórios trimestrais de governança, a criação de uma Comissão de Cotistas consultiva (5 membros, sem poder de deliberação) e a contratação de uma auditoria independente. Nada disso, porém, garante prazo ou valor de devolução — esses pontos permanecem em aberto.
O que é o CARE11 — o único FII de cemitérios do Brasil
O CARE11 nasceu para investir em death care, um setor que reúne cemitérios, crematórios e serviços funerários. É um nicho considerado defensivo — as pessoas morrem em qualquer cenário econômico —, mas que no Brasil quase não tem representação em bolsa. O CARE11 é o único FII listado com essa tese.
Na prática, o fundo não opera cemitérios diretamente. A maior parte do seu patrimônio está numa participação minoritária na Cortel Holding, uma companhia fechada do setor. Além disso, o fundo é dono de milhares de jazigos em um cemitério de São Paulo e de uma carteira de recebíveis. É uma estrutura pouco usual para um FII, e boa parte dos problemas atuais vem justamente daí.
O fundo passou por um agrupamento de cotas na proporção 5:1 em fevereiro de 2026. Isso reduziu a base de cerca de 35,8 milhões de cotas para cerca de 7,2 milhões, e é por isso que aparecem dois números de P/VP: cerca de 0,09 na base nova (VP/cota de R$ 34,61) e cerca de 0,44 se calculado sobre a base antiga. O agrupamento não muda o valor total investido de cada cotista — só troca a quantidade de cotas pelo preço unitário.
O que tem dentro do fundo
O patrimônio do CARE11 está concentrado em três blocos. O mais importante — e mais problemático — é a fatia na Cortel:
| Ativo | Valor (laudo) | % do PL | Característica |
|---|---|---|---|
| Cortel Holding (3.472.932 ações ON) | R$ 157,6 Mi | ~63% | Participação minoritária em companhia fechada — ilíquida |
| Jazigos Cemitério do Morumby (3.080 un.) | R$ 70,1 Mi | ~28% | Venda unidade a unidade — lenta |
| Recebíveis (até 2032, juros 1% a.m.) | R$ 17,9 Mi | ~7% | Fluxo de caixa contratado ao longo dos anos |
O que é um ativo ilíquido? É um bem que não se vende rápido nem com preço garantido. Uma ação negociada na bolsa é líquida: dá para vender hoje pelo preço da tela. Já uma participação numa empresa fechada, como a Cortel, não tem comprador na esquina — é preciso encontrar alguém disposto a comprar aquele bloco de ações, negociar o preço e fechar contrato. Isso pode levar meses ou anos.
Valor de laudo não é o mesmo que valor de venda. Os R$ 157,6 milhões da Cortel vêm de um laudo de avaliação (assinado pela UHY Bendoraytes). Um laudo estima quanto o ativo vale em condições normais. Numa venda de verdade — ainda mais de uma participação minoritária, sem controle da empresa, e possivelmente com pressa para encerrar o fundo — o comprador costuma exigir desconto. Esse desconto é chamado de haircut. Quanto seria esse desconto no caso da Cortel é hoje impossível de cravar.
Por que o fundo não pagou dividendos nos últimos 5 anos
O CARE11 não distribui rendimentos desde setembro de 2021 — mais de 56 meses. A raiz do problema é estrutural: a participação na Cortel, que responde por cerca de 63% do patrimônio, não gera caixa que chegue ao fundo. Como acionista minoritário de uma companhia fechada, o CARE11 depende de a Cortel distribuir dividendos ou de vender a participação para transformar aquele valor em dinheiro — e nenhuma das duas coisas vem acontecendo de forma relevante.
O resultado contábil reflete isso: o fundo teve prejuízo de R$ 1,42 milhão em 2025 e de R$ 477 mil no 1º trimestre de 2026. Sem lucro caixa, não há o que distribuir.
Havia um plano para destravar esse valor: um IPO (abertura de capital) da Cortel, mandatado à XP em 2021. Se a Cortel virasse companhia aberta, suas ações passariam a ter preço de mercado e liquidez, e o CARE11 poderia vendê-las. O IPO, porém, foi cancelado. Sem ele, a fatia na Cortel continuou sendo um ativo grande no papel, mas travado.
