DXCO3: o que aconteceu no 3T26 — prejuízo de R$ 142 milhões com caixa livre de R$ 635 milhões
INTERMEDIÁRIO PTENES

DXCO3 registra prejuízo de R$ 142 milhões no 3T26 — o que aconteceu com a empresa?

Companhia gerou R$ 635,5 milhões em caixa livre e cortou a dívida líquida, mesmo com o prejuízo contábil amplificado pela Selic acima de 13%.

A Dexco S.A. publicou prejuízo líquido de R$ 142 milhões no 3T26 — e, no mesmo trimestre, gerou R$ 635,5 milhões em caixa livre. Essa combinação define o que há para entender no resultado: a última linha sangrou, mas a operação produz dinheiro.

O que aconteceu com a DXCO3 no 3T26?

A Dexco S.A. reportou à CVM o press-release com os resultados do 3T26: receita líquida de R$ 2,34 bilhões (+9,8% sobre o 3T25), EBITDA Ajustado e Recorrente de R$ 585 milhões, e prejuízo líquido de R$ 142 milhões — contra lucro de R$ 14,2 milhões um ano antes.

O resultado acumulado em nove meses de 2026 chegou a um prejuízo de R$ 55,4 milhões, ante lucro de R$ 111,3 milhões no mesmo período de 2025. A reversão é expressiva. A Dexco aponta dois canais: despesas financeiras amplificadas pela Selic acima de 13% ao ano e custos não recorrentes de reestruturação industrial — fechamento da fábrica de louças sanitárias em Recife (PE) e paralisação de uma linha de metais em São Paulo (SP). Esses custos reduzem o lucro contábil sem drenar o caixa da mesma forma, o que explica o gap entre o prejuízo e a forte geração de caixa.

Indicador 3T26 3T25 Variação a/a
Receita líquida (R$ mi) 2.336 2.128 +9,8%
Resultado líquido (R$ mi) (142) 14 inversão
Dívida líquida (R$ bi) 4,78 5,59 –14,4%

Por que o caixa cresceu se o lucro desapareceu?

O fluxo de caixa livre total chegou a R$ 635,5 milhões no 3T26 e a R$ 991,2 milhões no acumulado do ano — resultado que a Dexco atribui a geração operacional mais forte, liberação de capital de giro e entradas não recorrentes. O efeito direto foi a queda da dívida líquida de R$ 5,14 bilhões no 2T26 para R$ 4,78 bilhões no 3T26, redução de R$ 352 milhões em um trimestre e de R$ 802 milhões em 12 meses. A relação Dívida Líquida/EBITDA recuou para 2,36x.

Prejuízo contábil e geração de caixa medem coisas diferentes. Depreciação, amortização e custos de encerramento de fábrica reduzem o lucro sem desembolso imediato de caixa. Com R$ 4,78 bilhões de dívida e Selic acima de 13% ao ano, a despesa financeira anual da companhia provavelmente supera R$ 600 milhões — o que, sozinha, pode converter um EBITDA positivo em prejuízo líquido. O press-release não abre essa linha no trecho disponível, mas a aritmética aponta esse caminho como principal explicação para a discrepância.

O EBITDA Pro Forma, que inclui a participação de 49% da Dexco na LD Celulose via equivalência patrimonial, chegou a R$ 783,6 milhões no 3T26 — crescimento de 9,8% sobre o 2T26.

Qual divisão sustenta a empresa e qual ainda drena?

A madeira é o pilar operacional. Com EBITDA de R$ 535 milhões e margem de 32,6%, a divisão manteve performance mesmo com volume de embarques 12,5% menor que no 3T25 — a empresa optou deliberadamente por rentabilidade em vez de volume, o que explica a queda no embarque sem colapso de margem. A LD Celulose, joint venture da qual a Dexco detém 49%, entregou EBITDA de R$ 403,8 milhões com margem de 49,5% (medido sobre 100% das operações da JV). Os preços de celulose de dissolução subiram ao longo do 3T26 e o EBITDA da JV cresceu 62,8% — o impacto chega ao balanço da Dexco proporcionalmente, via método de equivalência patrimonial.

