O Bureau of Economic Analysis (BEA) informou nesta quinta-feira (29) que a economia dos Estados Unidos cresceu à taxa anualizada de 3,4% no terceiro trimestre, e a Money Times reporta que o PCE, a inflação preferida do Fed, já acumula 3,6% em 12 meses. Um dia depois de o Federal Reserve manter os juros, os dois números reforçam a leitura de que o dinheiro caro nos EUA deve durar mais do que muita gente esperava.
O Fed vai subir os juros em dezembro?
Ainda não está decidido, mas parte do comitê já votou por subir. Na quarta-feira (28), segundo o InfoMoney, o Fed manteve a taxa básica entre 3,75% e 4% ao ano, o que o mercado esperava. O placar, porém, foi de dez votos pela manutenção e duas dissidências: as diretoras Lisa Cook e Beth Hammack queriam um novo aumento de 0,25 ponto percentual já nesta reunião.
Para Vitor Kayo, economista sênior da Nomad, ouvido pelo InfoMoney, os dois votos mostram que parte do Fed já defende novo aperto e aumentam as chances de uma alta na próxima reunião, em dezembro. A justificativa oficial do banco central para segurar a taxa foi a necessidade de acumular mais informações antes de decidir. Esse racha não é inédito: já havíamos mostrado a divisão interna na ata do Fed e o debate sobre juros altos.
Ou seja, a manutenção de quarta foi uma pausa, e nenhum dado isolado fecha a decisão de dezembro. O que o PIB e a inflação divulgados nesta semana fazem é pesar na balança. Primeiro, o lado da atividade.
O que o PIB mostra sobre a economia americana?
Que ela acelerou. O BEA reportou que o avanço anualizado do terceiro trimestre superou o do segundo, e a diferença é de 1,2 ponto percentual.
Taxa anualizada é a conta de quanto o PIB cresceria em um ano se o ritmo do trimestre se mantivesse. Na comparação direta com o trimestre anterior, sem anualizar, a economia americana avançou 0,8%, já com ajuste sazonal. Este é um número de primeira leitura, e leituras iniciais costumam ser revistas depois.
O que puxou e o que segurou o resultado, segundo o relato da Money Times sobre o documento do BEA:
- Investimentos: formação de estoques privados e compra de equipamentos, sobretudo computadores e periféricos.
- Consumo das famílias, tanto em serviços quanto em bens: saúde, alimentação fora de casa, hospedagem e medicamentos com receita.
- Gastos do governo, que também subiram.
- Queda das exportações e alta das importações, que entram como dedução no cálculo do PIB e limitaram a expansão.
O detalhe que mais interessa a quem acompanha o Fed é outro. As vendas finais reais para compradores privados domésticos, que somam consumo das famílias e investimento fixo privado, avançaram 4,9% anualizados, depois de 4,6% no segundo trimestre. Essa medida deixa de fora estoques, governo e comércio exterior, então mostra a demanda privada mais direta. Ela acelerou 0,3 ponto percentual, e não só o PIB cheio.
A compra de computadores e periféricos aparece entre os destaques do investimento. Como esse tipo de gasto se relaciona com a tese da inteligência artificial e com a inflação é um debate que já fizemos em nossa análise sobre o boom de IA e os juros nos EUA. A fonte do PIB não faz essa ligação; ela só lista o item. Falta, então, o outro lado da conta.
Por que a inflação preferida do Fed pesa tanto agora?
Porque o PCE é o termômetro que o Fed olha para decidir, e ele está longe do alvo. A Money Times diz que o índice acelerou e acumula 3,6% em 12 meses, 1,6 ponto percentual acima da meta de 2% que o banco central persegue. Em setembro, a leitura mensal foi de 0,5%. As fontes que recebemos não separam com clareza o índice cheio do núcleo nesse número mensal, então tome o 0,5% como o sinal de aceleração, não como medida exata de um ou de outro.
O quadro fica mais firme com o outro índice de preços citado pelo InfoMoney. O CPI, o índice de preços ao consumidor, acelerou de 3,4% para 3,7% no acumulado de 12 meses, puxado pelo encarecimento da gasolina. O salto de setembro já tinha reaberto a discussão sobre alta de juros, como registramos quando a inflação dos EUA acelerou em setembro.
Essa é a leitura de gestoras e economistas ouvidos pelo InfoMoney, que ainda esperam movimentos de alta nas próximas reuniões. Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, resumiu a manutenção desta forma:
“uma pausa tática, e não uma mudança de rota”Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, ao InfoMoney
Sung acrescenta que o Fed condiciona explicitamente o próximo passo aos dados, sem renunciar ao viés de aperto. Por isso o PIB e o PCE desta semana interessam tanto: são justamente esses dados.
O que isso muda para o seu dinheiro?
Juro alto por mais tempo nos EUA pesa sobre ações de tecnologia e ajuda as Treasuries longas. Nada nas fontes manda comprar ou vender: o que mudou foi o cenário em que cada ativo vai operar até dezembro.
Na renda variável americana, a leitura da nossa redação é que dados fortes de atividade e inflação sugerem que o ciclo de aperto pode não ter terminado, o que pressiona os ativos de tecnologia. A Nasdaq recuava 1,39% na rodada, a 26.181,62 pontos. Para o S&P 500, o efeito é de reforço da visão pessimista, porque os múltiplos já esticados convivem mal com juros altos por mais tempo. Quem tem BDRs ou ETFs que replicam esses índices sente isso na cota.
Na renda fixa americana, a conta é diferente. A manutenção dos juros em nível elevado sustenta a atratividade das Treasuries longas, ainda que a volatilidade dos dados de inflação mexa com o preço. O papel de maior prazo é o mais sensível a surpresas de preço; já mostramos esse movimento quando as Treasuries de 10 anos recuaram após o CPI. O TLT, que representa as Treasuries longas, é o ativo do nosso universo mais ligado a esse debate.
E o Brasil? As fontes desta pauta não trazem dados brasileiros, então o raciocínio aqui é qualitativo: juro americano elevado costuma tornar o dólar mais atraente e a vida dos bancos centrais emergentes mais difícil. Se você tem parte da carteira lá fora, o risco de curto prazo mora na renda variável de tecnologia; se tem renda fixa em reais, o efeito chega de forma indireta, por câmbio e apetite a risco.
O que acompanhar até a reunião de dezembro?
Quatro números dizem se a pausa de quarta vira alta ou continua pausa:
Próximas leituras do PCE — a régua é a meta de 2%; enquanto o acumulado ficar na casa dos 3% e a mensal na casa dos 0,5%, o Fed tem argumento para apertar.
O CPI de 12 meses — está em 3,7%, depois de 3,4%; uma nova aceleração, mesmo puxada pela gasolina, reforça o grupo que quer subir.
O placar do Fed — hoje são dois votos por alta contra dez pela manutenção; um terceiro voto dissidente mudaria o tom da leitura de dezembro.
A demanda privada — as vendas finais a compradores privados domésticos estão em 4,9% anualizados; se desacelerarem, o argumento de economia forte perde força.
O resumo é simples: a economia americana segue forte, a inflação do PCE continua longe da meta e o Fed, um dia antes dos dados de atividade, mostrou que não descarta voltar a subir os juros. Se nada disso mudar, a pausa de quarta deve ser lida como intervalo, não como fim do ciclo, e o investidor deve planejar a carteira para juros altos por mais tempo.