Imposto Seletivo 2027: carro a diesel paga até 30%, elétrico a partir de 2,6%. E a conta de verdade fica para 2028 Relevância4,0
INICIANTE PTENES

Imposto Seletivo 2027: alíquotas do diesel ao elétrico

Medida provisória fixa alíquotas iniciais que repetem o IPI atual, enquanto o efeito no bolso e nos preços dos veículos fica adiado.

Em 2027, quem paga mais Imposto Seletivo é o carro a diesel. A medida provisória publicada pelo governo em 4 de novembro fixa alíquotas que chegam a 30% para esses modelos e partem de 2,6% para os elétricos. No bolso, a mudança é menor do que parece: segundo tributaristas ouvidos pela InfoMoney, a carga foi calibrada para repetir o IPI de hoje, e o aumento de preço que pode pesar fica para 2028.

Quem vai pagar mais Imposto Seletivo em 2027?

Entre os carros, quem usa diesel. Fora deles, cigarros e destilados. A MP 1.399/2026 parte de uma alíquota-base de 6,3% para automóveis e dá desconto de 2 pontos para elétricos e híbridos recarregáveis flex ou a etanol, e um acréscimo de 12 pontos para veículos a diesel. Somando potência e eficiência, as alíquotas poderão chegar a 30% para automóveis a diesel, enquanto veículos elétricos terão percentuais a partir de 2,6%.

A lógica vem de uma troca. Com a Reforma Tributária, as alíquotas do IPI para os veículos serão zeradas em 2027, e o Seletivo herda as regras do IPI Verde, criado em julho de 2025. Como a base de cálculo do novo imposto é diferente, a medida provisória determina que os percentuais sejam multiplicados por 1,21. Foi a saída que a Fazenda já vinha sinalizando, como contamos quando a Fazenda definiu as alíquotas e adiou a MP para depois do segundo turno.

Na mesma tabela, o carro a diesel pode pagar mais de 11 vezes a alíquota do elétricoConta nossa: alíquota máxima do diesel dividida pelo piso do elétrico citado na MP.

O tipo de motor muda a alíquota-base para cima ou para baixo, nesta ordem:

Motorização (automóveis)Ajuste sobre a base
Elétrico−2,0 p.p.
Híbrido recarregável flex/etanol−2,0 p.p.
Híbrido recarregável a diesel+3,0 p.p.
Híbrido completo a diesel+4,0 p.p.
Híbrido leve a diesel+5,5 p.p.
Gasolina+6,5 p.p.
Diesel+12,0 p.p.

Picape paga menos que SUV. Veículos de transporte de mercadorias, como picapes, furgões e camionetas, têm alíquota-base de 3,9%, e os ajustes são menores: o diesel soma 2,5 pontos e a gasolina, 2,25. Um automóvel a diesel na mesma faixa de potência, como um SUV, terá percentual de 25,8%. Isso leva a outra pergunta: se o governo quer premiar o carro limpo, por que o elétrico ainda paga?

Por que o carro elétrico continua pagando?

Porque o desconto é sobre a alíquota, não uma isenção. Segundo o Portal do Trânsito, os 2 pontos de redução, sozinhos, não zeram o imposto. Zero só para quem cumpre requisitos extras: o imposto também não incidirá para veículos com registro de versão sustentável. As fontes não batem no valor final do elétrico comum: uma cita piso de 2,6%, e outra, em um exemplo fictício, um carro elétrico pagaria 5,2% de Seletivo. A diferença vem dos outros critérios (potência, eficiência), que mudam de versão para versão.

Também ficam com alíquota zero veículos adquiridos por pessoas com deficiência, com Transtorno do Espectro Autista e por taxistas. Além disso, a medida provisória exclui caminhões do Imposto Seletivo. E a etiqueta, sobe em fevereiro?

Carro, cerveja e cigarro ficam mais caros em fevereiro?

Em regra, quase nada além do que já custam. As alíquotas valem a partir de 1º de fevereiro de 2027 (o efeito prático começa no dia 2) e reproduzem o IPI atual também para bebidas e fumo. O salto que aparece nos destilados é ilusão de ótica: as bebidas alcoólicas pagavam de 3,9% a 19,5% de IPI, e a faixa maior do Seletivo vem do fator de ajuste que mantém a carga.

