CARE11: cota despencou 36% em um dia Relevância7,5
URGENTE

CARE11: cota despencou 36% em um dia — o que está acontecendo?

Sem comunicado, sem fato relevante. Entenda a queda atípica e o que vale esse fundo de cemitérios

Quem tinha CARE11 na carteira acordou no dia 15 de julho e viu a cota valendo 36% menos do que no fechamento do dia anterior. De R$ 3,20 para R$ 2,05, com uma mínima de R$ 1,86 no intradiário. Nenhum comunicado ao mercado. Nenhum fato relevante. Nenhuma explicação da gestora.

Este relatório responde as três perguntas que todo cotista está fazendo agora: (1) o que causou a queda? (2) o grupamento 5:1 explica alguma coisa? e (3) quanto esse fundo vale de verdade? Sem rodeios, com números e com uma faixa de preço justa no final.

Os números da queda

Fechamento 14/07
R$ 3,20
Mínima 15/07
R$ 1,86
Fechamento 15/07
R$ 2,05
queda de 36% no dia
Hoje (22/07)
R$ 2,50
recuperação parcial
Volume 15/07
64.231
cotas negociadas
Volume médio
~1.000
cotas/dia

O volume de 15/07 foi cerca de 60 vezes o giro diário normal do fundo, que costuma negociar entre 200 e 3.000 cotas por pregão. Desde o dia da queda, a cota se recuperou de forma irregular: R$ 2,26, depois R$ 2,22, R$ 2,23, R$ 2,35 e R$ 2,50 hoje. É uma recuperação, mas ainda muito abaixo dos R$ 3,20 de onde saiu.

Pergunta 1: o que causou a queda?

A resposta honesta começa pelo que não aconteceu: não houve comunicado ao mercado, nem fato relevante, nem qualquer notícia pública que justificasse a derrubada. A gestora Zion e a administradora Mérito DTVM não divulgaram nada no dia.

O detalhe importante é que esse padrão já tinha acontecido. Em maio de 2026, a própria B3 enviou um ofício à administradora questionando uma oscilação atípica das cotas — e a resposta foi que a gestora "não tinha conhecimento de fato que justificasse" o movimento. Naquele episódio, a cota caiu de R$ 3,70 para R$ 3,06. Em julho, o roteiro se repetiu, só que mais forte.

A explicação estrutural está na liquidez irrisória do fundo. CARE11 tem uma base de cotistas em queda (de 11.759 para cerca de 6.811) e uma concentração brutal: os pequenos cotistas mal chegam a 0,03% do float negociável, enquanto praticamente todo o capital (99,74%) está nas mãos de poucos grandes detentores. Em um book tão raso, uma única ordem de venda relevante é uma avalanche.

Faça a conta: se o giro normal é de 200 a 3.000 cotas por dia e alguém coloca 64.231 cotas à venda, não existe comprador suficiente para absorver esse volume sem que o preço desabe. A cota cai até encontrar quem topa comprar — e nesse fundo, esse ponto ficou lá embaixo, em R$ 1,86.

A leitura mais provável, portanto, é a saída de um cotista relevante, sem nenhuma notícia pública por trás. Não é preciso um escândalo para derrubar 36% de um fundo assim — basta um vendedor com pressa num mercado sem compradores.

Pergunta 2: o grupamento 5:1 explica alguma coisa?

Muita gente está confundindo a queda de julho com o grupamento (inplit) 5:1 que o fundo fez em fevereiro de 2026 — confirmado pela própria comunidade do ClubeFII (usuários como dogaum, Mark66 e GaldiSLZ relataram a errata). Vale separar as duas coisas com clareza.

Um grupamento junta cotas: no caso 5:1, cada 5 cotas viraram 1. Quem tinha 2.000 cotas passou a ter 400. Em contrapartida, o preço de cada cota é multiplicado por 5. É uma operação puramente contábil — o valor total da posição do investidor não muda. Só o número de cotas e o preço unitário mudam.