O período também foi marcado por uma troca conturbada de administrador: a gestão passou da Trustee para a Mérito DTVM em julho de 2025, processo em que houve retenção de documentos pelo antigo administrador — o que dificultou a transição e o acesso a informações.
O que muda agora com o plano de liquidação
A aprovação de 03/08/2026 é o primeiro passo de um caminho com etapas. Vale entender a sequência, porque nada é imediato:
1) Elaboração do plano. Mérito DTVM (administradora) e Zion Gestão (gestora) vão escrever o Plano de Liquidação — o documento que define como e quando os ativos serão vendidos e como os recursos serão devolvidos aos cotistas.
2) Nova consulta. O plano pronto voltará a ser submetido a uma consulta formal dos cotistas. Só depois dessa segunda aprovação ele poderá ser executado. Ou seja, os cotistas ainda terão outra chance de votar antes de qualquer venda começar de fato.
3) Execução. Aprovado o plano, começa a fase de vender os ativos (Cortel, jazigos, recebíveis) e distribuir o dinheiro apurado. Essa é a etapa que pode se estender no tempo, por causa da iliquidez dos ativos.
Para acompanhar esse processo, a consulta aprovou três mecanismos de governança: uma Comissão de Cotistas consultiva (5 membros, que opinam mas não deliberam — quem decide continua sendo a assembleia e os gestores), uma auditoria independente e a divulgação de relatórios trimestrais de governança. São instrumentos de transparência e fiscalização, não de decisão.
O que os cotistas podem receber — e quando
Esta é a pergunta central — e a resposta honesta é que ninguém sabe ainda.
Prazo e valor são desconhecidos. O Plano de Liquidação ainda não foi escrito. Não há data para a devolução dos recursos nem um valor definido por cota. Qualquer número que circule antes da divulgação e aprovação do plano é estimativa, não fato.
O que existe hoje são valores de laudo: o VP/cota é de R$ 34,61, muito acima da cotação de R$ 3,20 (daí o P/VP de cerca de 0,09). Mas, como explicado acima, valor de laudo é uma referência contábil — não é o cheque que o cotista recebe.
A distância entre esses dois números tem uma razão concreta. Cerca de 63% do patrimônio está na Cortel, uma participação minoritária em companhia fechada. Numa venda em bloco, sem controle da empresa e possivelmente sob pressão de tempo para encerrar o fundo, é esperado que o comprador peça desconto sobre o valor de laudo. Os jazigos (cerca de 28% do PL) são vendidos unidade a unidade e de forma lenta — vender 3.080 de uma vez pressiona o preço para baixo. Já os recebíveis (cerca de 7%) têm fluxo contratado até 2032, com juros de 1% ao mês, e são a parte mais previsível.
Some-se a isso a estrutura de cotistas: são 6.811 no total, mas há forte concentração — quem detém mais de 50% das cotas responde por 99,74% da base. Decisões relevantes dependem muito da vontade desse grupo majoritário.
Em resumo, os caminhos possíveis vão de uma liquidação relativamente rápida (se aparecerem compradores para a Cortel e os jazigos em prazo razoável) a uma liquidação arrastada por anos (se os ativos demorarem a ser vendidos ou saírem com desconto grande). Qual dos dois vai prevalecer, e por qual valor, só o Plano de Liquidação e a execução dele vão dizer.
O que acompanhar
Para os cotistas e para quem observa o caso, os próximos marcos são:
- Divulgação do Plano de Liquidação — o documento com o passo a passo da venda dos ativos e da devolução dos recursos, elaborado por Mérito DTVM e Zion Gestão.
- Nova consulta formal — a votação que vai aprovar (ou não) o plano antes de ele ser executado.
- Relatórios trimestrais de governança — que devem trazer o andamento das vendas, o caixa do fundo e a atuação da Comissão de Cotistas.
- Notícias sobre a Cortel — qualquer avanço de venda da participação, distribuição de dividendos ou retomada de um IPO altera diretamente a maior fatia do patrimônio.
Para os números atualizados de patrimônio, ativos e cotação, veja a análise completa do CARE11.