Cigarros (+ R$ 3,50/maço)66,7%
Outros fumígenos37,5%
Destilados24%
Vinhos8%
Cerveja de malte4,2%
Bebidas açucaradas2,6%
Loterias e apostas0,5%

O detalhe que pode encarecer está na forma de cobrança, que a advogada Mônica Pereira Coelho, sócia do Barros de Arruda Advogados, explicou à InfoMoney:

“O Imposto Seletivo será cobrado uma única vez na cadeia: na venda pelo fabricante, na importação ou na extração.”Mônica Pereira Coelho, à InfoMoney

Segundo ela, como o tributo não gera crédito nas etapas seguintes, ele funciona como custo e tende a ir para o preço. E o Seletivo entra na base de cálculo dos outros impostos da reforma. Tributaristas ouvidos pelo Conjur dizem que o efeito cascata sobre a CBS, o IBS e o ICMS não foi enfrentado pela MP. Para cigarros e bebidas, nosso resumo do que a MP do imposto do pecado muda em 2027 detalha as exceções por produto. Para quem investe, porém, a pergunta é outra: o balanço de quem vende esses produtos.

O que muda para quem tem ações da Ambev, da Petrobras ou da Vale?

Para a Ambev (ABEV3), o curto prazo ficou mais claro, e isso é bom. O JPMorgan classifica a proposta como um evento de redução de risco para a Ambev, e aponta que a regulamentação adiou para 2028 a definição da cobrança por teor alcoólico, considerada o ponto de maior impacto. A conta do banco: se a alíquota de CBS for fixada em 11,3%, a Ambev precisaria reajustar os preços da cerveja em cerca de 1,3% para neutralizar 2027. O Safra estima que a carga sobre as vendas de cerveja sobe de 1 a 2 pontos percentuais. O mercado deu de ombros: no dia da MP, por volta das 11h, as ações recuaram 0,20%, a R$ 15,22.

O risco não sumiu. O mesmo JPMorgan projeta para a reforma um impacto de 3% no Ebitda da operação de cerveja da Ambev no Brasil até 2033, com pico de 5,4% em 2032. O Goldman Sachs aponta dúvidas sobre a Zona Franca de Manaus, que pesa para os fabricantes de refrigerante.

E o diesel na bomba? O Seletivo de 2027 não chega ao combustível. Petróleo, gás, minério de ferro e carvão pagam na extração, e as alíquotas ficam reduzidas a zero até 31 de dezembro de 2027. Para Petrobras e Vale, é um ano de trégua, não uma isenção: segundo a Casa Civil, essa isenção vai durar até a definição do regime permanente pelo Congresso. Tributaristas criticam que a MP olhou mais para a arrecadação do que para desestimular o consumo, um debate que conversa com os limites de quem o governo consegue taxar para arrecadar mais. Por isso, o calendário importa mais que as alíquotas de hoje.

O que ainda pode mudar e quando?

Tudo depende do Congresso, em duas votações. O Congresso vai analisar a medida e pode alterar as alíquotas. Depois vem a lei definitiva, que decide se 2028 traz aumento de carga.

1

Votação da MP até 31/12/2026: para valer em 2027, a MP precisa ser convertida em lei pelo Congresso até 31 de dezembro de 2026. Se mudar a alíquota da cerveja, o reajuste de 1,3% calculado pelo JPMorgan deixa de valer.

2

Projeto das regras permanentes até 31/05/2027: é nele que aparecem a cobrança por teor alcoólico e a alíquota da extração. Qualquer número acima de zero para petróleo e minério é a notícia ruim para Petrobras e Vale.

3

Preços a partir de fevereiro de 2027: repasse acima da inflação em cerveja e carros indica que a carga ficou maior que a do IPI, apesar da promessa de neutralidade.

Em resumo: 2027 é um ano de transição, com o diesel pagando mais e o resto mais ou menos como hoje. A decisão que pode mexer com preço de produto e de ação está marcada para o fim de maio.