MadeiraR$ 535 mi
LD Celulose (JV, 100%)R$ 404 mi
Metais e LouçasR$ 57 mi

Revestimentos cerâmicos: EBITDA de –R$ 7 milhões no 3T26 — apesar do volume ter crescido 6,3% sobre o 3T25. A pressão intensa de preços no setor mantém a divisão no vermelho operacional.

A cerâmica é o ponto fraco sem perspectiva imediata de virada. A divisão de revestimentos cerâmicos teve EBITDA negativo mesmo com volume sequencialmente em alta (+7,2% sobre o 2T26). A gestão descreve excesso de oferta no mercado como causa da pressão de preços — um problema setorial, não de execução interna, mas que drena o consolidado enquanto perdurar. A divisão de metais e louças sanitárias entregou R$ 57 milhões em EBITDA com estratégia de seletividade comercial, à medida que a demanda doméstica arrefece.

Dentro desse quadro, a reestruturação anunciada tem lógica de disciplina de capital: encerrar a fábrica de louças sanitárias em Recife e paralisar uma linha de metais em São Paulo reduz custo fixo e concentra capacidade nas unidades mais rentáveis. Quando os fechamentos foram anunciados em outubro, a ação DXCO3 subiu — o mercado leu como disciplina, não como desespero. O custo do encerramento entra, porém, no resultado deste trimestre.

O ambiente macro e o que pesa sobre a demanda

A Dexco opera em materiais de construção e reforma — madeira, louças, metais, cerâmica — e é diretamente sensível ao ciclo de crédito imobiliário. O press-release da companhia descreve um 3T26 marcado por sinais claros de desaceleração: o IBC-Br recuou 0,6% nos três meses encerrados em agosto; o crédito ao consumidor segue restritivo, com inadimplência e endividamento em níveis recordes; e as condições para renovação e reforma de imóveis permanecem pressionadas pela combinação de renda comprimida e juros altos. O Copom cortou a Selic de 14,0% para 13,75% ao longo do trimestre — um alívio marginal para o custo financeiro da Dexco e para a demanda por crédito imobiliário, mas ainda longe de uma virada de ciclo. O segmento imobiliário popular, impulsionado pelo Minha Casa, Minha Vida, seguiu forte, mas o mercado médio e alto — que usa proporcionalmente mais os produtos da Dexco — deu sinais de desaceleração. No setor de construção civil mais amplo, a MRV registrou records operacionais no trimestre anterior em grande parte pela demanda do MCMV — mas os efeitos desse segmento chegam com defasagem à cadeia de materiais de acabamento onde a Dexco atua.

O que isso muda para quem tem a ação

O resultado do 3T26 tem duas leituras simultâneas, e quem tem DXCO3 precisa escolher em qual se apoia. A leitura negativa: prejuízo pelo segundo semestre consecutivo, cerâmica sangrando e Selic que corrói a linha financeira. A leitura positiva: caixa livre robusto, desalavancagem em marcha (dívida caiu R$ 802 milhões em 12 meses) e divisão de madeira com margem acima de 32%. A nota de qualidade do Rico aos Poucos para DXCO3 é de 4,7 de 10 — reflete exposição cíclica, dívida ainda significativa e setor pressionado. Para quem está posicionado, a cerâmica e o custo financeiro são os dois medidores a acompanhar; para quem avalia entrar, a virada de ciclo nos juros e a recuperação de preços na cerâmica são o que decidem o momento.

1

Cerâmica voltando ao positivo — enquanto o EBITDA da divisão de revestimentos seguir negativo, o consolidado tem um lastro de destruição de valor que a madeira e a celulose cobrem mas não apagam. Reversão para qualquer resultado positivo já sinaliza que a pressão de preços setorial está cedendo.

2

Dívida líquida/EBITDA abaixo de 2,0x — a empresa está em 2,36x; o setor de materiais de construção opera confortavelmente entre 1,5x e 2,0x. O ritmo atual de desalavancagem é positivo, mas ainda não chegou na zona de alívio para a linha financeira.

3

Ciclo de Selic abaixo de 12% — a queda dos juros reduz diretamente o custo do endividamento da Dexco e estimula crédito imobiliário, aquecendo a demanda pelos produtos de acabamento e renovação. Quanto mais rápido o Copom cortar, mais rápido o lucro líquido volta a terreno positivo.