O Copom abre nesta terça-feira (3) a reunião que define a Selic, com decisão na quarta (4). Para Marcela Kawauti, economista-chefe da Lifetime, o corte vem agora; o que está em aberto é o de dezembro, e dele depende por quanto tempo os juros altos continuam pesando no seu caixa e na bolsa.
O Copom vai cortar a Selic nesta reunião?
Sim, na avaliação de Marcela Kawauti, ouvida pelo Money Times: “Eu acredito que ele corta agora, porque isso já está na conta”. “Já está na conta” quer dizer que o mercado já embutiu a redução nos preços. A decisão em si, portanto, não deve ser a surpresa da semana.
O Comitê de Política Monetária, o Copom do Banco Central, se reúne na terça e na quarta. A atenção dos analistas está menos no corte e mais no tom que o BC adotar sobre o que vem depois, porque é o tom que move juros futuros, câmbio e bolsa nos dias seguintes.
As fontes que recebemos não informam o nível atual da Selic nem o tamanho do corte esperado, e por isso não colocamos esses números aqui. Para ver a taxa vigente e a data da próxima reunião, a página da Selic é o caminho.
Por que dezembro fica em dúvida?
Porque três variáveis estão empurrando a inflação projetada para cima ao mesmo tempo. Segundo Kawauti, a combinação de piora fiscal, maior estímulo à demanda e dólar mais alto pressiona a inflação que o Banco Central projeta e, com isso, limita o espaço para cortar juros.
“Não acho que encerra o ciclo, mas ele funciona de verdade como limitador.”Marcela Kawauti, economista-chefe da Lifetime, ao Money Times
Há um mecanismo concreto por trás disso. Os modelos do Banco Central usam as expectativas de mercado para inflação e câmbio, e, de acordo com a economista, essas expectativas vão incorporar a revisão do cenário ao longo desta semana. Ela vê a mudança chegando às projeções do BC já nesta reunião. Se as expectativas continuarem piorando, o Banco Central pode ficar sem espaço para fazer a última redução do ano.
- A desaceleração da atividade abre espaço para reduzir os juros, na leitura de Kawauti.
- A depreciação do real pode contrabalançar esse efeito e manter a inflação projetada mais alta.
- A deterioração das expectativas de inflação tira do BC a justificativa para continuar cortando.
- A piora fiscal e o maior estímulo à demanda reforçam a pressão sobre os preços.
É o placar que ela descreve: uma força a favor do corte contra três que o limitam. Como esse cabo de guerra afeta a conta de quem investe? É o que vem a seguir.
O que muda para quem investe em renda fixa e ações?
A leitura é de juros altos por mais tempo. Para o caixa e para a renda fixa pós-fixada, isso mantém a remuneração atrativa enquanto o ciclo de queda segue sob vigilância: o corte reduz o rendimento aos poucos, sem derrubá-lo. Para quem está de olho nas taxas, vale rever como o mercado já vinha reprecificando os juros futuros, como mostramos na cobertura do salto nas taxas dos DIs na primeira semana pós-eleição.
Nas ações, o efeito é de cautela. Juros em patamar elevado por mais tempo encarecem o custo de capital e reduzem o apetite por ativos de risco. Na nossa rodada de mercado desta terça, o Ibovespa recuava 0,75%, aos 167.921,80 pontos, com o mercado esperando o desfecho da reunião e o cenário fiscal no radar.
Se você tem dinheiro em caixa ou em pós-fixados, o corte desta semana não deve mudar o seu dia a dia: o rendimento continua alto, só um pouco menor. A decisão que pode mexer no planejamento é a de dezembro. Quem conta com uma queda mais forte dos juros para ações ou imóveis deve tratar esse cenário como incerto, e não como garantido.
Se o corte de dezembro não vier, o ciclo acabou?
Não, segundo a economista: ela diz que o cenário atual não encerra o ciclo, mas funciona como limitador. A diferença importa: um ciclo limitado pode seguir com cortes menores ou mais espaçados, enquanto um ciclo encerrado significaria Selic parada.
O dólar é uma das três peças dessa conta. Quem quiser acompanhá-lo no dia a dia encontra a cotação e o valor justo na página do dólar. O pano de fundo fiscal também é antigo: o economista Gustavo Loyola já havia feito um alerta fiscal sobre a Selic em dois dígitos, que ajuda a entender por que o risco de juros altos por mais tempo é discutido há semanas.
Em resumo: Marcela Kawauti, da Lifetime, espera o corte desta quarta, porque ele já está nos preços. O que ela vê em aberto é dezembro, que depende de fiscal, dólar e expectativas de inflação. Até lá, a regra prática é a mesma: tratar juros altos como o cenário-base, e uma queda maior como bônus, não como plano.