Por que Wall Street travou com o petróleo acima de US$ 106
INTERMEDIÁRIO PTENES

Petróleo acima de US$ 106 trava Wall Street de olho em inflação e balanços

Projeções apontam alta de 30,6% nos lucros do S&P 500 enquanto mercados aguardam a divulgação de índices de inflação.

Por que Wall Street operou sem direção única nesta semana?

A disparada repentina do petróleo acima de US$ 106 por barril e a cautela prévia com dados de inflação travaram as bolsas americanas. Segundo reportou o Money Times, os principais índices de ações em Nova York registraram comportamento divergente: de um lado, as ações de tecnologia sofreram correções imediatas; de outro, o setor ligado à energia ganhou tração com a alta das commodities energéticas.

O petróleo Brent rompeu a marca de US$ 106 por barril após ataques ao aeroporto de Riad.Dados de mercado compilados pelo Money Times

Enquanto os contratos futuros do petróleo bruto nos Estados Unidos subiram mais de 2%, a referência global do Brent avançou até o seu patamar mais alto em quase duas semanas. O estopim para a alta foi geopolítico: ataques com mortes reportados no aeroporto internacional de Riad, na Arábia Saudita, durante o fim de semana, reacenderam os temores sobre a vulnerabilidade física do abastecimento e transporte de óleo no Oriente Médio.

Esse choque na oferta de curto prazo atropelou a tentativa de pacificação no front do Leste Europeu. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, havia feito declarações públicas elogiando novas exportações russas de diesel e sustentando a tese de um cessar-fogo focado em alvos de infraestrutura energética entre Rússia e Ucrânia. O bombardeio em território saudita, no entanto, sobrepôs-se à retórica política e forçou o mercado a precificar risco de escassez imediata.

Expectativa política Aumento de oferta Declarações de Trump sobre exportações russas e cessar-fogo energético
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Realidade do mercado Brent > US$ 106 Ataques armados ao aeroporto internacional de Riad no fim de semana

O que o petróleo nos três dígitos muda na conta da inflação?

O retorno do barril de petróleo aos US$ 106 eleva os custos de combustíveis e fretes, ameaçando reacender os índices oficiais de preços nos Estados Unidos. A dinâmica dos preços de atacado e varejo depende diretamente do custo da energia primária. Quando a cotação do barril se sustenta em três dígitos, o encarecimento se transmite em cadeia para os transportes, alimentos e produtos manufaturados.

Esse repique ocorre em uma semana considerada decisiva para a política monetária global. Conforme apontam as fontes de mercado, os investidores aguardam nos próximos dias a divulgação oficial dos números de setembro do Índice de Preços ao Consumidor (CPI) e do Índice de Preços ao Produtor (PPI) norte-americanos, além dos dados de vendas no varejo.

Choque Energético US$ 106/barril

O Brent em alta de 2% pressiona custos de frete e derivados em escala global.

Balanços Corporativos +30,6%

Lucro esperado para as empresas do S&P 500 no 3T segundo a LSEG IBES.

Termômetro Macro CPI e PPI

Indicadores de inflação de setembro definirão os próximos passos dos juros do Federal Reserve.

O mercado de Treasuries (títulos públicos do governo norte-americano) permaneceu fechado na abertura da semana devido ao feriado do Dia de Colombo. No entanto, os investidores em ações mantiveram postura cautelosa, receosos de que uma pressão inflacionária combinada com o petróleo alto force os rendimentos dos títulos soberanos para cima assim que os negócios forem plenamente retomados.

Qual é a barra que os balanços do terceiro trimestre precisam superar?

A régua de lucros para o terceiro trimestre está extremamente alta, com projeção de crescimento de dois dígitos. De acordo com levantamento da consultoria LSEG IBES divulgado pela cobertura financeira, a expectativa consensual dos analistas é de que os lucros das companhias que compõem o índice S&P 500 avancem 30,6% na comparação anual do terceiro trimestre.

Com as ações de grandes empresas negociando a múltiplos esticados, qualquer frustração nos números divulgados pode gerar punições severas no pregão. Os grandes bancos abrem a fila de divulgação dos balanços: instituições financeiras de peso sistêmico, incluindo Goldman Sachs, Citigroup e JPMorgan Chase, apresentam seus números detalhados ao mercado.

Projeção S&P 500 (3T) +30,6%
Alta recente do petróleo bruto > +2,0%

O resultado dessas instituições servirá como termômetro da saúde de crédito do consumidor e das receitas com banco de investimento e corretagem. Caso a receita de intermediação financeira e os índices de inadimplência corporativa venham piores do que o previsto, o mercado terá dificuldades em sustentar o otimismo que impulsionou os índices nas últimas semanas.

O que isso muda para quem investe no Brasil?

Para o investidor brasileiro, o choque do petróleo afeta diretamente as cotações de empresas exportadoras de commodities e mexe com o custo do capital. Quando o barril sobe para US$ 106, petrolíferas locais e companhias ligadas à infraestrutura pesada costumam ganhar fôlego operacional e dividendos no curto prazo, servindo de contrapeso ao índice B3.

O que isso muda para a sua carteira

Se você tem BDRs de tecnologia, a pressão do petróleo nos juros dos EUA encarece o custo da dívida dessas empresas e pode frear os ganhos na bolsa americana. Já em ações locais brasileiras, o petróleo forte favorece petrolíferas, mas a ameaça de inflação global importada limita o espaço para o Banco Central cortar a taxa de juros doméstica.

Por outro lado, o encarecimento da commodity atua como um imposto indireto sobre o restante da economia. Empresas intensivas em consumo de combustível, como companhias aéreas e varejistas de logística pesada, passam a ter margens espremidas. Além disso, se os números de inflação nos Estados Unidos vierem acima do consenso, a atratividade dos títulos públicos americanos em dólar suga capital estrangeiro de países emergentes como o Brasil.

Quais são os gatilhos para acompanhar nos próximos dias?

O investidor deve acompanhar o desdobramento do conflito no Oriente Médio e a bateria de relatórios econômicos até o final da semana. O comportamento dos ativos de risco será guiado pela capacidade das companhias de comprovar o crescimento prometido de 30% nos lucros e pela confirmação ou não de desaceleração nos preços ao consumidor norte-americano.

1

Balanços de JPMorgan, Citigroup e Goldman Sachs — Avaliar se as receitas e a provisão contra devedores confirmam o rali bancário.

2

Cotação do petróleo Brent nos US$ 106 — Monitorar se a Arábia Saudita terá novas interrupções operacionais após o ataque ao aeroporto de Riad.

3

Divulgação de CPI, PPI e vendas no varejo — Verificar se o núcleo de inflação nos EUA dá espaço para o mercado de Treasuries respirar sem pressionar os juros globais.

Com o petróleo oscilando no topo da faixa recente e uma agenda carregada de balanços do terceiro trimestre, a volatilidade tende a permanecer elevada em Wall Street e a se espalhar pelas praças emergentes ao longo de todo o mês.