O Ibovespa chegou a cair até 2% na primeira sessão de novembro, segundo a InfoMoney, que atribui o movimento a temor fiscal, à Petrobras e a especulações sobre o plano do governo. Para quem investe, o que pesa é o ponto de partida: o índice já vinha de uma baixa expressiva em outubro e na semana passada.
Por que o Ibovespa está caindo hoje?
Na leitura da InfoMoney, são três pressões somadas, e o título da reportagem as lista nesta ordem: o fiscal, a Petrobras e as especulações. A matéria descreve o recuo como uma "forte perda" que se soma às quedas anteriores do índice. O número de até 2% é a perda máxima da sessão, não necessariamente o fechamento.
O que a reportagem não nos entrega: o resumo a que tivemos acesso não traz o fechamento do índice, a pontuação, as ações que mais pesaram nem o que exatamente a InfoMoney chama de especulações. A chamada da matéria liga essas especulações ao plano fiscal do governo. Onde faltar dado, não vamos preencher.
Isso ajuda a separar o que é fato do que é interpretação. A queda aconteceu e foi publicada pela InfoMoney. As causas são a explicação dela, e é a explicação de um único veículo. Vale então entender o que cada uma das três pressões costuma significar para o seu bolso.
De onde o Ibovespa vinha antes desta queda?
De um outubro difícil, que nós já vínhamos cobrindo. A sequência abaixo reúne o que publicamos nas últimas duas semanas, e a sessão de hoje é o capítulo mais recente dela.
Quem acompanhou a nossa cobertura da queda semanal reconhece o pano de fundo: já naquele texto o temor fiscal era uma das explicações. O que há de novo agora é a Petrobras entrando na lista e o termo "especulações", que sugere notícia ainda não confirmada. Quem quiser ver o nível atual do índice pode consultar a página do Ibovespa.
Por que o temor fiscal pesa tanto na Bolsa?
Porque o fiscal alimenta o preço do dinheiro no país inteiro. Quando o mercado duvida de que as contas do governo fecham, passa a exigir juro mais alto para emprestar a ele, e o dólar tende a subir junto. Juro alto encarece a dívida das empresas e faz os lucros futuros valerem menos hoje, e é por isso que a Bolsa costuma cair nesses momentos mesmo quando nada mudou dentro das companhias.
Foi essa a conta feita por alguns bancos depois da reeleição. O Morgan Stanley, por exemplo, projetou dólar a R$ 5,60 e queda de 30% na Bolsa, e a nossa cobertura dessa projeção está no ar. Há também quem veja o cenário menos pesado: um banqueiro disse que o fiscal do novo mandato será melhor que o do anterior, ponto que reunimos em outra análise. As duas visões coexistem, e é essa disputa que o mercado precifica a cada notícia.
É nesse contexto que entram as "especulações" citadas pela InfoMoney. Num ambiente já nervoso, qualquer rumor sobre o plano fiscal do governo mexe com o preço antes de virar anúncio. Se o plano sair e convencer, o efeito pode se reverter. Se for desmentido ou decepcionar, o prêmio de risco continua no preço.
E a Petrobras, o que entra nessa conta?
A InfoMoney a coloca no título como segundo fator, mas o material a que tivemos acesso não detalha o que aconteceu com a empresa. O que podemos afirmar é o que vale sempre: a Petrobras é uma das maiores companhias do índice, então um movimento forte nas ações dela puxa o Ibovespa para o mesmo lado. E o desempenho da empresa depende do preço do petróleo, que acompanhamos à parte.
Há outro fio solto que o leitor acompanha: em outubro, o governo zerou os tributos federais da gasolina e abriu um crédito extraordinário por 30 dias, tema da nossa matéria sobre a medida. A InfoMoney não liga essa medida à queda de hoje, e nós também não: ela entra aqui só como assunto de combustíveis que continua em aberto.
Um dia de queda de até 2% não pede decisão por si só: a perda do pregão pode diminuir ou aumentar até o fechamento. O que merece atenção é a sequência. Três pressões diferentes agindo ao mesmo tempo, em cima de uma semana de forte baixa, indicam que o mercado ainda está em modo de proteção. Quem tem ações e fundos imobiliários sente o efeito nos preços, e quem tem renda fixa pós-fixada, com pouco risco de marcação, está menos exposto a esse tipo de oscilação. Vender por susto, depois de uma queda grande, costuma transformar perda de papel em perda definitiva; o que vale é saber se a sua tese depende de juro e câmbio comportados.
O que acompanhar daqui para frente?
Como o diagnóstico da InfoMoney é de três fatores, o acompanhamento também tem três frentes, mais uma conferência simples sobre o fechamento do índice.
O plano fiscal do governo — o que a InfoMoney chama de especulação precisa virar anúncio ou desmentido. Enquanto isso não acontece, o risco continua no preço.
O dólar — o retorno a R$ 5,40, patamar do choque pós-reeleição, indicaria estresse de volta. A projeção do Morgan Stanley, de R$ 5,60, é a régua mais pessimista que já cobrimos.
Petrobras e petróleo — como a reportagem não detalha o motivo, o caminho é conferir o que as ações da empresa fizeram e o que o petróleo fez no mesmo dia.
Fechamento versus mínima do dia — a perda de até 2% é o ponto mais baixo. Compare com o fechamento antes de concluir se foi pânico ou ajuste.
A resposta honesta à pergunta do título é que o mercado reagiu a temor fiscal, a notícias sobre a Petrobras e a rumores sobre o plano do governo, tudo sobre um índice já machucado. Quando a InfoMoney detalhar o que está por trás do trio, ou quando o governo falar, o quadro fica mais claro, e voltamos aqui com o que for confirmado.