Durigan diz que nomeações ao BC terão "rigor técnico" — mas ainda não falou com Lula sobre os nomes Relevância2,0
INICIANTE PTENES

Dario Durigan fala em rigor técnico para o Banco Central e ajustes nas contas

Ministro da Fazenda promete perfis técnicos para a diretoria do BC, mas ainda não tratou do tema com o presidente nem definiu datas

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse nesta terça-feira (03/11) que os novos diretores do Banco Central serão escolhidos com "rigor técnico" e "diferentes perfis". No mesmo fôlego, afirmou que ainda não conversou com o presidente Lula sobre indicações. Para quem tem renda fixa, fundos imobiliários ou ações, o que veio é uma promessa de critério, não uma decisão.

Durigan garantiu que os novos diretores do BC serão técnicos?

Garantiu a intenção, não os nomes. Em entrevista a jornalistas, o ministro afirmou que as nomeações respeitarão "rigor técnico" e contemplarão "diferentes perfis". Ele não citou candidato, não disse quantas vagas estão em jogo nem apontou quando as indicações saem. A própria fala admite que o assunto ainda não chegou ao presidente: Durigan disse não ter tido a oportunidade de tratar do tema com Lula.

Essa ordem importa. Quando alguém promete um critério antes de existir um nome, a promessa só vale quando for confrontada com a lista final. É a lista que o mercado vai julgar, e não a frase. Por enquanto, o investidor tem uma declaração de princípios de um ministro, em uma terça-feira sem ato oficial algum.

Por que um ministro da Fazenda fala do Banco Central num dia sem decisão?

Porque havia ruído a apaziguar. Segundo Durigan, Lula não tem tido agenda com outros economistas, e nas conversas com o próprio ministro não é tratado "nada que justifique ao mercado ter uma posição de medo". Ele ainda falou em "angústias que estão aparecendo". A fonte não detalha o que motivou a pergunta dos jornalistas, mas o tom da resposta é de quem tenta baixar a temperatura antes que ela suba.

Esse tipo de recado costuma ser lido junto com a política fiscal, e foi o que o ministro fez ao emendar o tema do BC com o do ajuste das contas. A sequência dá a medida do que ele quis passar:

“Nós estamos tratando de um ajuste gradual, que respeite os compromissos de campanha, que seja justo em relação aos mais pobres, em relação à progressividade que é necessária ser buscada no nosso sistema.”Dario Durigan, ministro da Fazenda, em entrevista a jornalistas nesta terça-feira

Na sequência, ele completou: "Com toda a tranquilidade, melhorando as contas públicas, melhorando a vida das pessoas, o presidente vai ter tempo para responder todas essas angústias que estão aparecendo". Mas o que significa "gradual" quando falta um número?

O que "ajuste gradual" quer dizer para as contas públicas?

Pelo que Durigan disse, três condições: respeitar os compromissos de campanha, ser justo com os mais pobres e buscar mais progressividade no sistema. São critérios políticos, não metas. A fala reportada não traz valor de economia, prazo nem medida concreta. "Gradual" descreve o ritmo, mas não diz até onde nem em quanto tempo.

Para ver o que já está em discussão, vale revisitar nossa cobertura da proposta de mudar a meta fiscal. É nesse debate que a palavra "gradual" vai ganhar ou perder substância.

O mercado costuma cobrar a conta do ajuste na trajetória da dívida. O acompanhamento da dívida bruta de setembro mostra o ponto de partida contra o qual qualquer ajuste será medido. Resta separar, de forma objetiva, o que a declaração entrega do que deixa em aberto.

O que a declaração resolve e o que deixa em aberto?

TemaO que Durigan disseO que a fonte não informa
Indicações ao BCSerão feitas com "rigor técnico" e "diferentes perfis"Nomes, número de vagas e data
Conversa com LulaAinda não houve oportunidade de tratar do temaQuando o assunto entra na agenda
Influência externaLula não tem agenda com outros economistasQuem motivou a pergunta ou o ruído
Ajuste fiscalGradual, justo com os mais pobres, com progressividadeMeta, prazo e medidas

A coluna da direita é maior que a do meio, e é ela que decide o efeito sobre preços de ativos. Sobre o que isso pesa na carteira, a resposta é mais direta do que parece.

Isso mexe na Selic, no dólar ou na minha carteira?

Não diretamente. A Selic é decidida pelo Copom, comitê formado pela diretoria do Banco Central. Por isso quem entra na diretoria importa para o juro lá na frente. Mas nada na fala de Durigan altera a taxa hoje, e a fonte não traz sinal de decisão iminente. O canal de efeito é indireto: a confiança do mercado em quem vai conduzir a política monetária. Para entender por que esse juro pesa tanto na renda fixa e nos fundos imobiliários, vale ler por que a Selic é tão alta no Brasil.

O que isso muda para quem investe

Hoje, nada que exija ação. A declaração é intenção de um ministro, sem nome, sem prazo e sem meta numérica. Quem tem Tesouro, CDB, fundos ou ações não ganha informação nova para recalibrar carteira. O que passa a contar é o que vier depois: os nomes que o governo escolher e os números do ajuste. Mexer na carteira por causa de uma entrevista é decidir com a informação mais fraca que existe.

O que acompanhar daqui para a frente?

1

Os nomes e o calendário das indicações — Durigan ainda não falou com Lula; o primeiro fato novo é o governo anunciar quem e quando.

2

Se os "diferentes perfis" aparecem na lista — a promessa se confirma ou não pela composição final, não pela frase de hoje.

3

Meta e prazo do ajuste — "gradual" só vira informação quando vier com valor, calendário e medidas; até lá é descrição de ritmo.

4

A reação da curva de juros — se o mercado passar a precificar mais ou menos risco fiscal, o efeito aparece primeiro nos títulos prefixados e atrelados à inflação, e só depois nas ações e nos fundos imobiliários.