O JPMorgan rebaixou o Bradesco e cortou o preço-alvo da ação BBDC4 em quase 30%, segundo a InfoMoney, o segundo rebaixamento em sequência depois do Itaú BBA. É esse pano de fundo que pesa sobre o papel, negociado a R$ 14,19, em queda de 3,34% na rodada.
Por que o BBDC4 está caindo hoje?
Porque duas casas grandes derrubaram a visão sobre o banco, uma atrás da outra. O JPMorgan alterou a recomendação do Bradesco e cortou o preço-alvo, movimento que a InfoMoney trata como relevante por vir de uma casa de peso. Antes dele, o Itaú BBA já havia tirado a recomendação de compra. Segundo a Money Times, o Bradesco era até pouco tempo atrás o favorito do BBA entre os bancões.
A ação já vinha pressionada: nossa cobertura do debate sobre os lucros do Bradesco mostra a queda que antecedeu estes rebaixamentos. A sequência dos dois golpes:
Dois cortes seguidos não são a mesma coisa que um. Mas qual dos dois pesa mais?
Quanto pesa o corte do JPMorgan no preço-alvo?
Bastante, e a conta mostra o porquê. O Itaú BBA reduziu o alvo de R$ 22 para R$ 20, uma revisão de 9,1%. O corte do JPMorgan é cerca de três vezes maior. Preço-alvo é quanto a casa acha que a ação deveria valer; cortá-lo quase pela metade do caminho entre "intacto" e "metade do valor" quer dizer que a casa refez sua visão sobre os ganhos ou os riscos do banco, não que ajustou uma vírgula.
O que não sabemos: o material a que tivemos acesso não traz o novo valor do alvo do JPMorgan nem os argumentos dele. O que está documentado é a magnitude do corte e o rebaixamento. Por isso, as razões a seguir são as do Itaú BBA, não do JPMorgan.
Um detalhe evita leitura errada: mesmo depois do corte, o alvo de R$ 20 do BBA fica cerca de 41% acima dos R$ 14,19 da rodada. Rebaixamento não é "a ação vale menos do que o preço". É que o alvo caiu e a recomendação esfriou, em sequência, e é essa direção que o mercado está precificando.
O que o Itaú BBA enxerga para o Bradesco em 2027?
Um cenário mais difícil para fazer crédito. Em relatório, o BBA diz que o banco terá mais dificuldade para atravessar o que vem pela frente, marcado por juros mais altos e menor crescimento econômico. Segundo a Money Times, o Bradesco já deu sinais de fadiga no terceiro trimestre: voltou a aumentar as provisões para perdas e reduziu a cobertura da inadimplência. Nossa prévia do balanço do 3T26 mostra por que esse ponto estava sob lupa.
“O ambiente macroeconômico previsto para 2027 aponta para atividade econômica e níveis de confiança mais fracos, o que provavelmente restringirá a demanda por crédito e/ou prejudicará a capacidade de pagamento dos tomadores de empréstimos”Itaú BBA, em relatório sobre o Bradesco
O relatório acrescenta duas frentes de risco: juros altos desaceleram a recuperação do segmento de atacado e prolongam a pressão sobre os tomadores de crédito corporativo, e a disparada do endividamento das famílias, somada ao risco de crédito entre pequenas empresas, pode reduzir ainda mais a demanda e piorar a capacidade de pagamento.
O que o Santander tem a ver com isso? Por que o SANB11 também caiu?
O Santander é o outro lado da mesma moeda: um balanço fraco no mesmo trimestre, no mesmo clima. O lucro líquido recorrente do Santander Brasil caiu 28% no terceiro trimestre, para R$ 2,9 bilhões, e o ROE (retorno sobre o patrimônio) foi de 17,5% para 11,9% em um ano. A ação SANB11 chegou a cair mais de 4% depois do balanço, segundo a Money Times. Detalhamos os números na análise do balanço do Santander no 3T26.
O CEO Gilson Finkelsztain admitiu em teleconferência que a escolha cobra seu preço: “a estratégia de colocar mais esforço e capital nos segmentos de menor risco vem nos custando no curto prazo, com queda de spread, mas é vitoriosa no longo prazo”. O plano é direcionar mais capital a clientes de alta renda e grandes empresas e reforçar o atacado. Nas pequenas e médias empresas, o crescimento virá de serviços como gestão de caixa e adquirência, e não de crédito sem garantias.
Santander e Bradesco têm estratégias diferentes, mas o diagnóstico de fundo é parecido: crédito mais caro de fazer crescer, e margem apertada. Como os bancos têm peso grande no Ibovespa, a combinação de balanços fracos e revisões negativas pesa também no índice, como vimos no tombo dos bancos depois das eleições.
Rebaixamento é ordem de venda?
Não. O Itaú BBA foi para neutra, não para venda, e manteve um alvo acima da cotação. Rebaixamento é a opinião de duas casas, e casas erram. O que ele faz é mexer no humor do mercado e no fluxo de compra e venda de curto prazo, e é isso que aparece na cotação de hoje. Se a sua tese é de longo prazo, a pergunta útil é outra: o que o BBA descreve (juros altos, crédito mais fraco, inadimplência) vai se materializar nos números do banco?
O preço de hoje reflete o susto de duas revisões seguidas, não um novo resultado do banco. O que mudou é a régua dos analistas: o alvo médio do que o papel "deveria valer" ficou mais baixo, e o argumento central (juros altos e crédito mais fraco em 2027) só se prova ou se desmente nos próximos balanços.
Mais casas seguindo o BBA e o JPMorgan: se outras grandes cortarem a recomendação, deixa de ser dois casos e vira consenso; se não vierem, o movimento fica isolado.
Provisões e cobertura da inadimplência no próximo balanço: o BBA apontou aumento de provisões e queda na cobertura no 3T. Nova piora nos dois sustenta a tese dele.
Juros e atividade em 2027: o relatório do BBA parte de juros mais altos e crescimento menor. Se o cenário mudar, a tese cai junto.
Cotação contra o alvo do BBA: R$ 14,19 hoje, ante R$ 20 de alvo. Se o papel perder força sem notícia nova de resultado, é humor de mercado; se vier com balanço, é fundamento.