Por que o dólar e os juros futuros caíram hoje?
O mercado financeiro reagiu à divulgação de novas pesquisas eleitorais presidenciais que mostram o senador Flávio Bolsonaro (PL) mantendo a liderança numérica contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a poucos dias do segundo turno. A leitura dos agentes de mercado de que a probabilidade de vitória da oposição aumentou levou a uma contração rápida dos prêmios de risco, empurrando o dólar à vista para o patamar de R$ 5,01 e devolvendo a alta recente das taxas de juros futuros (DIs) e do Tesouro Direto.
A divulgação de dados pelas sondagens Real Time Big Data, AtlasIntel e BTG/Nexus concentrou a atenção dos operadores. Profissionais de mercado ouvidos pela Reuters vincularam o alívio nas taxas dos DIs diretamente ao quadro eleitoral, destacando que a ponta longa da curva foi a mais beneficiada pelo desmonte de posições defensivas montadas no início da semana.
Além da dinâmica interna, o alívio doméstico operou em sintonia com o cenário externo. O rendimento da Treasury de 10 anos dos Estados Unidos — a principal taxa de referência global para precificação de risco — recuava 3 pontos-base pela manhã, negociada a 5,106%, colaborando para a desvalorização global da moeda norte-americana frente a moedas emergentes.
Queda de 1,00% na rodada, acumulando perda de 8,04% no ano.
Recuo de 12 pontos-base frente ao ajuste anterior de 12,889%.
Queda firme de 16 pontos-base na ponta longa da curva a termo.
Devolveu 14 bps, voltando ao menor nível desde 15 de outubro.
O que as pesquisas eleitorais mostraram para mexer nos preços?
A sequência de levantamentos eleitorais publicados entre a segunda e a terça-feira consolidou o candidato da oposição à frente na contagem de votos válidos, ainda que dentro de margens apertadas. O mercado vinha exigindo prêmios elevados diante da incerteza sobre o desfecho eleitoral, e a reiteração da vantagem numérica foi interpretada pelas mesas de operação como um cenário de continuidade de políticas fiscais mais alinhadas com a disciplina de gastos.
Na sondagem Real Time Big Data, realizada entre 15 e 19 de outubro, Flávio Bolsonaro apareceu com 52% dos votos válidos, contra 48% de Lula. Na contagem de votos totais, o placar apontou 48% a 45% a favor do senador.
Já no levantamento da AtlasIntel (contratado pela Bloomberg), o senador do PL registrou 49,8% ante 47,6% do atual presidente. A margem de erro da sondagem é de 1 ponto percentual, o que colocou Flávio Bolsonaro 0,2 ponto acima do limite técnico de empate. Na pesquisa BTG/Nexus, o cenário apontou empate técnico rigoroso dentro da margem de 2 pontos percentuais, com 46,5% para Flávio e 45,9% para Lula.
Fernando Bergallo, diretor da assessoria FB Capital, pontuou que, embora as pesquisas tenham indicado margens apertadas entre os candidatos, a confirmação da liderança numérica sustentou o recuo da pressão sobre os contratos futuros da B3 e induziu vendedores de moeda a zerar posições compradas no curto prazo.
Como as taxas do Tesouro Direto responderam ao movimento?
Os títulos públicos prefixados devolveram praticamente toda a alta acumulada no pregão anterior, beneficiando diretamente quem já carregava os papéis em carteira via marcação a mercado. Conforme apurado pelo InfoMoney na abertura dos negócios desta terça-feira, o Tesouro Prefixado 2029 liderou os recuos nominais da plataforma do Tesouro Direto.
A taxa oferecida pelo Tesouro Prefixado 2029 desceu de 12,83% para 12,69% ao ano, uma retração de 14 pontos-base. O patamar é o menor registrado pelo papel desde o encerramento da quinta-feira, 15 de outubro, quando o ativo fechou a 12,68%.
Nos vértices mais longos de renda fixa, o movimento seguiu a mesma toada de alívio:
- Tesouro Prefixado 2032: a taxa caiu de 13,04% para 12,91% ao ano (recuo de 13 pontos-base).
- Tesouro Prefixado com Juros Semestrais 2037: o rendimento recuou de 13,04% para 12,94% ao ano (-10 pontos-base).
- Tesouro IPCA+ 2032: queda mais contida de 6 pontos-base, passando de IPCA + 6,86% para IPCA + 6,80% ao ano.
- Tesouro IPCA+ 2050 e 2060: recuos de 4 pontos-base cada, com o IPCA+ 2050 indo para IPCA + 6,70% e o IPCA+ com Juros 2060 cedendo para IPCA + 6,71%.
O que essa compressão de juros muda na sua carteira?
A queda das taxas futuras gera valorização imediata do preço unitário (PU) dos títulos já contratados, um efeito conhecido como marcação a mercado positiva. Quando a curva de juros cede, o título emitido a taxas mais altas no passado passa a valer mais no mercado secundário caso o investidor queira vendê-lo antes do vencimento.
Tesouro IPCA+ e Prefixados: se você comprou papéis nos picos de estresse da segunda-feira (com prefixados a 13,04% ou IPCA+ a 6,86%), seu saldo na corretora abriu em alta. Porém, para quem planejava alocar novo capital agora, as taxas nominais de entrada diminuíram.
Exposição cambial: com o dólar tocando R$ 5,01, o custo de dolarização da carteira caiu. Embora o prêmio eleitoral imediato tenha recuado, a alocação defensiva em ativos no exterior permanece recomendada por gestores como seguro contra choques externos.
A retração no prêmio de risco estrutural também costuma favorecer ativos sensíveis a juros longos na Bolsa de Valores. Companhias do setor imobiliário, varejo e o índice de Small Caps tendem a destravar valor quando a taxa de desconto aplicada aos lucros futuros diminui no horizonte de longo prazo.
Cuidado com a volatilidade até domingo: a disputa eleitoral segue dentro da margem de erro em levantamentos como o BTG/Nexus (46,5% a 45,9%). Qualquer oscilação em pesquisas finais ou eventos de debate pode reverter o fechamento de taxas com a mesma velocidade.
O que acompanhar até o encerramento da eleição?
A definição da curva de juros para o restante de 2026 e o início de 2027 depende do desfecho das urnas no domingo e dos primeiros sinais sobre a composição da equipe econômica do presidente eleito. Há três termômetros decisivos para monitorar ao longo desta semana:
Novas pesquisas de reta final — Acompanhar se o distanciamento apontado pela Real Time Big Data (52% a 48%) se confirma em outros institutos ou se os números voltam ao empate técnico da BTG/Nexus.
Suporte da taxa do Treasury de 10 anos nos EUA — O patamar de 5,10% continua elevado historicamente. Se os rendimentos americanos romperem essa barreira para cima, a pressão externa pode anular o alívio doméstico.
Patamar do dólar comercial a R$ 5,00 — A barreira psicológica de R$ 5,00 atrai fluxo comprador de proteção cambial. Caso o câmbio fure essa linha para baixo, o alívio na inflação projetada pode acelerar o fechamento dos DIs intermediários.
Até a apuração dos votos, o investidor pessoa física deve tratar movimentações fortes de marcação a mercado com cautela, evitando alongar prazos excessivos sem liquidez em momentos em que a volatilidade política dita as cotações diárias.