É isso que explica a divergência de dados que ainda circula por aí:

DocumentoNº de cotasVP por cota
Informe Anual 12/2025 (pré-grupamento)35,8 milhõesR$ 6,94
Informes Mérito DTVM 2026 (pós-grupamento)7,2 milhõesR$ 34,49

São exatamente o mesmo patrimônio, só expresso em bases diferentes de cotas (35,8M ÷ 5 ≈ 7,2M; R$ 6,94 × 5 ≈ R$ 34,49). A cotação atual de R$ 2,50 já é a cotação pós-grupamento.

Ponto central: a queda de julho NADA tem a ver com o grupamento. O grupamento foi em fevereiro e é neutro para o patrimônio. O que ele faz é alimentar a confusão — informes antigos com números diferentes ainda circulam, e isso deixa o cotista sem saber qual é a base correta. Mas confusão de dados não derruba preço; venda em book raso derruba.

Pergunta 3: quanto vale de verdade?

Aqui está a pergunta que realmente importa. O VP por cota de R$ 34,49 é o valor patrimonial contábil — quanto o fundo diz valer nos seus balanços. Mas esse número não é o que o ativo valeria num mercado livre, e o motivo é a composição da carteira.

Cerca de 63% do patrimônio está numa participação de 19,92% da Cortel Holding S.A. — uma companhia fechada, sem ações negociadas em bolsa. Esse ativo é avaliado por laudo (metodologia FCFF/WACC, o chamado "Nível 3" de valor justo, a categoria contábil de ativos sem preço de mercado observável). Não existe comprador imediato: o IPO da Cortel, mandatado à XP em 2021, foi cancelado. Ou seja: o valor de R$ 157,5 milhões atribuído à Cortel é uma estimativa de modelo, não um cheque que se pode descontar amanhã.

Um investidor sério não paga o valor contábil por um ativo ilíquido — aplica haircuts (deságios) que refletem a dificuldade de vender. Abaixo, uma reavaliação conservadora do patrimônio:

AtivoValor contábilHaircutValor ajustado
Equity Cortel (63% do PL)R$ 157,5 Mi75% (iliquidez)R$ 39 Mi
Jazigos Morumby (28%)R$ 70,1 Mi50% (venda lenta)R$ 35 Mi
Recebíveis (7%)R$ 17,9 Mi10%R$ 16 Mi
Caixa / RF (2%)R$ 3,4 Mi0%R$ 3,4 Mi
NAV ajustadoR$ 248,9 Mi~R$ 93 Mi

Dividindo o NAV ajustado pelos 7,2 milhões de cotas, chega-se a um valor conservador de aproximadamente R$ 12,90 por cota. Num cenário pessimista, em que a Cortel leva um haircut de 90% (praticamente reconhecendo que aquele equity vale pouco), o patrimônio ajustado cai para cerca de R$ 58 milhões — ou R$ 8,00 por cota.

O que isso revela: a cotação atual de R$ 2,50 está abaixo até do cenário mais pessimista (R$ 8,00). O mercado está precificando o fundo como se a Cortel valesse praticamente zero e ainda houvesse perdas relevantes nos jazigos. Isso pode ser exagero. Mesmo no pior cenário modelado aqui, há um upside teórico de mais de 3x — mas sem prazo definido e sem nenhuma renda no caminho.

A faixa de preço justa

Faixa justa especulativa: R$ 3,00 – R$ 5,00 por cota

Essa faixa reflete um forte desconto sobre o NAV ajustado conservador (R$ 12,90) para compensar iliquidez extrema, ausência total de renda e governança frágil. Mas ela só faz sentido para um perfil muito específico de investidor — alguém que:

  • Aceita zero renda por 5 anos ou mais além dos quase 5 que o fundo já acumula sem distribuir.
  • Tem estômago para ver o preço oscilar 30% a 40% em um único dia, sem aviso, como aconteceu agora.
  • Entende que o destravamento (um eventual IPO da Cortel, uma venda estratégica da participação ou o início de distribuições) não tem data marcada — pode acontecer em anos ou nunca.

