Uma proposta vinculante de R$ 66,45 milhões mudou o rumo da recuperação do Fiagro FTCA11. O leilão judicial das fazendas que lastreiam o CRA Castilhos (5,70% da carteira) havia terminado em junho sem interessados. Agora, o relatório gerencial de setembro de 2026 formalizou que uma consulta formal foi aberta aos credores em 15/09/2026 para aprovar a venda direta da Fazenda Águia de Prata, localizada em Formosa do Rio Preto, no oeste baiano.
O que aconteceu com o FTCA11 e o CRA Castilhos?
A gestora Fyto Capital encontrou um comprador privado para a principal garantia do crédito em default. Três meses após os leilões judiciais terminarem vazios, a administração convocou uma Consulta Formal com os titulares do CRA Castilhos em 15 de setembro de 2026. O objetivo é aprovar a venda da Fazenda Águia de Prata pelo montante líquido de R$ 66.456.200,00. Se aceita, a transação liquida o passivo da Agrícola Formosa e devolve liquidez imediata aos detentores do papel.
Esse desfecho é decisivo para o fundo. O CRA Castilhos representa 5,70% da carteira de crédito do Fiagro FTCA11 e tinha vencimento original em 30/10/2025 com taxa contratada de CDI + 8,50%. O stop accrual do título foi um dos grandes responsáveis por derrubar o rendimento do fundo de R$ 0,14 por cota no fim de 2025 para a faixa atual de R$ 0,086.
Com a concretização do negócio, a gestão projeta um duplo alívio: a recuperação do principal e uma reprecificação positiva na cota contábil do fundo, revertendo as provisões por perda que foram lançadas ao longo do processo.
Quanto o FTCA11 pagou de dividendos em setembro e por que estabilizou?
O rendimento parou de cair e marcou R$ 0,086 por cota no mês de setembro. O valor representa um dividend yield mensal de 1,24% sobre o fechamento de mercado de R$ 6,95 do fechamento de setembro (ou cerca de 1,21% sobre os R$ 7,11 negociados em 20/10/2026), equivalendo a 134% do CDI já considerando o efeito bruto de isenção fiscal para a pessoa física.
Após a distribuição derreter de R$ 0,14 em novembro de 2025 para R$ 0,083 em julho de 2026, os números mostram que o dividendo encontrou uma sustentação técnica no patamar de R$ 0,086 a R$ 0,090. A distribuição do mês de setembro foi rigorosamente igual ao resultado contábil gerado no período: R$ 0,086 por cota, sem retenção de margem e sem consumo líquido de reservas extraordinárias.
Como está a situação dos outros créditos problemáticos da carteira?
O portfólio oficial mantém apenas dois ativos inadimplentes: Castilhos e Cotribá. O mercado financeiro vinha precificando temores em relação ao CRA Agrofito, apontado em conversas paralelas como um possível terceiro caso de estresse devido a boatos de waiver com carência estendida. Contudo, o documento comprova que o Agrofito segue listado na condição regular de adimplência na posição de setembro.
Com um patrimônio líquido de R$ 46,91 milhões e 27 operações em carteira, qualquer inadimplência gera um impacto visível sobre a rentabilidade total. A divisão atual de risco nos créditos monitorados fica desenhada da seguinte forma:
Fazenda Águia de Prata (BA) tem venda proposta de R$ 66,45 milhões sob consulta formal iniciada em 15/09.
Cooperativa em recuperação extrajudicial/execução com silos avaliados em R$ 150 Mi como garantia primária.
Título de CDI + 5,60% segue regular no relatório oficial, sem confirmação das especulações de calote.
No caso do CRI Cotribá, a dívida de R$ 1,2 milhão alocada pelo fundo (2,58% da carteira) conta com garantias reais pesadas em estruturas de armazenagem de grãos no Rio Grande do Sul. O LTV reportado de 0,28 oferece colchão patrimonial suficiente, mas a tramitação no Judiciário gaúcho trava o fluxo de recebimento de juros no curto prazo.
Por que o caixa do FTCA11 subiu para 46% do patrimônio?
