Nada sumiu: a ação PGMN3 segue sendo a da Pague Menos, que acaba de informar à CVM um lucro líquido ajustado de R$ 96,3 milhões no terceiro trimestre de 2026, 19,5% acima do de um ano antes. O problema é que as vendas nas mesmas lojas, que cresciam 17,6%, agora avançam 5,6% — e é esse o sinal que o mercado vai pesar contra o lucro.
PGMN3: o que aconteceu?
A Empreendimentos Pague Menos S.A. entregou à CVM, às 18h25 de 04/11, o release de resultados do 3T26, em português e em inglês. Nenhuma das fontes que temos sugere que a ação tenha saído de negociação; o que mudou foi o balanço, não o papel. A receita bruta foi de R$ 4.429,3 milhões, alta de 6,9%. O EBITDA ajustado ficou em R$ 278,8 milhões, com margem de 6,3%, a mesma do 3T25, o que a companhia atribui a "eficiente controle de despesas".
O lucro cresceu bem mais que a receita e o EBITDA. A margem líquida ajustada passou de 1,9% para 2,2%. O trecho do release a que tivemos acesso não abre a conta entre o EBITDA e o lucro, então a causa dessa diferença fica sem explicação nas fontes.
Há uma conta que o próprio release permite fazer. Nos nove meses, o lucro ajustado foi de R$ 153,9 milhões para R$ 225,5 milhões (+46,5%). Tirando o terceiro trimestre dos dois lados, o primeiro semestre rendeu R$ 129,2 milhões neste ano contra R$ 73,3 milhões no ano passado, algo como +76%. O lucro continua subindo, mas em ritmo menor do que no começo do ano. Os números lado a lado:
| Indicador (R$ milhões, ajustado) | 3T25 | 3T26 | Variação |
|---|---|---|---|
| Receita bruta | 4.144,6 | 4.429,3 | +6,9% |
| Lucro bruto | 1.238,2 | 1.327,1 | +7,2% |
| Margem bruta | 29,9% | 30,0% | +0,1 p.p. |
| EBITDA ajustado | 260,1 | 278,8 | +7,2% |
| Lucro líquido ajustado | 80,6 | 96,3 | +19,5% |
| Margem líquida ajustada | 1,9% | 2,2% | +0,3 p.p. |
| Dívida líquida / EBITDA | 2,5x | 1,8x | -0,7x |
Duas ressalvas de método, ambas do próprio documento. As métricas seguem o padrão contábil anterior ao IFRS 16 (IAS 17 / CPC 06) e são ajustadas por eventos não recorrentes; o lucro desconsidera a participação de minoritários. Não é o lucro "de balanço" que o leitor encontra nas demonstrações financeiras. E se a margem de contribuição de 8,8% para 8,6% passou batida, ela também é parte da história: o ganho de lucro não veio de a loja render mais por real vendido, e sim de outras linhas do resultado. Falta saber o que sustenta as vendas.
A venda nas mesmas lojas perdeu fôlego?
Perdeu, e a própria empresa admite. O release diz que o crescimento foi menor "devido a bases de comparação progressivamente mais difíceis e a um ambiente de mercado mais desafiador". Nas mesmas lojas, o avanço de 5,6% equivale, nas palavras da Pague Menos, a duas vezes a inflação de medicamentos. Em doze meses, a queda foi de 12 pontos percentuais.
A receita total ainda cresce mais que as mesmas lojas porque a rede aumenta: de 1.667 para 1.705 lojas em um ano. No 3T26 foram 14 aberturas e 4 fechamentos; em doze meses, 46 aberturas, com foco no Norte e Nordeste e nas faixas de renda mais baixas. A companhia diz ter mais de 20 lojas em estágio avançado para abrir no 4T26. A venda média mensal por loja subiu de R$ 832 mil para R$ 868 mil, e o ticket médio, de R$ 94,39 para R$ 97,39.
O canal digital é o ponto mais forte do trimestre: passou de 19,8% para 24,6% da receita bruta, impulsionado pelo aplicativo, e a base ativa chegou a 22,6 milhões de clientes (+2,1%). Para comparar com outra empresa do setor de saúde que também publicou balanço agora, vale ver o resultado da Hypera no terceiro trimestre.
O caixa e a dívida compensam a desaceleração?
Em parte, sim. O fluxo de caixa operacional foi de R$ 164,8 milhões, cerca de três vezes o do 3T25, e soma R$ 690 milhões em doze meses. A relação entre dívida líquida e EBITDA caiu de 2,5x para 1,8x e está nesse patamar desde o 2T26, depois de 2,0x no 4T25 e 1,9x no 1T26. Ou seja, a melhora já não é novidade deste trimestre: ela se estabilizou.
Há duas ressalvas. O release informa que a dívida líquida considera o saldo de recebíveis antecipados, o que muda o que se entende por "dívida" na comparação com outras empresas. E o ciclo de caixa operacional piorou: de 68 dias no 3T25 para 72 dias no 3T26, depois de 69 no 2T26. Quatro dias a mais de capital preso em estoque e prazos significam que parte do caixa gerado precisa voltar para o giro da operação. A leitura interna da nossa redação vê o resultado como misto, justamente por esse par: margem e caixa melhores, giro mais pesado.
A ação PGMN3 foi extinta ou paga dividendos?
Não foi extinta: a companhia segue de capital aberto, divulgando resultados com o código PGMN3. A última cotação que temos, de 27/10/2026, era de R$ 2,93, com alta de 4,27% no dia e queda de 24,29% em 12 meses. Esse preço é anterior ao release, então a reação do mercado ainda não aparece nele. A nota de qualidade do Rico aos Poucos para a empresa é 5,3 de 10. Sobre dividendos, o material que temos do 3T26 não traz anúncio de proventos; o histórico de pagamentos, cotação e documentos fica na página da ação PGMN3.
A tese de que a Pague Menos cresce sem apertar a margem continua de pé: margem bruta, EBITDA e lucro subiram ou ficaram estáveis, e a dívida está menor que há um ano. O que enfraquece é a parte do "crescimento": vendas nas mesmas lojas em queda a cada trimestre e ciclo de caixa mais longo. Se o seu motivo para ter o papel era a história de lucro em alta, o trimestre ajuda; se era a de vendas acelerando, ele pede cautela. Não há nada no release que peça uma ação imediata, e o preço depende de como o mercado pesa um sinal contra o outro.
O que acompanhar nos próximos trimestres?
Vendas nas mesmas lojas — o 3T26 fechou em 5,6%, depois de 8,0% no 2T26. Se o 4T26 vier abaixo disso, a desaceleração segue; se estabilizar perto desse nível, a base de comparação mais difícil já está no preço.
Ciclo de caixa — estava em 72 dias, contra 68 um ano antes. Voltar para perto de 68 libera caixa; subir além de 72 consome parte do fluxo operacional.
Alavancagem — parada em 1,8x há dois trimestres. Uma nova queda mostra desalavancagem real; uma alta indicaria que a expansão está sendo financiada com mais dívida.
Aberturas de lojas — a empresa projeta mais de 20 inaugurações no 4T26. Se o número vier bem abaixo, o motor de crescimento da receita perde uma das duas pernas.