O que o cotista deve fazer?

Se você já tem CARE11 e está no prejuízo: a decisão certa não passa pelo preço que você pagou. Isso é custo afundado — dinheiro que já foi, e que não deve ancorar a escolha de agora. A pergunta correta é outra:

Você compraria CARE11 hoje, a R$ 2,50, sabendo que: (a) o fundo não vai pagar dividendo pelo menos em 2026; (b) é extremamente ilíquido, com book onde uma venda derruba tudo; e (c) tem governança frágil, com troca de administrador conturbada e demonstrações financeiras atrasadas?

  • Se a resposta for não: a decisão coerente é sair, mesmo que parcialmente e mesmo com a liquidez ruim de agora. Manter só porque "já caiu muito" é deixar o custo afundado decidir por você.
  • Se a resposta for sim: então você está fazendo, conscientemente, uma aposta especulativa de longo prazo no destravamento da Cortel. Nesse caso, mantenha posição pequena (sizing baixo) e não faça aportes adicionais — não jogue bom dinheiro atrás de dinheiro parado.
  • Se você é novo investidor: evite. Há dezenas de FIIs bem geridos, líquidos e com yield real pagando todo mês. CARE11 é a exceção que confirma a regra do que não fazer com renda passiva. A tentação do "está barato" aqui é uma armadilha de liquidez.

Para quem não conhece: o que é o CARE11

O Brazilian Graveyard & Death Care Services FII é o único FII do Brasil focado no setor de death care — cemitérios, crematórios e serviços funerários. Constituído em dezembro de 2011, é pioneiro do nicho. A carteira, majoritariamente via participação na Cortel, dá exposição a cerca de 16 cemitérios, 8 crematórios, 2 cremapets, agências funerárias e planos funerários, distribuídos por 6 estados.

O setor é, em tese, defensivo: o envelhecimento da população garante demanda constante e pouco sensível a ciclos econômicos. O problema não é o setor — é que o fundo nunca conseguiu transformar essa solidez em renda para o cotista. São R$ 248 milhões de patrimônio quase todo travado em papel ilíquido, com apenas R$ 3,4 milhões em caixa e sem distribuir um centavo desde setembro de 2021.

P/VP
0,072
desconto de 93% sobre o VP
Dividendo mensal
R$ 0,00
sem distribuir há ~5 anos
Patrimônio Líquido
R$ 248,3 Mi
Cotistas
~6.811
era 11.759

O histórico de governança reforça o alerta: último dividendo em setembro de 2021 (R$ 0,0017/cota), troca conturbada de administrador (Trustee → Mérito DTVM em julho/2025), retenção de documentos pelo antigo administrador atrasando as demonstrações financeiras auditadas de 2025, e resultados no vermelho — prejuízo de R$ 1,42 milhão em 2025 e resultado financeiro negativo de R$ 477 mil no 1º trimestre de 2026, com dividendos declarados de R$ 0.

Conclusão

Nota 3,0 / 10 — VENDA

O problema do CARE11 não é o setor. Death care é um negócio sólido, defensivo e com demanda perene. O problema é a estrutura do fundo: patrimônio ilíquido concentrado numa empresa fechada, sem renda há quase 5 anos, governança ainda em estabilização e uma base de cotistas encolhendo.

A queda de 36% em julho não muda a análise — ela a confirma. É exatamente o comportamento esperado de um ativo com volume irrisório, onde qualquer venda relevante vira uma avalanche de preço. Pode haver upside teórico caso a Cortel destrave valor um dia, mas é uma aposta especulativa sem data e sem renda no caminho. Para a imensa maioria dos investidores — os que precisam de renda, liquidez ou previsibilidade — CARE11 continua sendo um VENDA.