A gestão preferiu estacionar quase metade do fundo no caixa para evitar marcações a mercado negativas. Em setembro, a alocação em ativos-alvo (CRAs e CRIs) recuou para 53,57% do patrimônio, contra 54,87% no mês anterior e 57,56% em julho. Na prática, mais de 46,43% do patrimônio líquido (cerca de R$ 21,78 milhões) está aplicado em instrumentos de liquidez e caixa.
A justificativa da Fyto Capital apoia-se no cenário macroeconômico adverso: taxas Selic elevadas por tempo prolongado, compressão de margens de produtores agrícolas e spreads de crédito excessivamente comprimidos no mercado secundário. Para a gestão, comprar títulos com spread baixo em momentos de juros longos voláteis gera risco de reprecificação para baixo nas cotas patrimoniais.
Existe um preço alto pago pelo cotista por essa blindagem. O caixa rende apenas o CDI puro, enquanto a carteira de crédito do fundo tem taxa média superior a CDI + 4,8% nos papéis atrelados ao DI e juro real médio nos papéis IPCA. Ter 46% do fundo rendendo taxa básica pura reduz a capacidade de geração de dividendo em pelo menos R$ 0,02 a R$ 0,03 por cota todos os meses.
O desconto de 32% no valor patrimonial compensa o risco?
A cota a R$ 7,11 embute um desconto severo frente ao valor patrimonial de R$ 10,52, mas a liquidez é restrita. O P/VP de 0,68 reflete o ceticismo do investidor com o histórico do fundo: são três nomes de gestoras em quatro anos (começou como EQIA11 pela EQI, passou para NCRA11 sob a NCH Brasil e hoje opera como FTCA11 na Fyto Capital).
Além da instabilidade institucional passada, o volume financeiro diário de negociação sofreu forte contração: fechou setembro em R$ 45.130,41 por dia, contra mais de R$ 85 mil reportados em meados do ano. Para quem tem posições maiores, montar ou desmontar posição sem movimentar o preço de tela exige paciência de semanas.
Se você tem o FTCA11 na carteira, o surgimento da proposta formal de R$ 66,45 milhões na garantia do CRA Castilhos afasta o risco de perda total nesse crédito e abre caminho para recuperação patrimonial nos próximos meses. No entanto, o dividendo não vai saltar de imediato para R$ 0,12 enquanto a gestora mantiver 46% do patrimônio parado no caixa.
Quais são os gatilhos para acompanhar no FTCA11 agora?
O futuro da cotação e do rendimento depende do resultado da consulta formal e da velocidade de realocação do caixa. Para entender se a tese do fundo está se recuperando ou estagnando, o investidor deve monitorar quatro réguas objetivas nos próximos relatórios:
Resultado da Consulta Formal do CRA Castilhos — Aprovação da venda da Fazenda Águia de Prata pelos credores por R$ 66,45 milhões e posterior quitação do papel (5,70% do portfólio).
Percentual do caixa abaixo de 30% — Redução dos atuais 46,43% em caixa via reinvestimento em CRAs com spread superior a CDI + 4,50%, impulsionando a distribuição recorrente.
Status de adimplência do CRA Agrofito — Manutenção do crédito de 5,15% da carteira sem registro de default formal nos próximos relatórios mensais.
Desfecho judicial do CRI Cotribá — Homologação do plano de pagamento ou avanço na execução das garantias de silos de armazenagem avaliadas em R$ 150 milhões.
Veredicto do Rico aos Poucos
O Fiagro FTCA11 deu um passo relevante para sanear o seu principal foco de desgaste ao colocar em votação a liquidação da garantia do CRA Castilhos por R$ 66,45 milhões. Com a cotação a R$ 7,11 e P/VP de 0,68, a assimetria patrimonial é favorável para quem já estava posicionado e absorveu a crise. Para novas compras, o freio ainda é o excesso de prudência: com quase metade do patrimônio estacionado no caixa e rendendo apenas CDI puro, o dividendo de R$ 0,086 por cota deve permanecer no mesmo patamar no curto prazo.