NEOE3 saiu de vez da Dardanelos — R$ 400 mi entram no caixa e o dividendo pode mudar Relevância4,0
INTERMEDIÁRIO PTENES

NEOE3 o que aconteceu com a venda da Dardanelos para a Itaú Asset

Companhia antecipa caixa com a saída da hidrelétrica, mas alavancagem acima de 3 vezes adia pagamento extraordinário.

A ação NEOE3 encerra um ciclo: a Neoenergia assinou contrato para vender sua participação remanescente na Usina Hidrelétrica Dardanelos e antecipa cerca de R$ 400 milhões ao caixa. A pergunta que o acionista faz agora é direta — esse dinheiro vai parar no bolso de quem tem a ação, ou some no balanço?

O que aconteceu com a NEOE3?

Em comunicado ao mercado entregue à CVM em 29 de outubro de 2026, a Neoenergia informou que assinou Contrato de Compra e Venda de Ações com o Altitude Fundo de Investimento em Participações Multiestratégia — fundo gerido pela Itaú Asset Management — para alienar a totalidade de sua participação de 25% na Brasil Hidro Participações S.A. A Brasil Hidro Participações detém como único investimento a Energética Águas da Pedra S.A. (EAPSA), empresa que opera a UHE Dardanelos, no Mato Grosso. Com isso, a Neoenergia conclui o desinvestimento integral na usina.

O negócio não começou agora. Em novembro de 2025, a Neoenergia anunciou a venda da maior fatia da UHE Dardanelos, retendo uma participação minoritária como parte do acordo original. Em abril de 2026, essa transação foi formalmente concluída. O que muda agora é que a Neoenergia vende a posição que havia conservado — e, desta vez, o comprador é a Itaú Asset Management, não a contraparte do negócio anterior.

21/11/2025Fato Relevante divulgado — Neoenergia anuncia a venda da maior parte da UHE Dardanelos, retendo 25% da Brasil Hidro Participações como condição do acordo
02/04/2026Fechamento formal — transação é concluída; participação indireta da Neoenergia na EAPSA fica restrita à fatia minoritária na holding
28/10/2026Contrato assinado — Neoenergia vende a participação remanescente à Itaú Asset Management e encerra o desinvestimento total em Dardanelos

Como chegam R$ 400 milhões se a fatia vale R$ 93,5 milhões?

À primeira leitura, os números não fecham: a participação na Brasil Hidro Participações está sendo vendida por R$ 93,5 milhões, mas a Neoenergia fala em "antecipação de caixa na ordem de R$ 400 milhões". A diferença vem de um crédito intercompany que também entra na operação.

A Elektro Renováveis do Brasil — subsidiária integral da Neoenergia — tinha emprestado R$ 265,8 milhões à própria Brasil Hidro Participações. O Contrato de Compra e Venda prevê a quitação integral desse empréstimo pelo comprador como condição da operação. Somando os dois componentes — R$ 93,5 milhões pelas ações e R$ 265,8 milhões pelo crédito —, a base chega a R$ 359,3 milhões. Ambos os valores estão sujeitos a correção monetária desde 2 de abril de 2026 até o fechamento efetivo; segundo o comunicado da Neoenergia, essa atualização eleva o total para a casa dos R$ 400 milhões.

Há um detalhe favorável ao vendedor: quanto mais tempo levarem as aprovações regulatórias, maior será a correção acumulada — e, consequentemente, maior o caixa recebido. O valor de R$ 400 milhões é uma estimativa mínima, não um teto.

Por que a Neoenergia está saindo de hidrelétricas?

A Dardanelos é a peça mais recente de uma estratégia consistente de desinvestimento em ativos onde a Neoenergia é sócia passiva ou minoritária. Nos doze meses anteriores, a companhia também alienou participações na UHE Baixo Iguaçu, na transmissora Itabapoana e em linhas de transmissão vendidas ao parceiro GIC. Na fila ainda estão a fatia de 10% na UHE Belo Monte — a maior hidrelétrica do país — e a termelétrica Termopernambuco.

O denominador comum é o balanço. Com um programa de investimentos orgânicos da ordem de R$ 9 a 10 bilhões anuais em expansão de redes e geração renovável — conforme informado nos resultados do quarto trimestre de 2025 —, a Neoenergia encerrou aquele período com uma relação dívida líquida/EBITDA de 3,4 vezes. Está dentro do covenant contratual de 4,0 vezes, mas acima do conforto que o mercado espera de uma elétrica de portfólio regulado. A gestão declarou publicamente que a meta é se aproximar de 3 vezes ao longo de 2026.

A lógica é cirúrgica: a companhia não quer se desfazer de distribuição nem de geração eólica que ela mesma opera. Quer sair de posições onde não tem controle — e consolidar os ativos onde, pelo contrário, está aumentando participação, como fez recentemente na subsidiária de transmissão. Desinvestir de Dardanelos libera capital e simplifica a estrutura societária ao mesmo tempo.

O dividendo vai mudar com essa entrada de caixa?

No curto prazo, a resposta direta é não. Essa entrada é relevante para o fluxo de caixa, mas modesta diante da escala da Neoenergia: a dívida líquida da companhia supera os R$ 40 bilhões, e esse caixa por si só moveria o índice de alavancagem em menos de 0,05 vez. A destinação mais provável é reforçar a posição de caixa ou amortizar dívida pontual, não declarar um extraordinário vinculado a esta transação especificamente.

O ponto que importa para o acionista de longo prazo é outro. Em comentários divulgados anteriormente ao mercado, o CEO da Neoenergia disse que, ao se aproximar da meta de 3 vezes dívida/EBITDA, a companhia "começará a acumular muito caixa" e a administração deverá propor ao conselho alternativas: "ou mais investimento, ou mais payout". A Dardanelos, somada às demais vendas em curso, aproxima esse ponto de inflexão — mas ele ainda não chegou.

O último provento declarado pela companhia foi de R$ 0,81 por ação em dezembro de 2025, pago em fevereiro de 2026. Não há sinalização de dividendo extraordinário atrelado a esta operação.

O que isso muda para quem tem a ação NEOE3

Esse caixa não vai direto para o seu bolso — ele entra no balanço da Neoenergia e mais provavelmente reduz dívida do que vira dividendo imediato. O impacto real aparece no balanço anual: se a série de desinvestimentos levar o índice de alavancagem abaixo de 3 vezes, a gestão sinalizou que o payout aumenta. Acompanhe o fechamento do ano e o que o conselho decidirá sobre distribuição em 2027.

1

Aprovação pelo CADE — o Conselho Administrativo de Defesa Econômica precisa liberar a operação; sem isso, o contrato não fecha e o caixa não entra.

2

Aprovação pela ANEEL — a agência reguladora precisa dar aval à transferência de participação indireta na EAPSA; prazo típico de meses.

3

Aprovação dos agentes financiadores da EAPSA — os credores da usina têm cláusulas contratuais que exigem concordância para mudanças no controle acionário.

4

Balanço do 4T26 e política de dividendos 2027 — somente depois do fechamento e do balanço anual saberemos se a série de desinvestimentos levou a alavancagem à meta de 3 vezes e abriu espaço para mais payout.